Eduardo Mãos de Tesoura

A Vida Deste Rapaz

 

A vida deste rapaz, puto dos anos 80, foi pautada por muitos filmes, séries e claro, desenhos animados. Este espaço é uma espécie de exercício de memória do que mais me marcou nestas décadas de vida.

Tinha eu 13 anos quando Tim Burton se aventurou no reboot de Batman e teve o seu primeiro grande sucesso, depois de A Grande Aventura de Pee Wee e o mais “Burtonesco” Beetlejuice terem tido estreias mais discretas. Só uns anos depois o último teve a atenção que merece e se tornou num filme de culto. Cedo se foi instalando uma estética muito peculiar e negra nos filmes deste realizador, que um ano depois, iria chegar ao seu expoente máximo.

Em 1990, Tim Burton ofereceu-nos algo verdadeiramente original. Eduardo Mãos de Tesoura é daqueles filmes a que é impossível ficares indiferente. Podes não gostar, claro. Mas não foi o caso da maior parte do público, muito menos o meu. Este filme entrou na lista de filmes que vi e verei vezes sem conta sem nunca cansar. Um dos filmes da minha vida.

O tema não é novo. É basicamente a história de um outsider que quer ser compreendido e aceite pela sociedade que o rodeia. Mas a roupagem que é dada é que é verdadeiramente original e mágica.

No castelo no topo da colina, vive sozinho Edward (Johnny Depp) que tem tesouras no lugar das mãos. O seu inventor, interpretado pelo mestre do suspense Vincent Price, morre antes de acabar a sua obra prima. Junto à colina, estendem-se uma série de casas, umas iguais às outras variando apenas nas suas cores garridas. Nesta caricatura do que é um subúrbio americano dos anos 80, as mulheres ficam em casa e têm como passatempo preferido o mexerico, enquanto os maridos trabalham na cidade.

Peg, magistralmente interpretada por Dianne Wiest, é uma “Avon Lady” que, depois de saltar de porta em porta e várias tentativas falhadas de vender os seus cosméticos, ganha coragem e sobe ao velho castelo na esperança de encontrar finalmente um cliente. É aí que encontra o assustado Edward, que decide ajudar e acolher em sua casa.

Cercado pela curiosidade dos vizinhos, Edward envergonhadamente vai empregando o seu talento com as suas tesouras em obras de arte únicas e bizarras, e ganhando a confiança e admiração de que o rodeia. As esculturas criadas a partir de arbustos e os penteados loucos que cria, fazem hoje parte da nossa memória colectiva e transportam o filme para algo verdadeiramente diferente e único.

A inocência do herói de mãos de tesoura, torna-o um alvo fácil da inveja e intolerância, dando-lhe uma dura lição do quão superficial podem ser os que o rodeiam. Pelo meio, Edward também luta com algo que nunca tinha lidado antes. A paixão, não correspondida, pela bela Kim (Winona Ryder), filha mais velha dos seus anfitriões.

Esta é a magia deste filme que transforma o estranho em belo, conseguindo também uma ligação emocional entre Edward, a família que o recebe e mesmo nós, o público. Com pouquíssimas palavras, Depp consegue-nos conquistar e fazer um dos seus mais marcantes papeis.

Usando como âncora Dianne Wiest e Alan Arkin, Tim Burton completa os seus protagonistas com os, quase desconhecidos na altura, Johnny Depp (que na altura ainda participava na série 21 Jump Street) e Winona Ryder. Depp tornou-se num dos seus actores fetiches e Winona teria uma década de 90 absolutamente bombástica destruindo os corações de milhares de jovens, incluindo este que vos escreve. Sim, durante anos a Winona foi a minha paixão cinematográfica e foi com grande satisfação que, depois de uns tempos complicados envolvidos em polémica, a vi em grande forma no papel de mãe de Will na fantástica série Stranger Things. A semente dessa obsessão foi este filme e, quatro anos depois, Reality Bites, onde contracenava com Ethan Hawke, foi a machadada final.

Esta é para mim a obra prima de Tim Burton, que consegue ser ao mesmo tempo a sua cruz. A carreira do realizador fica marcada por uma exigência feroz dos seus fãs que esperam sempre algo totalmente inovador e mágico. Eduardo Mãos de Tesoura é um filme intemporal e que se tornou também num dos filmes recorrentes nas listas de filmes natalícios.

Além da história maravilhosa, tudo está perfeito neste filme. Da fotografia à cenografia e guarda roupa. Algo que se tornou essencial nos filmes de Burton. E, claro, a banda sonora de Danny Elfman é absolutamente perfeita e dá o tom mágico e bizarro à visão única do realizador. Algo que faltou n’A Casa da Senhora Peregrine para Crianças Peculiares e que teria elevado o filme a um dos melhores de Burton.

Depois de escrever isto, resta-me voltar a ver o filme para aí pela 37ª vez e ser envolvido de novo pela magia peculiar de Tim Burton.

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