Crónicas de Tatooine

 

Este não era o texto que tinha pensado escrever para iniciar o ano. Não era sequer o texto que pensava escrever na próxima década.

Muitos irão pensar que é parvo sentir-se de forma profunda a morte de alguém que nunca conhecemos de verdade, de alguém que não é nosso amigo íntimo ou sequer um parente afastado. Nas redes sociais, o que não faltam são vozes indignadas contra os fãs que no último ano choraram a morte de David Bowie ou de Alan Rickman. As pessoas indignam-se por tudo e por nada. É a magia das redes sociais, que nos retira o filtro que a sociedade nos impõe desde pequenos e nos cobre com um manto de invisibilidade e que, de repente, nos permite dizer e fazer tudo como se não existissem consequências. Se és uma dessas pessoas, convido-te a parar de ler agora e ler outra coisa qualquer.

Nos últimos dias chorei. Chorei muito, mais do que por muitas pessoas que já se cruzaram na minha vida. Chorei como uma criança, durante várias horas seguidas naquela terça-feira e, sempre que parecia finalmente voltar a ter controlo sobre mim própria, todos aqueles sentimentos voltavam à superfície e faziam-me afogar novamente numa tristeza imensa.

Receber a notícia, 24 horas depois, que a Debbie Reynolds tinha dado entrada de urgência no hospital, foi outro duro golpe. Nos meus 32 anos, não me recordo de uma história igual, ou pelo menos que me tivesse marcado desta forma. Ouvem-se histórias de casais que estiveram casados toda a vida, apenas para partirem na mesma altura por não conseguirem sobreviver um sem o outro. Mas pensamos ser sempre algo distante, quase uma alegoria, demasiado fantasioso para ser, de facto, real. E isto foi real, demasiado real.

Cresci com a Princesa Leia. Foi uma das minhas primeiras heroínas – a primeira será sempre a Miss Parker (Pretender). Muito antes de se falar em “girl power” e desta discussão sobre o feminismo no cinema, muito antes de sequer existir a Rey, há toda uma geração de meninas que foram influenciadas pela princesa que não se deixava intimidar, que não estava à espera de ser salva por um príncipe encantado, que liderava uma rebelião, que era conhecida como “Huttslayer”, que fazia frente ao mais temível vilão da galáxia, tudo pelos ideais em que acreditava. A Leia é especial. Mas a Carrie era a Leia. As duas tornaram-se tão simbióticas que eram uma e a mesma pessoa. A Carrie costumava dizer que entrou no personagem [Leia] quando começou a filmar Star Wars e nunca mais o conseguiu despir. Costumava também contar que muitas vezes, enquanto fazia a sua vida normal, ouvia as pessoas chamarem pela Princesa Leia, numa vã esperança que cruzassem olhares. Contava também que tinha de fazer um esforço sobrehumano para ser “adulta” nestas alturas e não responder pelo seu nome ficcionado.

Como muitas mulheres, Carrie tinha muitos papéis. Era também imprevisível. Quando a conheci por breves momentos em julho passado, quase estive para não o fazer. Alguém teve a brilhante ideia de marcar uma sessão fotográfica com a Carrie Fisher para as 11 da manhã de sábado. O resultado: ela não apareceu à hora marcada. As cerca de 150-200 pessoas que estavam previstas para a sessão fotográfica da manhã passaram todas para a sessão da tarde, juntando-se às restantes 150-200 pessoas. E às 17h, quando estava previsto iniciar-se a última sessão do dia, a Carrie continuou a fazer o seu próprio horário e continuou a dar autógrafos. E fê-lo durante pelo menos mais hora e meia. Pensei em desistir. Em sair daquele mar de gente e vir-me embora. Digamos que a organização desta área não estava a 100%. Mas a verdade é que quando finalmente chegou a minha vez, foi como se não tivesse estado tempo nenhum à espera. Foram dos 30 segundos mais memoráveis da minha vida. Mais ainda agora. Sentada numa cadeira alta, sem estar acompanhada pelo seu cão Gary (podem segui-lo aqui), olhou para mim e sorriu. Agradeci-lhe por ali estar e disse-lhe o quanto a adorava e ela respondeu com um simples “That’s lovely, dear”. Abraçou-me e eu abracei-a de volta. E foi assim que ficou capturado aquele momento.

 

Viria no dia seguinte a assistir a um painel em que a Carrie foi entrevistada, desta feita, sem muitos atrasos. Sem filtros, interpretou uma cena de Return of the Jedi com Warwick Davis, tirou selfies com os fãs, falou sobre os próximos filmes (e acho que até se pode ter descaído a certa altura) e, acima de tudo, encantou mais de 4500 pessoas. Durante uma hora, entreteve os seus fãs, fez-nos rir, muitas vezes às suas próprias custas, sempre acompanhada pelo cão e por uma lata de Coca-Cola. Numa entrevista recente a Ellen Degeneres, Carrie admitiu beber cerca de 16 latas de Coca-Cola por dia – número que rapidamente rectificou para 12, uma vez que não tinha por hábito beber toda a lata, porque só gostava daquele gosto refrescante que apenas uma Coca-Cola acabada de abrir tem. Facto interessante, o pai, Eddie Fisher, foi embaixador da marca nos seus tempos áureos no programa “Coke Time with Eddie Fisher”.

Quanto a Star Wars, resta agora esperar. As pessoas perguntam-se: e agora? O episódio VIII está filmado (embora se esperem reshoots no verão). Muito estará com certeza em aberto mas, ao que tudo indica, o papel da General Leia iria continuar a ter peso na Resistência. Quanto ao resto do mundo, perde-se uma mãe, uma actriz, uma escritora que, quando partisse, gostaria que escrevessem sobre ela que se afogou no luar, estrangulada pelo seu próprio soutien.

May the Force be with you, Carrie. The Force is with you and you are one with the Force.

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