Para quem queira aprender a gostar de ficção científica.

 

Título Português: O Primeiro Encontro (EUA – 2016)
Realizador: Dennis Villeneuve
Argumento: Eric Heisserer
Protagonistas: Amy Adams, Jeremy Renner, Forest Whitaker

Nomeações: 8 (Melhor Filme, Melhor Realizador, Melhor Argumento Adaptado, Melhor Cinematografia, Melhor Montagem, Melhor Design de Produção, Melhor Mistura de Som, Melhor Montagem de Som)

Existem dois grandes preconceitos que “Arrival” tem de combater para chegar ao espetador “standard”. Primeiro, que por ser um filme de ficção científica é automaticamente um “filme pipoca”, criado para nos dar entretenimento fácil de digerir e ainda mais fácil de esquecer. Segundo, para os que sabem que a ficção científica pode ser um espaço onde as ideias têm maior protagonismo que o frenesim visual que as acompanha, temos de explicar que o facto de um filme nos querer atingir no cérebro, não quer dizer que não tenha como alvo principal o nosso coração. Tudo isto para dizer que “Arrival” conseguiu a proeza de transformar um filme sobre o modo como processamos linguagem na intercomunicação pessoal numa das mais profundas experiências emocionais do ano cinematográfico.

Apesar dos caminhos tortuosos e fascinantes que a narrativa traça, a sua essência é relativamente fácil de explicar. Uma série de 12 naves extraterrestres, em forma de conchas, posiciona-se em vários locais espalhados por todo o mundo. Uma a uma, convidam os humanos a entrar na nave. Sentindo dificuldades na comunicação com os misteriosos invasores, o exército norte-americano convoca a ajuda de Louise Banks (Amy Adams), uma linguista de renome com memórias dolorosas que a perseguem.

Adams, que está a ter um ano de grande destaque (apesar de não ter saído presenteada com uma nomeação em nenhum dos seus papéis), mostra aqui toda a sua mestria num papel muito complicado de equilibrar. Tem de conseguir mostrar o processo intelectual de uma das melhores mentes do mundo em trabalho sem fazer com que o espetador fique com os olhos vidrados de confusão.

E como o faz? Simplesmente mostrando que por trás de cada análise semiótica, por trás de cada desconstrução simbólica das nossas ferramentas de comunicação, está um ser humano. Está uma mulher que não faz o seu trabalho de forma incomparável apesar das suas emoções, mas por causa delas. Inteligência emocional é talvez a sua melhor arma para nos ajudar a compreender as intenções dos incompreensíveis alienígenas.

A ladear o trabalho de mestre de Adams, temos duas performances igualmente impecáveis. Jeremy Renner é um físico que trabalha em conjunto com Louise Banks para decifrar as verdadeiras motivações dos nossos visitantes, ao mesmo tempo que esconde muito mal as suas crescentes emoções pela linguista. Já Forest Whitaker encarna a voz da razão dentro do exército, como o coronel que decidiu convocar a ajuda dos dois cientistas e, simultaneamente, tenta convencer os seus colegas a adiar intervenção militar contra os invasores até ao último momento possível.

Tal como tem acontecido em muitos filmes deste ano de Óscares, temos aqui uma série de peças soltas que podiam muito facilmente não resultar sem a pessoa certa nos comandos. Dennis Villeneuve dá aqui mais um passo confiante na sua curta mas imensamente promissora carreira. O seu trabalho aqui é tecido de mãos dadas com o cinematógrafo Bradford Young. Trabalhando em conjunto, os dois criam um dos mais bonitos conjuntos de imagens deste último ano de cinema e, acima de tudo, usam essas imagens para construir um filme no qual não conseguimos deixar de pensar dias a fio depois de o vermos.

Tendo estado propositadamente a evitar revelar muito mais sobre a história, porque grande parte do prazer deste filme é ir revelando as várias pontas e ver como todas se juntam de forma incrivelmente elegante no fim. Mais do que me concentrar nas respostas, ocorre-me dizer que este é um filme de grandes questões.

Como reagiremos se e quando estivermos frente a frente com formas de vida inteligentes de fora do nosso planeta? Como conseguiremos comunicar com uma inteligência que se desenvolveu de uma forma completamente diferente? Que papel têm as nossas emoções no modo como pensamos? O que faríamos com o poder de poder controlar o nosso destino? Será a dor uma componente essencial do amor? Se acham que isto é “pipoqueiro” ou, alternativamente, “demasiado cerebral”, não sei que vos diga.

 

Classificação: ⭐️⭐️⭐️⭐️⭐️ (5 Estrelas)

 

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1 Comment

  • João Ricardo
    On 26/02/2017 14:30 0Likes

    Concordo com a análise feita mas daria 4 estrelas ao filme porque apesar de:
    Ser o filme mais ambicioso de Dennis Villeneuve e visualmente irrepreensível, deixando ao espetador toda a liberdade interpretativa (“planando” sobre todo o filme a sombra de “2001: A SPACE ODYSSEY” de Stanley Kubrick);
    Ter um argumento engenhoso (que se debruça sobre a temática da invasão extraterrestre seguida de um ponto de vista pacificista, explicando que a linguagem não é apenas um meio de comunicação mas sobretudo uma forma de ver e perceber o mundo que nos rodeia e uma ferramenta para aproximar culturas diferentes);
    As questões da linguística e da comunicação serem tratadas de forma habilidosa e original;
    O ato final (com o seu “twist”), tratado de forma metafórica e filosófica acaba por não funcionar, deixando um sentimento de frustração no ar, tendo em consideração tudo o que o filme tinha proposto até aí.
    Também existe um exagero no clima de tensão militar criado e o contexto político é demasiado “clichê”.

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