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Parabéns. A sério, estamos perante um bom caso de produção nacional (low cost). Sim, a lógica não é nova nem tão pouco o formato é original. Mas porra quero lá saber disso, isto está bom.

Eis a minha primeira crónica sobre um conteúdo nacional.


Que Rui Maria Pêgo é filho de Júlia Pinheiro já (quase) todos sabíamos (confesso-vos, até ver a série não fazia a mais pálida ideia), mas o que era desconhecido do grande público é o seu talento para fazer pouco de um alter-ego por si projectado, que ao longo de duas temporadas coloca o dedo na gangrena que é o mundo das celebridades em Portugal.

A narrativa base da série assenta na procura da fama a qualquer custo, representada na pessoa real de Rui Maria Pêgo. O actor e autor (em co-autoria com Susana Romana, das Produções Fictícias) coloca em nome próprio uma caricatura de si mesmo, de um rapaz sem escrúpulos que planeia o seu grande momento de ribalta, mas que tarda em concretizar-se.

A história desenrola-se através das interacções que o protagonista tem com personalidades públicas e semi-públicas portuguesas, na tentativa de conseguir extrair daqueles elementos uma oportunidade qualquer para atingir a tão preciosa fama. E muito do brilhantismo da série passa por aqui, por este cruzamento entre a ficção e a realidade que nos deu momentos gloriosos de humor como a conversa de Rui Pêgo com a sua dealer shanti shanti (Jessica Athayde) ou a tentativa de converter Luciana Abreu numa “betinha” que  permitisse um match de pedigree social entre os dois.

A série não precisava de mais nada para ser relevante, mas a coragem de Rui Maria Pêgo não ficou pela criação de um conteúdo onde ele próprio se ridiculariza. Vai mais além, uma vez que o jovem autor decidiu também fazer o seu coming out oficial na série, com recurso a um conjunto de momentos homo-eróticos não correspondidos entre ele e um dos operadores de camera.

Menção honrosa também para o genérico (não sei se se chama assim, mas foi o nome que sempre dei à animação de entrada e saída de créditos), que consegue, através de uma escolha criteriosa de música e luz, libertar-se das “correntes pesadas” de um orçamento castrador.

As duas primeiras temporadas rodaram no Canal Q na televisão por cabo. Ainda não foi confirmada uma terceira temporada.

Bem jogado Rui, a tua mãe deve estar orgulhosa do filho que tem.

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