Curso intensivo de vendas para underdogs.

 

Título original: American Honey (GB, EUA – 2016)
Realizador: Andrea Arnold
Argumento: Andrea Arnold
Protagonistas: Shia LaBeouf, Sasha Lane, Riley Keough

O Lisbon & Estoril Film Festival começou no sábado dia 4 e durou até este domingo. Trouxe-nos um pouco de tudo: antestreias, homenagens e retrospectivas (de Emir Kusturica, Jean-Luc Godard e Jerzy Skolimowski), conversas e encontros a propósito do cinema, com a presença de verdadeiras estrelas.

Um dos filmes muito aguardados foi American Honey, realizado pela britânica Andrea Arnold, a história de uma rapariga chamada Star, que encontra uma saída para a sua vida meio impossível quando conhece Jake, um entrepreneur gingão que a convida para trabalhar com ele e o seu estranho grupo itinerante a vender revistas porta-a-porta. A química entre eles é quase automática e ela não tem nada a perder, na verdade, por isso arrisca e aparece em frente ao motel, à hora combinada. O grupo recebe-a calorosamente, mas Star terá que provar à chefe da matilha, a verdadeira american honey – a típica girl next door oriunda de uma pequena cidade americana – Krystal (Riley Keough), que tem aquilo que é preciso. Krystal tem uma relação dúbia com Jake, que é ora seu secretário ora seu amante, e o seu vendedor mais experiente.

É ele quem treina Star no seu ‘estágio’, mas ela não concorda propriamente com os métodos de venda estabelecidos. Revoltada com as mentiras e esquemas, ela vai à procura da sua própria forma de fazer as coisas. O truque é descobrir o que as pessoas realmente querem e vender-lhes isso mesmo. O limite entre criar empatia e vender a sua companhia e sensualidade é ténue, contudo.

American Honey é um filme sensorial e materialista, no melhor sentido: sentimos, como Star, que estamos a descobrir um mini-universo alternativo, e que há que aproveitar cada segundo, cada expressão, cada oportunidade. Cada dólar ganho é uma celebração e quem produz pouco tem que lutar frente-a-frente na noite dos perdedores. A banda sonora, jovem e atual, entre o hip hop alternativo e Rihanna, aproxima-nos do seu universo.

Antes de conhecer Jake, Star pedia boleia acompanhada por duas crianças que não eram suas, mas estavam a seu cargo por motivos que não são aprofundados. O passado de Star é misterioso como a sua figura, que atrai a câmara mas não revela muito. À medida que assistimos ao seu reality-check, há pedaços da sua história que vão encaixando. O seu olhar é de espanto para com tudo, sem medo de se colocar em situações que prometem ser desastrosas. Se escapar delas a faz uma sortuda, não se sabe exatamente. É tudo uma questão de perspectiva.

Shia LaBeouf tem um comeback interessante, ele que tanto tem dado que falar onde menos esperávamos encontrá-lo, a confirmar algo de intrigante na sua representação. Talvez não seja o actor mais versátil de sempre, mas há algo nele que nos faz querer continuar a ver o que será feito da sua personagem – Jake, o vendedor bem sucedido que tem sonhos alimentados por formas mais e menos óbvias de roubo, e em quem nunca sabemos se Star deveria realmente confiar.

O realizador coloca-nos a uma distância confortável entre sentir na pele o que se passa com as personagens e ser mero espetador do seu destino, um pouco como as pessoas a quem vendem revistas. O caminho para ultrapassar uma certa superficialidade que possa ser efeito secundário residirá no exercício que podemos fazer ao apanhar as pequenas subtilezas e símbolos do filme – como a tartaruga que Jake oferece a Star no final, uma das suas muitas prendas, ou o seu renascimento à medida que emerge de um lago onde mergulha na última cena.

We’re all made of stars.

 

 

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