Quem são eles? O que querem de nós?

 

Título original: Arrival (EUA – 2016)
Realizador: Denis Villeneuve
Argumento: Eric Heisserer
Protagonistas: Amy Adams, Jeremy Renner, Forest Whitaker

Este não é o habitual filme sobre invasão de extra-terrestres. Desta vez a Casa Branca, a Torre Eiffel e a Torre de Londres ficam intactas. Na verdade, Arrival é sobre o medo que o desconhecido provoca ao ser humano e como decidimos lidar com ele.

Pouco ou nada se pode dizer sobre o filme sem correr o risco de estragar a experiência. Nem a tradução portuguesa do título é particularmente feliz. Mas vamos lá tentar.

As primeiras imagens que recebemos são de uma beleza e angústia esmagadoras. É assim que somos expostos ao nascimento e morte prematura da filha da Dra. Louise Banks (Amy Adams). Num dia, enquanto dá aulas de estudos linguísticos numa universidade, ela e os seus alunos apercebem-se que algo de importante terá acontecido. As notícias relatam que, de um dia para o outro, apareceram uns objectos gigantes de forma elíptica em doze países espalhados no mundo.

Banks, que já no passado tinha sido recrutada para traduzir a língua persa numa operação militar, é abordada pelo Cor. Weber (Forest Whitaker), que lidera uma equipa de elite destacada para investigar os invasores, com quem esperam estabelecer alguma espécie de diálogo e descobrir quais são as suas intenções. É então que Banks se junta ao físico teórico Ian Donnelly (Jeremy Renner) num vale em Montana, onde contam com uma vasta equipa de cientistas, militares e também com o contacto por vídeo com as outras onze equipas espalhadas pelo mundo.

Nada mais digo, a não ser que estamos perante um belíssimo olhar sobre o modelo da ficção-científica. Um filme que pisca o olho ao “Close Encounters” de Spielberg e ao “Contacto” de Zemeckis e que privilegia a relação humana ao confronto bélico com os extra-terrestres. O destaque vai para os personagens e não para os efeitos especiais. O realizador franco-canadiense Denis Villeneuve começa a ser um caso sério e tem o dom de desafiar os géneros de filmes que abraça. Foi assim quando tornou o drama policial “Prisoners” (Raptadas, na versão portuguesa) num mistério de cortar a respiração, com interpretações incríveis que nos transportam para o meio do pânico de um pai que vê a sua filha ser raptada à porta da sua casa. Também elevou o brilhante “Sicario” a muito mais que uma guerra contra o tráfego de narcóticos na fronteira com o México, ao pôr na linha da frente a relação humana e os medos e dúvidas que uma operação deste género pode criar a quem executa no terreno o plano traçado. Mesmo sendo óbvio que estamos perante alguém talentoso, o recente anúncio de que iria substituir Ridley Scott na anunciada sequela de Blade Runner levantou muitas dúvidas e receios. Acho que podemos ficar descansados. Este filme é a prova que, se lhe puserem um bom argumento nas mãos, Villeneuve saberá o que fazer com ele.

Arrival não parece preocupado com o agradar ao público. Faz o que tem a fazer. O engenhoso argumento não se atropela para chegar à sua conclusão. Deixa que a maravilhosa fotografia e banda sonora arrepiante ocupem os espaços vazios de uma maneira quase poética. E acima de tudo deixa brilhar a incrível Amy Adams. Sem grandes exageros e “truques”, a actriz tem uma das suas melhores performances da sua carreira.

Pode não agradar a todos, mas a mim encheu-me as medidas. Não está livre de defeitos em alguns momentos da narrativa (que não quero revelar), mas é refrescante ver que ainda é possível, nos dias de hoje, ter uma visão mais introspectiva e mais realista de como poderia ser de facto um primeiro encontro. Faz-nos questionar as escolhas que fizemos ou podemos vir a fazer na nossa própria vida.

 

“There are days that define your story beyond your life, like the day they arrive.”

 

 

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