Nada de Novo

Filmes e séries que já deram, mas ainda têm muito para dar

Numa pequena vila dinamarquesa, onde todos se conhecem, um professor é acusado de pedofilia. Estamos, portanto, perante um depravado, um porco, um gajo que tem claramente de sentir a implacável força da justiça, nem que seja justiça popular, certo?

Errado.

Na verdade, estamos a falar de um tipo impecável, injustamente acusado por uma criança que não tem noção da dimensão da sua mentira.

Calma, isto não é spoiler nenhum. Ao contrário do que se passa em “Doubt”, filme de 2008 que abordava o mesmo tema e onde a dúvida era precisamente o que tonava o enredo tão rico, neste caso sabemos desde o princípio que se trata de um mal entendido, o que nos coloca imediatamente do lado do suspeito.

Suspeito esse que é um incrível Mads Mikkelsen, sempre com o seu rosto duro pejado de sofrimento e melancolia, capaz de reunir força e desespero na mesma expressão aparentemente impassível. Não me expliquei bem? Pronto, o que quero dizer é que o gajo é óptimo. Com aquelas feições de vilão (sim, também vi o Casino Royale), consegue ser um durão e um coitadinho ao mesmo tempo. E retrata na perfeição um homem que acumula desilusões na vida.

Quer dizer, não bastava ser um tipo solitário que luta com uma amarga ex-mulher pela custódia do seu filho, que depois ainda tem de levar com esta treta da acusação de abusos sexuais e o completo desprezo da sua comunidade que passa a tratá-lo abaixo de cão. Não há dúvida que quando uma pessoa está em baixo, pode sempre descer mais baixo.

Enfim, como dizia antes, durante o filme estamos do seu lado mas, no entanto, invadidos por um sentimento de extremo desconforto. Devido ao tema sensível, ficamos sempre com um pé atrás e não conseguimos confiar plenamente nesta personagem, mesmo que tudo aponte para que não tenha culpa nenhuma. Isto acontece porque estamos à espera de um twist (cada vez mais recorrente) que revele que afinal ele é um monstro, ou por causa da dificuldade natural de presumir a inocência de alguém que é acusado por uma criança. E este é um dos grandes trunfos do filme: sabemos que ele é inocente, mas… será?

Outro dos trunfos é a análise psicossociológica de um acontecimento destes numa comunidade próxima e unida. A transformação que se dá nas pessoas quando suspeitam que convivem com um pedófilo é muito bem representada, num crescendo de cenas duras e desconfortáveis que nos deixam em sentido até, literalmente, ao último segundo do filme. Sim, último.

Preparem-se para o conflito interior entre “ok, este gajo deve ter feito mal a uma criança, com certeza que merece isto e muito mais” e “coitado deste gajo, que é claramente inocente e não merece o que estes cabr#&s lhe estão a fazer!”. E, acreditem, as pessoas podem ser muito cruéis quando lidam com outras pessoas que pensam que são cruéis. Já agora, é daí que surge o título “A Caça”. Uma referência subtil ao comportamento dos habitantes da vila que estão habituados a caçar animais na floresta e que aqui assumem outro tipo de caçada, igualmente camuflada e perigosa para a presa.

Concluindo, se puderem, vejam este filme que passou relativamente despercebido por cá. Como é habitual nos filmes nórdicos, a realização e a fotografia são muito simples e naturais, o que, adicionando um trabalho notável do elenco, confere uma proximidade e um sentimento de “isto podia acontecer na minha rua” que muito ajudam a tornar o nosso envolvimento na história ainda maior.

Asseguro que a história nos deixa a pensar “e se fosse comigo?”, quer do lado do suspeito, quer do lado dos que suspeitam. E basta isso para que o filme se torne inesquecível.

Uma análise de cor de João Madeira da Silva

 

Título Original: Jagten (DEN, SWE – 2012)
Realizador: Thomas Vinterberg
Argumento: Tobias Lindholm, Thomas Vinterberg
Protagonistas: Mads Mikkelsen, Thomas Bo Larsen, Annika Wedderkopp

 

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