Os Chavelhos do Batman

 

Não servem para nada mas se não existissem faziam falta, não faziam? É um bocado como certos filmes que querem ser bons mas que são só parvos. Peças tão curiosas que merecem ser alvo de uma crítica por vezes corrosiva, outras sarcástica e ainda outras tão medíocre como as próprias fitas que as inspiraram.

Esta rubrica é uma lotaria. Mas ao menos ninguém paga bilhete.

 

STREET FIGHTER  (1994)

de Steven E. de Souza

Este pedaço de excremento de anão fílmico transporta-me, assim um bocado à bruta, até um mundo bem mais simples. Um mundo em que eu, com doze singelos aninhos, passava parte dos serões a jogar os mais variados títulos que a Super Nintendo tinha para oferecer, do alto dos seus inacreditáveis 16 bits. Do F-Zero ao Donkey Kong, do Castlevania ao NBA Jam, do Final Fight ao clássico dos clássicos: Street Fighter II… Esta era uma altura em que se privilegiava a originalidade em detrimento da recauchutagem, quando as sequelas, prequelas e remakes aconteciam só muito muito raramente. Dá saudades não dá?

Quando eu e os rapazes do meu tempo ouviram que vinha aí um filme do Street Fighter, a reacção surgiu, coordenada e em uníssono, em forma de jactos de urina pelas pernas abaixo, tal a excitação. Mas quando uma fita não consegue satisfazer o mais imberbe e facilmente impressionável dos espectadores, então das duas uma: ou é uma sextape com a Simara ou mete o Van Damme de cabelo acobreado e a tentar fazer sotaques americanos. Venha o diabo e escolha.

O realizador, sim porque esta bosta teve um, é um tal de Steven E. de Sousa. Um indivíduo que não pode ser culpabilizado pelo desastre, dado que o ramo em que mais se notabilizou em Hollywood até foi o do guionismo, tendo estado envolvido na escrita de pérolas da mortandade como Commando, Judge Dredd, 48 Horas e Die Hard 1 e 2, entre muitos outros. O que levou este tipo a colocar-se atrás das câmaras e a dirigir um dos filmes de videojogos mais antecipados de sempre, além do guito que não deve ter sido pouco, permanece em mistério. Mas apenas referir que a experiência correu tão bem que nunca mais dirigiu nada que não tenha ido direitinho para a TV, sem sequer cheirar as salas de cinema. As coisas acabam por ir todas ao lugar de uma maneira ou de outra, à excepção do Polanski que nunca chegou a bater c’os costados na prisa por ter passado uma criança a pano! Anyway

A receita desta bambochata é muito simples:

– Um matraquilho que ninguém conhece para dar a cara e ser mastigado/cuspido pela crítica.

– Um excelente actor com os pés p’rá cova e determinado a fazer a vontade aos pirralhos dos filhos.

– Uma vedeta de filmes chunga a escorrer azeite.

– Uma estrela pop em semi-decadência.

– Completa escassez de uma história que faça sentido.

TODA E QUALQUER personagem que alguma vez mostrou a fuça em jogos de porrada da Capcom.

Mete-se tudo na Bimby e serve-se ao papalvo comum, esperando que este coma alarvemente, lamba o prato e ainda esteja disposto a pagar por uma continuação. Felizmente, não foi isso que aconteceu.

Senão vejamos…

O filme começa com a notícia de que está para haver guerra civil em Shadaloo. Isto podia ser chocante mas como Shadaloo não existe e ainda para mais é um nome muita estúpido, estamo-nos todos a cagar. Aparentemente, o General M. Bison, velhaco como só ele, decide capturar uns reféns para trocar por dinheiro, de modo a perpetuar o seu reinado de terror. Bison é interpretado por Raul Julia que, como já mencionado antes, decidiu manchar o currículo à base de bolonhesa só porque os rebentos lhe pediram com jeitinho para ver o papá nesta cobóiada. Acabou por ser este o último papel de uma carreira na qual constam, por exemplo, títulos como “O Beijo da Mulher Aranha”, “A Família Adams” ou “The Burning Season”.  Portanto, obrigadinho aos imbecis dos putos e obrigadinho à noção de ridículo de Julia que está aqui ao nível da hairline do Travolta.

Na falta de melhor entretém, o General diverte-se à batatada com os inimigos capturados, partindo pescoços uns a seguir aos outros, SEMPRE com a mesma porra de golpe. Tudo isto dura alegremente até que nos deparamos com aquele que será o seu némesis: Coronel Guile a.k.a. JCVD. Dado que o boneco correspondente lá do jogo tem cabelo louro e espetado, a fantástica equipa de caracterização desta macacada decidiu untar o escalpe do “mestre da espargata” todo com aquele óleo de cedro com que se enceram os móveis. Ficou igualzinho!

Enfim, Guile comanda uma espécie de exército da NATO e está em Shadaloo para lutar em nome da paz e da liberdade. Porém, enquanto não atinge esse objectivo, dedica-se a fazer manguitos em directo na televisão para arreliar o outro… Isto para quem percebe pouco de estratégia de guerra como eu, torna-se difícil de descodificar. Na sua entourage, o Coronel conta com uma série de soldados anónimos e com uma Kylie Minogue pós-permanente e pré-milf. Portanto, um bocadinho pelas ruas da amargura.

As cartas estão lançadas e os primeiros minutos de… filme, digamos assim… servem para estabelecer a base da história. A partir daqui é uma salganhada de personagens, normalmente em grupos de três ou quatro, que se vão apresentando e defrontando em combate badalhoco, embora nem sempre por esta ordem. Não estou a brincar, é que além dos três de que já falei, estes talhantes ainda conseguiram enfiar à base de cutelo o Ryu, o Ken, o Vega, o Sagat, a Chun-Li, o Honda, o Balrog, o T. Hawk, o Dee Jay, o Zangief, o Dhalsim, o Blanka, o Huguinho, o Zezinho, o Luisinho e, às tantas, o próprio Donald. Não ficou ninguém de fora!

Ora, enquanto o mundo dirige toda a sua atenção para o drama dos reféns, Bison, esperto que nem um alho, decide promover um programa de alteração genética para a criação de uma espécie de super soldado. A experiência inovadora atribui ao indivíduo três características fundamentais: força sobre-humana (ok, goes without saying), cabeleira vermelha e pele verde.

Suspiro…

Bom, vamos lá abordar o elefante na sala.

Porquê as estúpidas mudanças no cabelo e na pele?

Para ficar igual ao monstro da consola. Não há outra explicação.

O argumentista tem a criatividade de uma mosca da fruta e o público tem mais que fazer do que torturar a mente com filmes cujo cartaz exibe os bíceps do Van Damme. Next!

A certa altura, talvez frustrado por não ver sentido nem propósito na narrativa, Guile surge com o plano de forjar a própria morte. Teria corrido tudo muito bem se, nem meia dúzia de cenas depois, não andasse a mostrar o focinho ao volante de uma lancha e a comandar o batalhão para tomar de assalto o palacete do General. Uma vez mais, em termos de táctica militar, De Gaulle ao pé deste menino era um pato marreco.

A paisagem primitiva e verdejante de Shadaloo é assim invadida pelas FARDAS AZUIS do exército de Guile, cujos responsáveis deviam estar demasiado ocupados para perceber o conceito de camuflagem. Entretanto, talvez galvanizado com tudo isto, Bison resolve matar os reféns na mesma. Gera-se uma zaragata tal que só conhece parança num tête-à-tête diante do coronel americano que tem sotaque belga por nenhuma outra razão senão estarem-se todos nas tintas.

Bison espeta os cornos num painel de controlo e, só porque sim, descobre que consegue voar. Perante o olhar símio de Van Damme, Julia faz um bom par de investidas com os braços erguidos em posição de foguete, e este golpe fajuto consegue deixar o outro à rasquinha. Entretanto, farto de apanhar na boca, Van Damme lembra-se daquele golpe com que acabam todos os filmes em que ele entra: o clássico rotativo das pernas abertas. Aplica-o com brutalidade na queixada do adversário e é declarado vencedor em três tempos. Ala que se faz tarde!

Os reféns safam-se, as personagens (boas e más) dão todas à sola, o monstro verde conclui que não é gajo para sair à rua naqueles preparos e o palacete vai abaixo por um motivo que eu nunca cheguei a perceber. A palavra “The End” surge com a malta toda a pousar para a câmara, numa clara alusão à finalidade disto tudo: vender mais bonecada, cartuxada, merchandising e outras patacoadas que metam o carimbo do videojogo.

Vinte e dois anos depois, não só não houve redenção como parece que andam a gozar.

Ainda estamos à espera de uma adaptação de jeito a jogos de culto, após uma série ininterrupta de falhanços que incluem este, o Super Mário, o Mortal Kombat (um e dois, meu Deus!), os Tomb Raiders, os Resident Evil e, mais recentemente, o Warcraft.

Enfim…

Houvesse um shoryuken bem aviado que os f***sse a todos!!!

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