E.T. Cetera

 

Conhecido essencialmente pelos clássicos Lawrence da Arábia Doutor Jivago, David Lean marcou a minha inocente juventude cinematográfica com dois outros filmes que em mim tiveram bem mais impacto e ainda hoje representam marcos na forma de fazer cinema. Falo de A filha de Ryan, de 1970, e de A passagem para a Índia, de 1984. 2 pérolas do tempo em que fazer cinema se centrava na forma de contar convincentemente uma história, exclusivamente pela mão de quem dirigia e de quem era dirigido.

Convém não esquecer que, à época, a direcção de actores e o peso das actuações destes ainda se sobrepunham ao manancial de efeitos especiais que hoje escondem a pobreza dos guiões, ou mesmo a sua ausência, interpretações essas que são agora quase como que uma segunda divisão do cinema, tal a importância hoje atribuída à componente gráfica e/ou computadorizada que veio tomar as rédeas e vai servindo de areia para os olhos de quem já só procura o cinema pelo show off, quantas das vezes gratuito.

Mas regressemos a estes dois filmes. Embora separados por 14 anos, a sua proximidade é, no entanto, enorme. Para tal, foquemo-nos no modo como David Lean nos coloca perante as relações humanas aqui retratadas. Relações essas que, curiosamente em ambos os filmes, recaem sobre as figuras de duas personagens femininas brilhantemente interpretadas por Sarah Miles (A filha de Ryan) e por Judy Davis (A passagem para a Índia). Ambas à descoberta de novas vivências, uma na Irlanda fria e austera, outra na quente e exótica Índia, qualquer uma está sujeita ao peso avassalador de um meio envolvente que as sufoca e que nos entra olhos dentro em forma de imponentes cenários que David Lean escolhe a rigor como forma de nos expor a essa titânica luta que, desde sempre, opõe o homem à natureza. Uma natureza que aqui se transfigura para nos surgir com dupla face: a do próprio meio ambiente, que rodeia e influencia; mas também a própria natureza humana, capaz do melhor e do pior, quando desafiada. 

É aqui que ficamos cativos da mestria de David Lean, no modo como ele nos envolve e aos poucos, em pezinhos de lã, nos suga para dentro da história e a ela nos deixa presos, sem nunca deixar de nos provocar uma estranha sensação de desconforto que perdura para lá da visualização de qualquer uma das suas obras de arte.

Hoje já não se faz cinema assim. E é pena, pois as gerações mais novas muito teriam a ganhar em descobrir que, noutros tempos, havia cinema para lá dos efeitos especiais.

Facebook Comments

Leave a comment