F***, Marry, Kill: Tom Cruise Edition

F***, Marry, Kill

 

Para os que chegam a esta crónica pela primeira vez, começo por explicar em que consiste exatamente esta minha bizarra crónica. Para os mais inocentes entre nós, “F***, Marry, Kill” é um jogo agradavelmente parvo em que, mediante três opções entre celebridades giras, celebridades bizarras ou até personagens de ficção, temos de escolher com as quais faríamos… bem, as três escolhas dadas no título. Partindo desta premissa, decidi aplicar estas regras ao mundo do cinema e da televisão. Como? Escolhendo uma figura (realizador, ator, argumentista, tudo o que me lembrar) e aplicando estas regras à sua filmografia: especificamente escolhendo uma obra sua para “f***” (um filme ou série muito revisitável, não necessariamente o melhor mas aquele que não conseguimos resistir ver se nos passar à frente dos olhos), “marry” (o mais indispensável, o favorito, aquele que, a sermos forçados a escolher apenas um para o resto da nossa vida, não conseguiríamos prescindir) e “kill” (a ovelha negra da família, que teríamos aqui a oportunidade de apagar para sempre das nossas memórias coletivas). Estamos todos esclarecidos? Comecemos então.

Esta semana, vamos olhar a para a curiosa carreira de Tom Cruise. Sim, eu sei que ao longo dos anos se tornou uma piada fácil gozar com o ator americano – o próprio não ajuda, com a sua tendência para se comportar como uma criança depois de três sacos de gomas e de se assumir como embaixador dos bizarros ideais da Cientologia. Mas, quando olhamos para a sua filmografia, vemos uma coleção impressionante de êxitos e grandes filmes. Só para dar uma ideia, ficaram de fora destas escolhas obras como “Top Gun – Ases Indomáveis”, “Nascido a 4 de Julho”, “A Firma”, “Missão Impossível”, “Colateral”, “Relatório Minoritário” e até o mais recente (e incrível) “No Limite do Amanhã”. Ainda estou aqui meio parvo à frente do computador a pensar como raio posso deixar “Jerry Maguire” e “Magnólia” de fora.

Mas pronto, isto não é uma lista de lamentos com os limites da crónica que eu próprio criei. Siga com isto:

 

F***: “Uma Questão de Honra” (1992)

A energia e carisma de Tom Cruise com as brilhantes palavras de Aaron Sorkin? Sim, muito obrigado. Não sei se temos sequer uma mão cheia de filmes na História do Cinema que sejam mais revisitáveis que este clássico moderno de Rob Reiner. “Olha, ele está a aceitar o caso. Vou ficar a ver. Só um bocadinho”. “Olha, estão em Guantanamo. Ok, se calhar vejo o resto”. “A cena do tribunal? Não posso mesmo perder isto!” – todos estes são pensamentos comuns na nossa cabeça quando apanhamos este filme a dar na televisão. E quem entre nós pode dizer que não gritou “YOU CAN’T HANDLE THE TRUTH!” aos altos berros, por razão absolutamente nenhuma? Nas mãos de Sorkin, Cruise usa aqui todas as facetas do seu incomparável carisma para nos levar numa viagem emocional em que começa mimado e arrogante e termina como um defensor feroz da verdade e da justiça – mesmo considerando que desempenha o papel de um advogado. É impossível resistir ao charme deste filme.

 

MARRY: “Encontro de Irmãos” (1988)

Sim, eu sei que a verdadeira estrela deste filme é Dustin Hoffman, com aquela que é uma das melhores performances de um ator que alguma vez vi. Mas escolho este filme aqui por duas razões: 1) esta não é uma escolha da melhor performance de Tom Cruise mas antes o meu filme favorito da sua filmografia; 2) a sua performance neste filme é uma das melhores e mais subtis da sua carreira. A loucura do autista Raymond Babbitt só ganha relevo aos nossos olhos por contraste com a exasperação do seu arrogante irmão, Charlie. Se Hoffman carrega a narrativa deste filme, é em Cruise que encontramos uma ligação emocional a esta divertida mas melancólica história. É nos olhos de Cruise que nos vemos espelhados, que vemos refletidas questões como: “será que eu reagiria assim perante um irmão perdido com todos estes problemas?”. Este é um filme muito divertido mas cuja marca na história da indústria nasce da emoção que nos provoca. E devemos isso a Tom Cruise

 

KILL:Horizonte Longínquo” (1992)

O grande problema de falar sobre este filme é que, cerca de cinco minutos depois de o ter visto, eu já me tinha esquecido de grande parte do que nele se passava. Nem sei bem o que se passou aqui. O realizador é o (quase sempre) muito consistente Ron Howard e o duo de protagonistas (na altura um casal também na vida real) formado por Tom Cruise e Nicole Kidman tinham no seu currículo várias belíssimas performances. Mas o resultado? Uma valente seca. No papel, esta história de imigrantes irlandeses à procura de uma vida melhor no Velho Oeste tinha tudo para ser um épico de prestígio com aspirações até a ser premiado nos Óscares. Não aconteceu. Foi ignorado pela crítica e, apesar de uma performance razoável nas bilheteiras, esquecido rapidamente pelo público. Com graus diferentes de qualidade, os filmes de Tom Cruise costumam ser pelo menos bom entretenimento. Mas, por todas as razões e mais alguma, este “Horizonte Longíquo” é o raro filme de Cruise votado ao esquecimento.

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