Do palco para o coração: “Fences”

As vidas difíceis de personagens complexas.

 

Título Português: Vedações (EUA – 2016)
Realizador: Denzel Washington
Argumento: August Wilson
Protagonistas: Denzel Washington, Viola Davis, Jovan Adepo

Nomeações: 4 (Melhor Filme, Melhor Ator Principal, Melhor Atriz Secundária, Melhor Argumento Adaptado)

Uma das principais vertentes de um filme é o seu visual. A arte de colocar imagens em movimento e juntá-las para contar uma história. No que á sua inventividade visual diz respeito, “Fences” é muito simples. Relativamente invisível, até. Mas onde se destaca, consegue-o de uma forma que o tem catapultado ao estatuto de favorito em algumas categorias. Tudo isto para dizer que este filme podia ser dado em aulas sobre performance para cinema.

Para o realizador Denzel Washington este projeto foi acima de tudo uma oportunidade para honrar o argumento de August Wilson, inspirado na sua própria peça de teatro. O filme desenrola-se como se uma peça se tratasse, com vários momentos de longos diálogos, com a intensidade a crescer de cena para cena.

E se, como já disse, Washington não investiu muito do seu tempo na criatividade dos planos, onde a veterana estrela de Hollywood e dos palcos apostou especialmente foi numa exímia direção de autores – a começar por si mesmo. Troy Maxson é um homem negro com um passado complicado, um presente amargo e um futuro sem perspetivas. Um pai de família nos anos 50, Troy ama muito a sua mulher mas nem sempre a trata com o devido respeito – e o modo como trata o filho é pura e simplesmente reprovável. A crescente progressão da sua alienação de todos os que o rodeiam é o rastilho que alimenta as várias explosões emocionais do filme.

A seu lado, temos a gigante Viola Davis, como uma mulher de sorriso generoso e que tem uma força (pouco) escondida por trás das suas ações. O modo como a sua Rose pura e simplesmente não aceita desrespeitos por parte de nenhum homem, incluindo o seu marido, é um raio de sol numa época especialmente dura para as comunidades negras de um modo geral – e para as mulheres em particular. O casal formado por Troy e Rose são a estrela dupla à volta da qual orbitam várias outras excelentes interpretações, com destaque para Stephen Henderson e, acima de tudo, Jovan Adepo como o filho do casal – um dos maiores motivos de conflito nesta história recheada de faíscas emocionais.

Este é um filme discreto criado para servir uma peça bombástica. Não será o melhor filme do ano, mas conta com duas das suas mais incríveis performances. Poderá parecer repetitivo insistir em elogiar o talento de atores tão estabelecidos como Denzel Washington e Viola Davis, mas é importante repeti-lo. Mais do que apenas a execução mecânica de “cenas emocionais”, os dois atores entregam-se a estes momentos com uma crua sinceridade que só está ao alcance dos melhores. Diz-se que certos tão atores são tão talentosos e carismáticos que seriam cativantes mesmo que estivessem apenas a ler a lista telefónica. Quando lhes é dado material tão rico como as palavras de August Wilson, quase se torna injusto para a restante comunidade de atores.

 

Classificação: ⭐️⭐️⭐️⭐️ (4 Estrelas)

 

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