Freeze All Motor Functions

Uma viagem pela teia complexa de “Westworld”.

 

Já visitámos o parque. Apreciámos todos os seus decadentes vícios. Fomos em aventuras épicas com cowboys e depois relaxámos com um copo no saloon local. Fomos chocados pelas suas revelações e enganados pelos desígnios misteriosos do homem a mexer os cordelinhos por trás da cortina. Agora chegou a altura de nos sentarmos na sala envidraçada de um laboratório e entrarmos em modo análise.

Enquanto esperamos pelo regresso de “Westworld” (apenas em 2018…), vamos refletir um pouco sobre o que se passou na mais recente obra-prima da HBO:

 

Um triunfo metafísico

O que torna um ser humano… humano? O tema não é necessariamente novo. Na verdade, é uma pedra basilar da ficção científica filosófica. Não é um tema novo, mas nunca deixa de ser interessante. O rico e complexo mundo de “Westworld” contém vários fios narrativos, desde os desafios da criação de inteligência artificial ao alienamento moral que nos permitimos no mundo dos videojogos. Mas onde a série verdadeiramente triunfou foi na exploração de como a natureza humana está intrinsecamente ligada ao instinto de contar histórias. Histórias que nascem das nossas memórias ou dos voos mais livres da nossa imaginação. É no ato livre da criação que nos distinguimos destes clones que criamos à nossa imagem. Mas o que raio acontece quando perdemos o controlo às nossas próprias invenções? A confiar na misteriosa mente de Jonathan Nolan e Lisa Joy, uma boa quantidade de traições, mortes, sangue – comportamentos condenáveis, de um modo geral. Com 10 episódios deste verdadeiro triunfo da HBO, sentimos que fizemos uma viagem louco por um mundo sem fim – e ainda mal beliscámos a superfície. Vamos lá então destacar algumas das melhores rotas nessa viagem.

 

As melhores “narrativas”

Em sítios diferentes, tempos diferentes, até em diferentes planos de consciência – a primeira temporada de “Westworld” conseguiu a proeza de criar uma teia aparentemente interminável de histórias cruzadas sem se tornar confuso. Ok, não demasiado confuso. Ao bom estilo dos irmãos Nolan, a história é complexa e envolve uma boa dose de atenção, mas acaba por fazer tudo sentido no fim. Dos vários fios condutores desta saga em potência, duas destacam-se na minha mente. Primeiro, toda a evolução da personagem de Maeve, interpretada por Thandie Newton. Ao longo de 10 episódios, assistimos ao crescimento da consciência da “host” Maeve do mundo em que está inserido e das regras do jogo a que está confinada – ou talvez não esteja. Ou talvez esteja na verdade. É uma dúvida que está por resolver. Mas o “slow build” desta… narrativa deixou-me sempre em suspenso e é um dos mistérios que mais me deixa em expetativa para o regresso a este mundo. A outra história que mais atraiu foi o desvendar da “caixa de Pandora” que é a “alma” de Dolores – brilhantemente encarnada por Evan Rachel Wood – uma personagem que já é essencial e mais se irá tornar ainda no futuro, suspeito.

 

Qual é o problema de gostar de puzzles?

A aclamação desta série tem sido global, tanto a nível do público como das opiniões da crítica. Têm surgido, no entanto, algumas críticas que apontam um suposto problema comum com o modo como os criadores da série têm construído este mundo – é demasiado frio. Cerebral. Sem emoção. E eu não só não concordo necessariamente com essa ideia como me custa um pouco ver isso como um problema. Alguns críticos têm acusado “Westworld” de não ser mais que um puzzle para o espetador resolver. Ao que respondo… e? Porque raio temos esta tendência para achar que a reflexão filosófica não faz parte da experiência humana? Que a descodificação de problemas não é uma experiência humana? O facto de alguns acharem que é impossível sentir uma ligação humana a um elenco maioritariamente composto por androides diz mais sobre essas pessoas que sobre a série em si. E, se formos ver bem, essa é exatamente uma das principais linhas teóricas de “Westworld” – o modo cruel e niilista como os humanos tratam os seus companheiros cibernéticos. Se não consideramos isso uma experiência humana, em que mundo achamos que estamos a viver?

 

Na sombra das teorias da Internet

Depois de abordar as críticas dos outros, vou guardar aqui um espaço para falar da minha principal queixa. Uma queixa que, curiosamente, não é totalmente culpa dos criadores de “Westworld”. É também culpa dos espetadores e, até certo ponto, minha. Estou a falar das teorias da Internet. Um objeto destes está sujeito a um grande escrutínio como comunidades a organizarem-se para tentar descodificar os mistérios deste mundo, eternamente obcecados em tentar encontrar o centro do labirinto. A pouco e pouco, fui-me deixando seduzir por esta tentação e comecei a participar nestes exercícios de especulação. E o que tirei disso? Estraguei para mim mesmo as principais surpresas da série – e foram muitas. E incríveis. Ponderei, por momentos, se os principais twists seriam previsíveis, mas não. As pistas foram sendo bem apresentadas e tinham, na sua génese, o potencial para surpreender. Mas estávamos todos tão munidos de folhas de Excel com as várias possibilidades narrativas que nos encostámos à parede com os nossos “auto-spoilers”. Sim, decifrar o puzzle é grande parte da experiência, mas talvez seja melhor não recrutar ajuda nas próximas temporadas.

 

O que foi e o que vai ser

Para terminar, qual é o balanço possível desta primeira temporada? Que foi, como alguns dos envolvidos já avisaram, uma espécie de prequela. Uma complexa e fascinante introdução a um mundo no qual ainda nos vamos verdadeiramente imergir. Depois de 10 episódios, temos uma noção muito concreta das origens deste mundo e dos conflitos inerentes à interação entre humanos e robôs. Agora, vamos finalmente começar a ver as consequências reais deste exercício. E que podemos então esperar da próxima temporada? Deixo-vos com as minhas principais questões. O que vai acontecer com Maeve? Irá eventualmente aventurar-se no “mundo real”? E como é esse mundo? Quando vamos perceber exatamente o contexto exterior que levou à criação deste mundo? Será que Dolores irá assumir-se definitivamente como a “vilã” da série? Ou será apenas uma líder “revolucionária”? E que papel irá o “Man in Black” desempenhar nesta evolução? E quanto a outros mundos? Quanto de “Westworld” se passará a desenrolar… fora de Westworld? Quantos outros parques temáticos existem, para além do que é povoado por samurais? Estão todos tão excitados como eu?

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