“Rogue One” não é para vegetarianos

Yippie-Ki-Yay MotherFucker

 

Marcelo Lourenço é publicitário e acha que o cinema comercial é um celeiro de obras-primas. Esta coluna, inspirada na mítica frase do John McClane, é sobre isso.

PS: Não sabes quem é o John McClane? Então, vai-te embora daqui.

Uma vez fui ao Brasil com uma amiga portuguesa. Ela chega à São Paulo, entra na mais famosa churrascaria da cidade, senta-se, olha para a ementa e pergunta surpresa – “Ah, mais aqui só tem carne?”

Pois é, se você foi ver “Rogue One” e não gostou é tão totó como esta minha amiga. Porque a verdade é uma só – quem não gostou de “Rogue One” não gosta nem nunca vai gostar de Star Wars.

São vegetarianos numa churrascaria.

Posto isso, amigo vegetariano, este é o momento de abandonar este texto e ir chatear pra outro lado.

Para quem ficou por cá, aqui vai um abraço virtual: meu amigo, o Natal chegou mais cedo e nós que nos portamos bem ganhamos este enorme presente chamado “Rogue One”.

A saga Star Wars sempre foi um conto de fadas, nisso o George Lucas nunca enganou ninguém: todos os filmes começam com uma espécie de “Era uma vez” espacial espetado no centro do ecrã – “A long time ago in a galaxy far, far away”

E, como todo o conto de fadas, tem personagens que são arquétipos, mitos ancestrais que ressoam em toda e qualquer cultura – o herói, o mentor, o pirata, o vilão – está tudo explicado na jornada do herói do Joseph Campbell e no seu famoso livro “The Hero with a Thousand Faces”.

A genialidade de George Lucas sempre foi humanizar estes arquétipos na medida certa e nos fazer gostar dos personagens sem desvirtuar a sua estrutura clássica – Luke Skywalker é o herói que vai se redimir, mas a carregar uma cruz que não é para qualquer um, ao descobrir que o mega vilão afinal é o pai dele.  Han Solo é o pirata/galã gente fina, mas afinal também é o sacana imoral que atira no Greedo debaixo da mesa. E pior: quando a Princesa Leia finalmente diz “I love you”, o filho da mãe tem a presença de espírito para responder apenas com um “I know”.

Junto com a mitologia grega e as obras de Shakespeare, Star Wars tem esta transversalidade que fez, e fará, com que os seus temas e personagens fiquem para sempre.

E o que isso tem a ver com “Rogue One”?

Tudo, meu jovem: “Rogue One” entendeu melhor do que ninguém que Star Wars existe para criar mitos disfarçados de seres humanos. Se a jornada de todo herói acaba com um sacrifício – AQUI VÊM CENTENAS DE SPOLEIRS. SIGA POR SUA CONTA E RISCO – o que melhor para personificar isso do que uma aventura onde tudo acaba mal, todos morrem para completar a missão. No melhor estilo dos clássicos filmes de guerra como “The Dirty Dozen” ou “The Guns of Navarone”, a história segue uma premissa que já estava lá no lettering de abertura do primeiro filme da saga quando “os espiões Rebeldes conseguiram roubar os planos secretos da arma definitiva do Império, da Estrela da Morte”.

John Knoll, o génio que inventou o Photoshop (só por isso já merecia um abraço) e é o maior especialista em efeitos digitais da Industrial Light and Magic, sempre se perguntou quem eram estes espiões, como foi que roubaram os tais planos e se safaram (ou não) depois disso. Lançou a ideia à Kathleen Kennedy, a poderosa chefona da Lucasfilms. E assim, nasceu “Rogue One”.

Claro, o filme tem uma rapariga como protagonista, a nova tendência em Hollywood. Mas, ao contrário de Rey do “Star Wars – The Forcen Awakens” ou da Katniss Everdeen da saga “Hunger Games”, Jyn Erso, a heroína de “Rogue One” não tem a Força ou é a mega super craque do arco e flecha. É uma ladra de quem a própria Aliança Rebelde desconfia.

“Eu sabia” gritam os chatos – “Ela é uma badass! Que óbvio”.

Nada disso – a personagem defendida com dignidade por Felicity Jones é diferente de todas as heroínas do cinema atual – até à metade do filme anda perdida, sonolenta, sem saber direito o que fazer. Até descobrir o pai – o engenheiro que foi obrigado a construir a Estrela da Morte e que – sem que os seus captores dessem por isso – instalou um dispositivo capaz de destruir a arma definitiva do Império com um único tiro.

É ai, que sem nenhum super poder, armada apenas com uma obsessão delirante, Jyn junta um grupo de soldados e espiões – um quase Han Solo, um ninja Jedi cego, um mercenário e um piloto imperial arrependido – e parte para o planeta onde estão os back-ups da Estrela da Morte.

E aí, jovem, nessa segunda metade do filme, quando percebemos que o filme não vai acabar numa festa com toda a gente feliz a ganhar medalhas,  é que o “Rogue One” vira algo completamente diferente e inesperado – algo com tudo o que Star Wars tem de bom, com toques do “Saving Private Ryan” e um final trágico digno dos “Seven Samurai”.

Isso mais um Darth Vader mother fucking como nunca se viu no cinema, fez com que a minha filha Juju saísse do cinema a dizer – “Pai, este é o melhor filme que eu já vi na vida”.

“Ah, mas a sua filha só tem dez anos” dirão finalmente os chatos.

Diante de um espetáculo como “Rogue One”, quem não tem?

 

Yippe-Ki-yay, motherfucker!

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