Tão Só o Fim do Mundo

Beber a delicadeza e a rudeza de um só trago.

 

Título original: Juste la fin du monde (CAN, FRA – 2016)
Realizador: Xavier Dolan
Argumento: Xavier Dolan
Protagonistas: Nathalie Baye,  Vincent Cassel,  Marion Cotillard

Louis regressa à casa da família, numa pequena vila francesa, depois de mais de uma década de ausência. Ele é um escritor louvado no mundo do espectáculo, mas ali é um perfeito desconhecido, quase um semi-famoso a quem saiu na rifa visitar uma família disfuncional que o idolatra. A sua visita tem um motivo trágico, tal como ele nos revela sem rodeios logo na primeira cena do filme, ainda no avião. Ele vem anunciar-lhes o seu fim.

A mãe, a irmã mais nova, Suzanne (Léa Seydoux), e o irmão mais velho, Antoine (Vincent Cassel), recebem-no com um misto de entusiasmo e cerimónia. Catherine, a esposa de Antoine, tenta recuperar o tempo perdido contando-lhe tudo sobre os seus filhos, enquanto Antoine resmunga que ele não está interessado – porque estaria? É só o princípio da sua implicância, com raízes bem profundas.

Na verdade, aquela já não é a casa original da família, é uma segunda casa para onde se mudaram já ele não fazia parte do agregado familiar. Louis comenta que gostaria de ver a casa antiga, mas Antoine diz-lhe que a ideia é ridícula, enquanto Suzanne tenta fazer tudo para agradar ao irmão. Suzanne era ainda pequena quando Louis saiu de casa e cresceu a imaginá-lo através dos postais que ele enviava nos aniversários e festividades. Ou lendo as críticas aos seus espectáculos, a acontecer muito longe daquele lugar minúsculo, de onde também ela quer sair, um dia, quem sabe.

Para a mãe de Louis, interpretada pela fascinante Nathalie Baye, que aqui encarna uma mãe à Almodóvar, de maquilhagem carregada e gestos teatrais, o que aconteceu e acontece na vida do filho é um mistério. Mas ela não faz muitas perguntas. Na cara de Louis as más notícias que traz são óbvias, mas só Catherine o percebe de imediato. Louis procura o momento certo, seja ele qual for, para lhes dizer o que veio dizer. Talvez depois do prato principal. Ou depois da sobremesa.

Baseado na peça com o mesmo nome, escrita pelo dramaturgo Jean-Luc Lagarce, o filme tem a forma muito própria de Dolan: a brutalidade dramática servida com algo de dreamy e poético. Um pequeno pássaro que sai de um relógio de cuco para cair morto no chão, porque o tempo está a contar – para todos. O filme é um retrato onde se pode ver quão bela é a fragilidade humana e a vontade de amar numa família, bem como a brutalidade das falhas de comunicação, dos egos e dos medos que nos embrutecem.

Antoine está zangado com o mundo em geral e não consegue evitar estragar qualquer momento de amena conversa entre a família. Ofende a irmã, maltrata a mulher e ignora as recomendações da mãe, resistindo a qualquer tentativa de conexão como um animal que só sabe rosnar e atacar. A família está partida e parece que Louis, diz-lhe a mãe num momento belíssimo entre mãe e filho, tomou o lugar de chefe de família depois da morte do pai. Mas Louis não está lá, quando muito é um herói relutante.

O filme dividiu as opiniões dos críticos em Cannes e acabou por arrecadar o Grande Prémio do festival. O canadiano Dolan iniciou a sua carreira como actor em criança e o seu primeiro filme como argumentista e realizador, J’ai tué ma mère (Eu Matei a Minha Mãe), foi também premiado em Cannes em 2009. O filme seguinte, Os Amores Imaginários, abriu o festival IndieLisboa’11. Os filmes seguintes têm confirmado a sua importância e potencial como realizador. Mais recentemente, Dolan realizou o videoclip da música “Hello” de Adele.

Tão Só o Fim do Mundo é, pela sua parte, um filme tocante e extremamente emotivo. Dolan demora-se nos planos silenciosos em ralenti, dando às personagens todo o tempo para que a sua complexidade habite organicamente o ecrã. O tempo dilata enquanto Catherine e Louis se olham e tudo fica por dizer. Mas não tem mal, os problemas de cada um, para cada um, são só o fim do mundo.

 

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