Um western inteligente e atual.

 

Título original: Hell or High Water (GB, EUA – 2016)
Realizador:David Mackenzie
Argumento: Taylor Sheridan
Protagonistas: Dale Dickey,  Ben Foster,  Chris Pine

Hell or High Water é mais uma ante-estreia promissora trazida pelo LEFFEST – Lisbon & Estoril Film Festival, a estrear brevemente nas salas portuguesas.

Toby e Tanner são dois irmãos que se reúnem, após a morte da mãe, para assaltar alguns bancos locais. Mas eles não são apenas bandidos ocasionais. Eles vão executar a vingança perfeita contra o inimigo comum neste western moderno onde cowboys e índios estão do mesmo lado. Tanner não se dava bem com o pai – de tal forma que acabou por matá-lo e cumpriu tempo na prisão pelo crime – e Toby, que investiu o seu tempo na família, está divorciado e tem dois filhos que raramente vê e uma ex-mulher chateada como tudo.

O seu plano não é apenas acumular dinheiro. Inicialmente pensamos que são apenas dois fora-da-lei que decidiram aproveitar o facto de estarem à margem da sociedade para tirar partido desse estado de graça que é não ter nada a perder. Mas há mais do que isso. A casa e os terrenos da mãe, o único bem que lhes resta, estão hipotecados pelo banco. Toby arquiteta um esquema genial para virar a agenda bancária a favor do cidadão: pagar a hipoteca dos terrenos da mãe com o dinheiro que roubaram do banco e estabelecer um fundo para o filho, que será, justiça poética seja feita, gerido pelo mesmo banco, sem que este tenha qualquer conhecimento da origem do dinheiro – porque foi trocado por fichas num casino local e depois levantado como se tivesse sido um prémio ganho.

Toby é o cérebro da operação e Tanner tem o know-how necessário para lidar com os aspetos mais físicos, entre eles manusear armas como um artista. Os motivos de Toby e Tanner, investigada a sua psicologia e planos pelo xerife quase-a-reformar-se interpretado por Jeff Bridges, são diferentes. Mas entre os dois irmãos que estão próximos quando brincam como se ainda fossem crianças, e afastados porque entretanto a vida aconteceu, há uma harmonia que torna o plano quase perfeito.

Quase. Porque Bridges é um xerife experiente, à espera que eles cometam um erro que vai fazer com que sejam apanhados. Dead or alive. O vilão aqui é, na realidade, um banco: o Texas Midlands Bank. Trata-se de uma guerra económica, transformada em guerra de princípios no meio de um Texas quase deserto, onde as pessoas são cada vez mais pobres, as gerações mais jovens rejeitam o trabalho no campo, e a sede de petróleo mina tudo. A fotografia do filme instala-nos plenamente nesse ambiente seco e quase asfixiante, enquanto os dois são perseguidos pelas formas de justiça local.

O filme estreou na 69ª edição do Festival de Cannes e marcou presença no LEFFEST, recebido por um público que passou grande parte do filme a rir com as piadas fáceis, mas bem conseguidas, de cada uma das personagens. Está cheio de pequenas alusões à tradição do conflito entre cowboys e índios, que aqui lutam contra a opressão silenciosa dos bancos e a sua implacável procura do lucro acima da vida das pessoas.

O filme passa-se no West Texas, mas foi filmado em Eastern New Mexico. O género neo-western pode apelar mais a uns do que a outros. Pessoalmente, sempre adorei um bom western e ver o género recuperado e reinventado é uma boa surpresa. Aqui, a escolha de dois actores sólidos e de calibre, como são Pine e Foster, é decisiva e eles formam uma dupla perfeita. Bridges é, como sempre, aquele Dude. E esperemos que não se reforme tão cedo.

 

 

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