Um brinde aos que sonham, por muito tolos que pareçam.

 

Título original: La La Land (EUA – 2016)
Realizador: Damien Chazelle
Argumento: Damien Chazelle
Protagonistas: Ryan Gosling, Emma Stone, Rosemarie DeWitt

Se alguém teve que sonhar muito para ver o seu sonho realizado, esse alguém foi o jovem realizador Damien Chazelle. Quem pense que este filme é feito para agradar Hollywood e é exactamente o que eles gostam, pode pensar outra vez. Este script esteve na gaveta desde 2010 e foi consecutivamente recusado pelos grandes estúdios e, só depois de Chazelle ter brilhado com Whiplash, foi finalmente possível fazer o seu projecto tal e qual o tinha imaginado. Não deixa de ser curioso, já que o filme fala exactamente disso. Como por vezes (ou a maior parte das vezes) em Los Angeles, conhecida como La La Land, é preciso levar com muitas rejeições até teres a tua oportunidade. De facto não foi fácil convencer alguém que é possível fazer um musical com músicas totalmente originais, mas Damien conseguiu. E o resultado é fantástico.

Eu até sou daqueles para quem um musical tem que ser muito bom para conseguir chegar ao fim. E duas mãos chegam e sobram para numerar os que de facto me deixaram boa impressão. Na verdade este filme é mais que os seus números musicais. Mas seria impossível viver sem a música absolutamente perfeita de Justin Hurwitz, que curiosamente tem apenas no currículo os três filmes de Chazelle. Este não é um musical adaptado de uma peça ou feito de covers de grandes hits. É uma partitura totalmente original com o feel da old Hollywood e que me obriga a ir até à década de 70 para encontrar algo comparável. Excepção feita a alguns clássicos animados da Disney. Preparem-se para ficar com as músicas “presas” na cabeça.

Depois temos a história, que está longe de ser um conto de fadas. É mesmo um testamento à dura realidade que, por vezes exige que nos agarremos ao sonhos para conseguir sobreviver. E a cena de abertura deixa isso claro. Estamos parados num trânsito infernal em que a única solução parece ser a de sair do carro a dançar e cantar. É quase como um sair da nossa cabeça e deixar as preocupações para trás. E Chazelle fá-lo com mestria numa cena contínua que é absolutamente incrível, que nos abre a mente para deixar a música nos guiar.

“Here’s to the ones who dream
Foolish as they may seem”

O filme tem a estrutura de quatro actos e começa com a introdução de Mia (Emma Stone) e Sebastien (Ryan Gosling) que sonham ser actriz e dono de um clube de jazz, respectivamente. Ambos nesta fase têm pouco mais que o sonho. Mia trabalha num café dentro de um grande estúdio de Hollywood e vive de audição em audição, de rejeição em rejeição. Sebastien é um pianista que é obcecado pelo jazz clássico mas que se vê obrigado a trabalhar em bares e restaurantes onde não pode tocar a “sua” música. Quando, depois de mais duas rejeições, se conhecem, não existe um amor à primeira vista, mas com o tempo vão percebendo que têm o mesmo impulso e a mesma paixão pelo seus sonhos que rapidamente se estende a eles próprios. Eles acabam por puxar um pelo outro e ajudam-se mutuamente a ver que a vida não vive só de sonhos.

“Here’s to the hearts that ache
Here’s to the mess we make”

Outro dos significados de “La La Land” no dicionário é que é um estado eufórico de sonho que nos separa das duras realidades da vida. E a demora para o sonho se concretizar pode ser desesperante. É nesta segunda parte do filme em que acabam os números musicais e grandes coreografias. Os sonhos desvanecem e a realidade bate à porta. Aqui se vê o verdadeiro potencial dos dois protagonistas, especialmente na performance de Emma Stone. Há qualquer coisa naqueles olhos gigantes que transmitem mais que mil palavras. De repente estamos de volta à “Terra” e partilhamos a luta que este casal tem para que os sonhos não fiquem apenas no ar. A ligação entre estes dois excelentes jovens actores é palpável e o talento de Damien Chazelle e Justin Hurwitz, evidente. A subtileza de todos eles encontram-se em cada frame do filme em glorioso Cinemascope. Em todas as cenas está lá a química entre os dois actores. Está a visão de Chazelle. Está a melodia de Hurwitz. Mesmo quando são menos óbvias. E claro, estão lá as homenagens aos grandes clássicos de Hollywood, como Singing in the Rain, An American in Paris, Cabaret, entre outros, mas também em Les Parapluies de Cherbourg e, principalmente, em Les Demoisielles de Rochefort, ambos de Jacques Demy.

Este filme é bem mais que um musical. É algo que parece extremamente relevante para o mundo em que vivemos actualmente. É o escape que precisamos, mesmo que por pouco mais que duas horas. É uma oportunidade para sorrir. É, na verdade, um espelho do que muitos de nós enfrentamos nas nossas vidas. Muitas vezes temos é medo de sonhar, cantar e sair a dançar. Por muito tolos que possamos parecer.

 

 

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2 Comments

  • João Ricardo
    On 25/02/2017 14:37 0Likes

    Concordo plenamente com a crítica: “LA LA LAND” é uma lufada de ar fresco no panorama cinematográfico atual, uma vibrante alegoria sobre as ilusões que Hollywood consegue transmitir, num verdadeiro hino aos sonhadores. A realização é simplesmente fabulosa e primorosa: A câmara, com movimentos sempre fluidos (muito além do mero exercício de estilo) consegue captar toda a energia e emoção em cada uma das cenas, com “planos sequência” memoráveis e uma fantástica fotografia.
    O argumento mostra-nos como a magia do romance choca com a crueldade da indústria artística, numa construção em vários atos onde se dissimula uma história de amor contrariada pela realidade e pelos sonhos, com um perfume de melancolia, onirismo, esperança e romantismo incomum que se alastra até um belo desfecho à la “CAFÉ SOCIETY” de Woody Allen.
    A parte musical traz-nos um suplemento necessário para a fluidez do romance e da própria realização, profundamente ajustada e cativante, a banda sonora é refrescante conjugando o clássico e o moderno. “LA LA LAND” é um filme mágico e apaixonante onde tudo é sublimado – Este ano tivemos o privilégio de assistir ao nascimento de um futuro clássico – Uma obra-prima.

    • Pedro Quedas
      On 08/03/2017 13:20 0Likes

      Subscrevo todas as suas palavras. Nos tempos cínicos em que vivemos, é refrescante ver um jovem realizador com tanto entusiasmo pelas possibilidades infinitas do cinema.

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