Feridas profundas e amor sem limites: Os melhores dos Óscares de 2017

Mais um ano de escolhas impossíveis.

 

E eis que entramos na reta final desta tresloucada aventura. Amanhã irei colocar o meu chapéu de Nostradamus e tentarei prever o melhor possível quem IRÁ sair vencedor nos Óscares, mas hoje é dia de deixar essas considerações objetivas na gaveta. Hoje é o dia de escolher os meus favoritos do ano. Se têm algum interesse em abrir uma janela para o que vai dentro desta confusa cabecinha, é continuar a ler:

 

Melhor Filme – Moonlight

Filme_Moonlight

A fornada de filmes nomeados este ano é longa e variada, de tal modo que se torna quase impossível fazer qualquer espécie de comparação que faça sentido. Dito isso, quatro filmes causaram-me um impacto maior e estão ainda frescos no meu coração. Apaixonei-me pela festa de cor, música e dança de “La La Land”, senti as feridas profundas de “Manchester By The Sea” e voei na imaginação científica de “Arrival”. Mas, a ter de escolher, tenho de me inclinar para o belíssimo filme de Barry Jenkins. Quando todos os filmes são monumentos de execução artística e sinceridade emocional, o critério que resta é ver qual fincou melhor as garras na minha alma. E, vários dias depois de o ter visto, não consigo deixar de pensar nesta maravilhosa história de preconceitos e dor, combatidos com a mais deliciosa dose de ternura. É um filme com muita tristeza, mas do qual saí com o coração a transbordar. Num ano de pura magia do cinema, nenhum filme foi mais mágico que “Moonlight”.

 

Melhor Realizador – Damien Chazelle, La La Land

Chegamos a um dos sempre dilemas interessantes de cada ano: terá o melhor realizador ter de ser o responsável pelo melhor filme do ano? Apesar de muitas vezes coincidirem nas minhas escolhas, eu sou um grande defensor de ver as duas categorias separadamente. Dito isso, a minha escolha podia muito bem ter tido para Barry Jenkins, acima de tudo pelo modo como conseguiu equilibrar tantos sentimentos díspares numa história coerente e cheia de esperança. Mas acabo por não conseguir fugir ao elogio a Damien Chazelle e o seu trabalho em “La La Land”. Este é o que os americanos chamam de “labour of love” e cada plano deste filme está inspirado pelo entusiasmo criativo do jovem Chazelle. Um musical vibrante sobre seguirmos os nossos sonhos tinha tudo para dar em cacofonia desconjuntada, mas “La La Land” consegue juntar todos os seus elementos numa mágica celebração do cinema. A nível de pura execução, ninguém esteve melhor.

 

Melhor Ator Principal – Casey Affleck, Manchester By The Sea

Actor_Pri_Casey_Affleck

Tantos bons papéis nesta categoria. Tantas performances recheadas de nuance e poder e carisma. Quando comecei a tentar arrumar os meus sentimentos neste galardão, acabei por criar um duelo a dois no topo – entre duas interpretações que não podiam ser mais diferentes. Será que prefiro a contenção dolorosa de Casey Affleck ou a bruta intensidade de Denzel Washington? A subtileza de um retrato de um homem completamente destruído por dentro e quase fisicamente incapaz de demonstrar emoções? Ou a energia pura de um homem de família tão dominado pelos seus fantasmas que não consegue perceber que a arrogância das suas palavras ameaçam destruir todos os que o rodeiam? Em última instância, tenho de dar o meu voto a Affleck, um ator que se sublima quase completamente no seu papel, despe-se de qualquer vestígio de ego e entrega o seu corpo e alma a uma personagem que vagueia pelo mundo sem rumo.

 

Melhor Atriz Principal – Natalie Portman, Jackie

Actriz_Pri_Natalie_Portman

Aqui a minha escolha foi um pouco mais fácil. Não que não haja grandes papéis a concorrer, desde a força interior de Ruth Negga à loucura controlada de Meryl Streep. E custa-me imenso não colocar o meu apoio (com todo o relativo valor que ele tem) do lado da excelente Emma Stone, o coração que alimenta a alegria de viver de “La La Land”. Mas Natalie Portman? Natalie Portman ascende a outro nível em “Jackie”. Tudo é perfeito nesta performance, desde a pura composição técnica da personagem (os seus trejeitos e movimentos, a sua voz tão peculiar e inconfundível) à busca pela sua motivação. Jackie Kennedy foi uma mulher incrível que teve de lidar com circunstâncias possíveis. Um intelecto invejável que se deixou ficar na sombra do marido e depois assumiu a importância do seu papel em ajudar a curar as feridas abertas pela sua morte. Nas mãos de Portman, esta incrível vida deixa de ser uma lenda e torna-se pura e simplesmente real.

 

Melhor Ator Secundário – Mahershala Ali, Moonlight

Actor_Sec_Mahershala_Ali

Outra escolha relativamente fácil. Nem sei bem como explicar o quão especial o desempenho de Mahershala Ali é neste papel. Num papel que existe para oferecer um contraponto às amarguras da vida do protagonista, Ali consegue criar no ecrã um traficante de droga com reservas de doçura que não lhe julgaríamos possível ao primeiro olhar. A sua presença no filme é relativamente fugaz (entra apenas no primeiro dos três segmentos de “Moonlight”) – mas é também aquela que não conseguimos nem queremos apagar da memória após o seu fim. Certos atores conseguem-nos abraçar e garantir que tudo vai ficar bem sem dizer uma palavra nesse sentido. Conseguem-nos tocar profundamente em emoções que nem julgávamos ter. Sim, gostaria de ter um lugar neste cantinho para o delicioso sentido de humor de Jeff Bridges em “Hell Or High Water”, mas como posso ignorar o homem que mais perto me colocou de chorar este ano?

 

Melhor Atriz Secundária – Viola Davis, Fences

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Num ano normal, estaria aqui a defender a desprezível mas tocante presença de Naomie Harris em “Moonlight”. Num ano normal, estaria animadamente a apontar que Michelle Williams merece o Óscar pela sua curta mas memorável passagem em “Manchester By The Sea”. Mas este não é um ano normal – este é o ano de Viola Davis. O seu papel em “Fences” é mais do que apenas uma demonstração de talento – ainda que rasgos de génio abundem em cada palavra que sai dos seus lábios. É o fincar de pé no chão de uma veterana da indústria, a encarnar uma mulher forte e determinada que não admite faltas de respeito mas tem uma reserva infinita de amor para dar à sua família. É o tipo de desempenho que devia ser dado em aulas sobre como agarrar um momento em cena e nunca o largar. Qualquer atriz normal teria sido ofuscada pela bombástica performance de Denzel Washington. Mas esta não é uma atriz normal – esta é Viola Davis.

 

Melhor Argumento Adaptado – Eric Heisserer, Arrival

Filme_Arrival

Depois de algumas “borlas” ao meu coração, voltamos às escolhas impossíveis. Os textos de “Hidden Figures” e “Lion” estão impecavelmente bem construídos e acabaram por nem sequer estar nas minhas equações. As palavras de “Moonlight”, parcas que são, cortam fundo em cada sílaba. E a peça de August Wilson, adaptada pelo próprio no brilhante argumento de “Fences”, articula uma série de momentos (quase) mundanos numa reflexão fascinante sobre raça, família e o nosso dever de dar amor. Mas acabo por estar um pouco mais encantado pelo delicioso puzzle construído por Eric Heisserer. Mas não apenas um puzzle. “Arrival” é tanto um tratado sobre a importância da linguagem como a cristalização do amor de mão. Tanto uma fantasia sobre o primeiro contacto com vida extraterrestre como um dilema interessante sobre o conceito de destino. Só o facto de dar sentido a tudo isto devia merecer um Óscar a Heisserer.

 

Melhor Argumento Original – Kenneth Lonergan, Manchester By The Sea

Filme_Manchester_by_the_Sea

Numa categoria com argumentos tão idiossincráticos e originais, é curioso como acabei por me inclinar para um dos mais simples na sua forma. Senti-me tentado a premiar a originalidade sem limites de “The Lobster” ou o equilíbrio entre drama humano e fantasia musical de “La La Land”. Mas, num tema que tem sido recorrente ao longo destas minhas escolhas, quando os pontos de análise objetivos se auto-anulam, só me resta seguir o meu instinto. E a verdade é que “Manchester By The Sea” continua dentro de mim, a sacudir-me as entranhas emocionais, memória a memória. Algo no modo como Kenneth Lonergan construiu a personagem de Lee, tão apático e incapaz de deixar as suas emoções sair cá para fora de forma remotamente saudável, é verdadeiro de uma forma que me é quase impossível colocar em palavras. Não podia deixar de “homenagear” um filme que conseguiu despir-me a alma de uma forma tão crua.

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