O amor por trás da vergonha: “Moonlight”

Um milagre de empatia num mundo de tristeza.

 

Título Português: Moonlight (EUA – 2016)
Realizador: Barry Jenkins
Argumento: Barry Jenkins
Protagonistas: Ashton Sanders, Naomie Harris, Mahershala Ali

Nomeações: 8 (Melhor Filme, Melhor Realizador, Melhor Ator Secundário, Melhor Atriz Secundária, Melhor Argumento Adaptado, Melhor Cinematografia, Melhor Montagem, Melhor Banda Sonora)

“Moonlight” é um filme de muitas emoções. É um filme de ódios cegos e amores incontroláveis. De consistente tristeza e profunda beleza. De atores que usam toda a sua experiência para representar emoções de grande intensidade e talentos estreantes cuja inocência nos quebra todas as barreiras. Acima de tudo, o que o realizador Barry Jenkins consegue aqui é um pequeno milagre de empatia. Num mundo que nos coloca barreiras a cada virar de esquina, o que poderá ser mais essencial que a busca de intimidade?

A narrativa de “Moonlight” acompanha a vida de Chiron, um rapaz negro que vive uma vida especialmente dura nos bairros pobres de Miami, regularmente abandonado à sua sorte por uma mãe entregue às garras da droga. Chiron é muito introvertido, quase mudo, e é alvo de constante perseguição pelas restantes crianças no seu bairro. A razão? Algo que todos sabem mas Chiron tem dificuldade em assumir: é homossexual.

Ao longo do filme, vamos acompanhando o crescimento aos soluços de Chiron, bem como o desenvolvimento da sua relação com o seu melhor amigo, Kevin. Ambos são interpretados por vários atores, ao longo das três fases cruciais das suas vidas, com interpretações inesperadas e a transbordar de verdade emocional. Das seis interpretações, destaca-se a dor contida e raiva crescente de Chiron em adolescente (Ashton Sanders) e, acima de tudo, a magnífica performance de André Holland como Kevin em adulto, com um sorriso generoso para oferecer e uma manta de retalhos de sentimentos atrás dos olhos.

Falando dos atores nomeados aos Óscares, Naomie Harris é dolorosamente real como a mãe de Chiron, dominada e afogada pelo vício. O nosso coração afunda-se um pouco mais de cada vez que sentimos os efeitos da sua presença tóxica no desenvolvimento da já perturbada criança. Mais do que avaliar criticamente as nuances técnicas da sua performance, dei por mim simplesmente a odiá-la. Quando dei por mim a esquecer por momentos que estava simplesmente a ver um filme, soube que estava a presenciar algo especial.

Nesta tapeçaria de estrelas a brilhar debaixo da lua, nenhuma brilha mais forte que Mahershala Ali. O talentoso ator, que conhecemos de “House of Cards” ou, mais recentemente, “Hidden Figures”, interpreta Juan, um traficante de droga que acolhe Chiron e lhe tenta dar algumas armas emocionais para aprender a lidar com o mundo. Num filme em que a empatia desempenha um papel tão fulcral, ninguém representa melhor essa emoção tão fugidia do que Juan. Nas mãos de Ali, um personagem que podia tão facilmente ter caído num sem número de estereótipos torna-se a criação mais original deste ano. É uma performance de corpo inteiro – desde o semicerrar dos seus olhos quando sorri à sua postura, que alterna subtilmente entre a auto-confiança e o arrependimento pela vida que lhe calhou na rifa. A cena em que Juan ensina o jovem Chiron a nadar é, possivelmente, o momento mais bonito de cinema que vi nos últimos anos.

Apenas na sua segunda longa-metragem, Barry Jenkins despeja aqui toda a sua criatividade, usando cortes inesperados nas cenas, vozes que transitam de diálogos para “voz-off” e escolhas visuais muito originais, com uma cinematografia que alterna entre o “cinema verité” e composições altamente estilizadas. Acima de tudo, o que surpreende é a maturidade com que Jenkins articula as complexidades da sua história com o bailado complexo da cinematografia ou até mesmo a belíssima banda sonora de Nicholas Britell. “Moonlight”, com apenas 5 milhões de orçamento, é um dos filmes mais bem conseguidos tecnicamente que vi nesta maratona. Mas querem saber uma coisa? Pouco disso interessa. O verdadeiro milagre de Barry Jenkins neste filme é o modo como todos esses elementos se juntam para contar uma história muito simples com a mais épica das intenções: fazer-nos sentir amor.

 

Classificação: ⭐️⭐️⭐️⭐️⭐️ (5 Estrelas)

 

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