Amor de todas as formas e feitios: “Loving / Jackie / Florence Foster Jenkins”

Mulheres fortes colocadas em situações quase impossíveis.

 

Loving

Título Português: Loving (GBR, EUA – 2016)
Realizador: Jeff Nichols
Argumento: Jeff Nichols
Protagonistas: Ruth Negga, Joel Edgerton, Nick Kroll

Nomeações: 1 (Melhor Atriz Principal)

Há um poder muito especial na arte de contar bem uma história. O amor de Richard e Mildred Loving era simples – eles não queriam mais que o direito de poderem viver juntos e criar uma família na terra em que nasceram. Algo tornado um pouco mais complicado por serem um casal interracial no estado da Virgínia nos anos 60. O instinto aqui poderia ter sido, nas mãos de realizadores menores, tornar isto uma história épica de resistência contra o poder instituído – mas Jeff Nichols não é um realizador menor. Nichols desaparece atrás da câmara para deixar brilhar quem deve – o casal a lutar pela sua relação. Joel Edgerton tem aqui um papel impressionante, retratando Richard Loving como um homem simples e de poucas palavras, que pura e simplesmente não compreende que era suposto ser racista. Cada vez que fala é um esforço e apenas quer o deixem em paz para fazer a sua vida. Já Mildred Loving é algo um pouco diferente. Apesar da sua timidez, Mildred compreende um pouco melhor a importância da opinião pública. De como a sua luta legal se enquadra na luta geral pelos direitos civis da comunidade negra nos Estados Unidos. Uma luta que não a define mas que ela compreende ser importante. Ruth Negga é uma revelação neste papel e assume-se como a grande estrela de “Loving”, conseguindo caminhar uma linha muito subtil entre desejo de privacidade e uma grande força interior. Nunca banaliza a pessoa que está encarnar – torna-a um ser humano e não apenas um ícone.

 

Classificação: ⭐️⭐️⭐️⭐️ (4 Estrelas)

 

 

 

Jackie

Título Português: Jackie (CHI, FRA, EUA – 2016)
Realizador: Pablo Larraín
Argumento: Noah Oppenheim
Protagonistas: Natalie Portman, Peter Sarsgaard, Greta Gerwig

Nomeações: 3 (Melhor Atriz Principal, Melhor Banda Sonora, Melhor Guarda-Roupa)

Poderá um dos pontos fortes de um filme ser também a âncora que o arrasta? “Jackie” é um interessante caso de estudo disso mesmo. Vamos começar pelos elogios. Para começar, Natalie Portman é, não surpreendentemente, brilhante. Não só na sua encarnação física e comportamental da personagem icónica de Jackie Kennedy mas, acima de tudo, no modo como deixa toda a sua emoção mal contida chegar-nos de forma subtil, através das mais tímidas pistas corporais. E há também bastante arte no modo como Pablo Larraín tenta contar esta história, de uma forma relativamente pouco linear e muito dinâmica. Mas se deixo esse elogio ao realizador chileno também tenho de o criticar por não saber sair da sua própria frente na execução final deste filme. Especificamente, falemos da banda sonora. Mica Levi cria aqui uma manta sonora interessante e diferente, que eu até compreendo como foi nomeada a uma estatueta. Mas está demasiado presente. Aquilo que ao início é uma figura de estilo original, torna-se cansativo com o andar do filme. A história de Jackie Kennedy é interessante o suficiente para nos cativar sem ser preciso estar constantemente a inundá-la com “estilo”. Em momentos cruciais do filme, dei por mim a só reparar no que me estavam a tentar dizer com a música, o que acabou por sufocar um pouco a excelente performance de Natalie Portman. Uma decisão errada que acaba por tornar um filme arrojado numa experiência levemente falhada. Uma pena.

 

Classificação: ⭐️⭐️⭐️ (3 Estrelas)

 

 

 

Florence Foster Jenkins

Título Português: Florence, Uma Diva Fora de Tom (EUA – 2016)
Realizador: Stephen Frears
Argumento: Nicholas Martin
Protagonistas: Meryl Streep, Hugh Grant, Simon Helberg

Nomeações: 2 (Melhor Atriz Principal, Melhor Guarda-Roupa)

De uma forma curiosa, os últimos anos da distinguida carreira de Stephen Frears têm sido marcados por histórias destinadas a criar empatia por mulheres invulgares, mulheres mais velhas que se comportam de forma um pouco diferente do que esperamos. Foi assim com “The Queen”, com “Philomena” e  volta a fazê-lo com a incrível história real de “Florence Foster Jenkins”. Para os que não sabem, Florence Foster Jenkins era uma socialite americana, dos anos 20, 30 e 40, que tinha uma paixão tremenda pela música e usava o seu dinheiro para organizar épicas performances de si mesma a cantar ópera para uma grande multidão de fãs extasiados. O problema? Era péssima. Não acertava uma nota que fosse. Um pouco como a inspiração original da nossa Natália de Andrade. Para os que pensem que este filme é uma farsa hilariante sobre a vaidade dos ricos e o seu desejo de validação, sim, também é isso. Mas é muito mais. Entramos neste filme com a intenção de rir da tresloucada com ilusões de grandeza, mas saímos a adorá-la. Nas mãos delicadas de Meryl Streep, Florence torna-se uma figura levemente trágica e damos por nós a sentir uma enorme pena sempre que alguém começa a rir com as suas performances desastrosas. A genialidade de Streep é acompanhada por belíssimas performances de Hugh Grant e Simon Helberg, como dois homens que tentam proteger, a todo o custo, a dignidade de Florence. Poucas farsas têm uma dose tão generosa de coração.

 

Classificação: ⭐️⭐️⭐️⭐️ (4 Estrelas)

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