Perigos escondidos da cidade ao campo.

 

Elle

Título Português: Ela (BEL, FRA, GER – 2016)
Realizador: Paul Verhoeven
Argumento: David Birke
Protagonistas: Isabelle Huppert, Laurent Lafitte, Anne Consigny

Nomeações: 1 (Melhor Atriz Principal)

Há muito para gostar em “Elle”. Para começar, a pura audácia de sequer pensar em fazer uma história sobre violação com um ângulo de comédia. Negra com o breu, é certo, mas comédia não obstante. Só um louco como Paul Verhoeven teria a coragem de atacar uma história destas e todos adoramos o excêntrico holandês por isso. Dito isto, a grande atração desta história é mesmo Isabelle Huppert, no papel de Michèle Leblanc, uma mulher de sucesso que lida com o facto de ter sido violentamente atacada e violada na sua própria casa de uma forma muito… peculiar. Huppert é pura e simplesmente magnética, enchendo a tela em cada plano. Cada uma das suas decisões desafia qualquer noção de senso comum, mas a veterana atriz francesa injeta a sua performance de uma autenticidade que nos faz acreditar em cada momento – por mais implausível que possa aparecer. Pena que esteja rodeada de uma galeria de personagens estranhas que se parecem todas comportar da mesma forma. Esse é, talvez, o grande ponto fraco do filme. A frieza gélida de Michèle causa-nos um grande impacto no início do filme, mas esse choque inicial vai-se dissipando de cada vez que os seus amigos reagem de um modo que ninguém normal reagiria. O que é compreensível na protagonista, torna-se cada vez mais incompreensível em (quase) todos os que a rodeiam. A espaços, parece que os criadores desta história ficaram tão encantados com a sua bizarria que se esqueceram que não a estavam a contar apenas a si mesmos.

 

Classificação: ⭐️⭐️⭐️ (3 Estrelas)

 

 

 

Captain Fantastic

Título Português: Capitão Fantástico (EUA – 2016)
Realizador: Matt Ross
Argumento: Matt Ross
Protagonistas: Viggo Mortensen, George Mackay, Samantha Isler

Nomeações: 1 (Melhor Ator Principal)

Terminado este filme, dei por mim completamente indeciso sobre a minha opinião em relação às grandes decisões que são tomadas no final – e é exatamente isso que torna “Captain Fantastic” tão bom. Devemos ter a liberdade de educar os nossos filhos num ambiente longe dos limites impostos pela vida em sociedade? Ou será importante expor as nossas crianças a alguma dose do “mundo real”, para que não estejam completamente desprotegidos emocionalmente quando eventualmente o tiverem de confrontar? Será que simplesmente amar os filhos é suficiente na sua criação? Se há decisão que demonstra na perfeição a maturidade precoce do ator-tornado-realizador Matt Ross, é o facto de nunca ter a presunção de querer dar uma resposta. Para um filme tão recheado de ideias, é impressionante o quanto Ross “delega” para o nosso próprio coração, para a nossa própria reação emocional ao que estamos a ver. Viggo Mortensen está nada menos que genial no papel do patriarca de uma família extensa de crianças de todas as idades (num dos melhores elencos jovens que já vi), educadas de forma “liberal” pelo pai – encorajados tanto a desenvolver análises críticas de clássicos da literatura como a aprender a manusear facas para caçar na floresta. O carisma de Mortensen já seria suficiente para “carregar” o filme, mas é na indecisão que o ator injeta nos seus olhos em momentos cruciais da narrativa que encontramos a magia que a Academia viu e premiou com uma nomeação.

 

Classificação: ⭐️⭐️⭐️⭐️ (4 Estrelas)

 

 

 

Nocturnal Animals

Título Português: Animais Noturnos (EUA – 2016)
Realizador: Tom Ford
Argumento: Tom Ford
Protagonistas: Amy Adams, Jake Gyllenhaal, Michael Shannon

Nomeações: 1 (Melhor Ator Secundário)

O conceito deste filme já é, por si, bastante interessante. Mas a execução é o que o torna especialmente cativante. Amy Adams é Susan Morrow, uma dona de uma galeria que recebe o manuscrito do novo romance do seu ex-marido, Edward Sheffield, de quem se divorciou de forma pouco amigável. À medida que vai lendo o conteúdo da história, Susan começa a sentir o profundo efeito emocional do seu significado e vê a sua própria vida a degenerar rapidamente. Adams está excelente como sempre, numa interpretação que ganha na subtileza e se eleva, acima de tudo, nos silêncios. Mas, embora não haja nada de errado na narrativa que decorre no “mundo real”, é na “história dentro da história” que o filme mostra o seu verdadeiro sumo. Aqui, temos três performances impressionantes. Por um lado, temos Jake Gyllenhaal como Tony Hastings (o ator também interpreta o papel do ex-marido de Susan), um homem destroçado por dentro depois de uma tragédia pessoal que o deixa sedento de vingança. A seu lado, temos Aaron Taylor-Johnson, transpirando violência e maldade em cada sorriso sarcástico que vai lançando, e Michael Shannon, absolutamente perfeito como um detetive com cada vez menos paciência para seguir a letra da lei. Sendo que este é um filme de Tom Ford, já é de esperar uma dose generosa de floreados visuais e uma fotografia impecavelmente cuidada, mas, neste filme, é na direção de atores que Ford merece os maiores elogios.

 

Classificação: ⭐️⭐️⭐️⭐️ (4 Estrelas)

Facebook Comments

Leave a comment