E.T. Cetera

 

E assim se passou mais um Natal. À consoada, sozinho em casa com o belo do bacalhau cozido com todos. Soa estranho, sozinho com todos. Atribuí aos copitos a mais, afinal era noite de festa. Já por volta da hora de saída para a missa do galo, devidamente equipado para a neve que imaginava lá fora, mas não o frio gélido, esse bem real, eis que olho e o que é que me dão? Música no coração.

Fiquei tocado, claro que fiquei. Mas de novo voltei a atribuir aos copitos a mais. A continuar assim, ainda teria de tirar um memento e escrevinhar a morada de casa no corpinho, para mais tarde recordar. Com tanta distracção e televisão até de madrugada, e mesmo não estando em Nova Iorque, a verdade é que lá acabei por me deitar fora de horas a pensar com quem sonhar: se com a bela Salma Hayek, se com a bela Rosanna Arquette. Com tanta bela por onde escolher, acabei adormecido ao som de uma outra bela, a Diana Krall, cantando divinalmente temas típicos desta época. Quanto a sonhos, quase foram húmidos. E tudo porque esta minha mente distorcida resolveu trocar o gordo e simpático Santa por uma outra versão em vermelho, mas esta mulher. Daqui a ter um Natal de verdadeiro sonho, com a mulher de vermelho a conduzir um trenó de prestáveis renas do crazy horse devidamente adornadas a rigor, foi um tirinho.

Mas como tudo o que é bom tem de ter um final, depressa despertei para o dia seguinte, certo de que iria com dificuldade encontrar-me  no meio de tantos destroços, qual guerra nuclear aqui vivida de véspera. Assim foi. Por entre espinhas de bacalhau, pedaços de couve portuguesa ressequidos e uma ressaca daquelas, lá consegui chegar à janela e concluir que a esta minha casa do fim da rua nada chegava. Nem o barbudo da fatiota vermelha, nem tão pouco a visita da bela Elisabeth Shue ou, quiçá, de uma outra da sua espécie, a menina Jennifer Lawrence. Nada nem ninguém.

Voltei ao sofá e, sem outra alternativa, aos copitos. Afastei uma batata cozida que sobrara da consoada e do bolso do pijama de renas saquei um cachimbo com que me atirei a umas 12 passas, pois não tardava aí a passagem de ano e com ela mais uma festa. Mas esta, esperava eu, com contornos de arromba. Pois havia recebido a confirmação de, pelo menos, um alien, que, no Facebook, me havia garantido uma paródia do outro mundo. Fiquei sem palavras, como calculam. Por isso enviei-lhe um singelo polegar para cima, evitando qualquer lost in translation. Pois a última coisa que desejava era voltar a viver mais um dia da marmota. Again and again, sem graça nenhuma, nem com qualquer bela por companhia. Happy new year!

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