Psicanálise à francesa no regime de Estaline.

 

Título original: Le divan de Staline (FRA, POR – 2016)
Realizador: Fanny Ardant
Argumento: Fanny Ardant
Protagonistas: Gérard Depardieu, Emmanuelle Seigner, Paul Hamy

Apresentado em antestreia no Lisbon & Estoril Film Festival ’16, O Divã de Estaline é uma co-produção Alfama Films e Leopardo Filmes, com estreia em Portugal marcada para 26 de janeiro do próximo ano. Ainda antes da exibição do filme, Fanny Ardant e Gérard Depardieu subiram ao palco para algumas perguntas, e a sala cedo se encheu de risos e bom humor assim que Dépardieu não conseguiu sentar-se na cadeira e pediu uma poltrona – uma boa introdução para o divã que se iria seguir. «Obélix», disse logo Dépardieu. Ardant, quando questionada acerca do motivo para fazer o filme, disse que a sua ideia era fazer um filme à medida de Dépardieu e, como tal, só poderia ser uma grande personagem. A plateia riu.

O filme passa-se numa casa de campo secreta onde Estaline, interpretado por Dépardieu, decide repousar por uns dias, a conselho do médico. Um dos passatempos que escolhe é tentar recriar o consultório de Freud, utilizando um divã parecido com o que viu numa fotografia e algumas notas sobre como analisar sonhos. A sua amante, Lídia, é voluntária à força para servir de psicanalista, ouvindo os sonhos elaborados dele e procurando um sentido para eles – mas cuidado, porque Estaline é perito em fazer singrar o medo entre os que estão à sua volta e pode não achar assim tanta piada à interpretação.

Os criados alinham-se para o receber, mas não falam, quase não se mexem. Existe uma adoração aterrorizada neles e entre a criadagem encontramos as atrizes portuguesas Lídia Franco e Joana de Verona. Além dos camaradas, instalado num atelier dentro da propriedade está também um jovem pintor, Danilov, escolhido para apresentar um projeto artístico para um monumento póstumo em homenagem a Estaline. Quem o selecionou foi Lídia, e a relação entre ela e Danilov vai perturbar Estaline, completando assim um enredo de traições, segredos e terror. Os sonhos de Estaline confundem-se com filmes que viu e teorias da conspiração, enquanto Danilov fica a saber mais sobre o seu passado e o que realmente aconteceu aos seus pais.

Um dos espaços mais cativantes, além do escritório onde Estaline tenta forjar um consultório de psicanálise, é esse atelier do pintor. Vemo-lo pintar no espelho em vez da tela, como se quisesse tocar a própria realidade, mudar as coisas, não ser um mero prisioneiro de uma realidade que parece irreal, uma representação transfigurada do que a experiência humana deveria ser. Seja lá isso o que for. Ele é um artista atormentado pela falta de inspiração, pela memória da mulher que amou e que o deixou por dissidências políticas e pela constante vigia de cada movimento e palavra sua.

A conversa no final do filme foi só com Fanny Ardant e um público tímido demorou a começar a colocar perguntas. Falou-se sobre se era possível criar obras de arte sobre um regime totalitário. Ardant sublinhou que Estaline não era um ignorante, era alguém que amava as artes – a música, o cinema – o que contribui para a estranheza que é constatar que alguém com uma sensibilidade e curiosidade artística tão delicada possa ter encabeçado um momento tão brutal da história soviética – e mundial.

Há um momento no filme em que a companheira de Estaline pergunta ao jovem artista o que o fez perder a alma. A realizadora, também atriz – a primeira vez que a vi foi no remake de Sabrina (1995), de Sydney Pollack, onde interpreta uma das chefes da jovem e inexperiente Sabrina numa revista francesa, quando ela se muda para Paris, e achei-a adorável na altura –, sublinhou que num regime daqueles, muitas almas se perderam. Contudo, também nos dias de hoje, há coisas que nos podem fazer perder a alma: o materialismo, a sociedade consumista. E talvez seja importante refletir sobre isso. Sobre o que nos pode, a cada dia, fazer perder a alma. E os sonhos. Talvez uma análise consciente possa ajudar a acordá-los.

 

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