Lust for Dust. Ficar a ver navios.

 

Título original: T2 Trainspotting (GBR – 2016)
Realizador: Danny Boyle
Argumento: John Hodge (baseado nos romances de Irvine Welsh)
Protagonistas: Ewan McGregor, Ewen Bremner, Jonny Lee Miller

Depois de uma ausência de 20 anos, Renton (Ewan Mcgregor) retorna à sua Edimburgo natal, onde encontra os velhos amigos envoltos no mesmo mundo de droga e criminalidade. Sick Boy (Jonny Lee Miller) quer montar um bordel com fundos europeus, Spud (Ewen Bremner) luta contra o vício através da terapia da escrita e Begbie (Robert Carlyle), evade-se da prisão para continuar a semear o caos.

Na década de 1990, Danny Boyle fez dois filmes com guiões de John Hodge – (Pequenos Crimes Entre Amigos e Trainspotting) – que rapidamente o elevaram ao estatuto de realizador de culto, permitindo-lhe acesso imediato a Hollywood. T2 Transpotting é, portanto, um filme sequela no sentido em que tem os mesmos personagens centrais, se passa nos mesmos lugares e universos, mas acontece 20 anos depois.

Como qualquer filme de Danny Boyle, é visualmente estimulante, mas não estamos naquela década de fim de século e milénio, os personagens não têem a irreverência da sua juventude, ou o filme o ritmo alucinado e as cenas inesquecíveis do mergulho e overdose de Renton ou da morte da filha de Sick Boy.

T2 é bem formadinho, não se pode dizer o contrário, pois tem uma bela cinematografia, performances conseguidas e um humor negro que se mantém, mas pareceu-me demasiado longo e um pouco imerso no passado. Serão os flashbacks referências para quem nunca viu o original ou para nos relembrar da transformação dos personagens?  Uma das coisas que devo dizer me irritou, foi como Boyle usou as referências às musicas originais, mantendo muitas vezes apenas loops da primeira parte das mesmas, sem nunca as tocar.

Apesar de apreciar a energia estética e rítmica emprestada à publicidade, o humor negro, a banda sonora imaculada e os diálogos de Trainspotting – o original – que tem cenas brilhantes, sempre tive com o filme uma relação complexa, pelo seu retrato irresistivelmente sexy da miséria total das vidas dos seus protagonistas, como se adocicasse ou anestesiasse da porcaria que a heroína nos trouxe nos anos 90.  Ainda assim achei que era um ponto de vista interessante e sobretudo uma montanha russa irresistível…

Neste T2 Trainspotting fica-se com a impressão que o mesmo é sobretudo sobre um conjunto de homens alienados que são para sempre limitados pelo seu ambiente, sem grandes oportunidades para mudar de vida e sair da marginalidade. Nesse sentido, T2 bate com mais força na revelação da pobreza endémica que afecta gerações atrás de gerações e, apesar dos seus personagens serem algo cómicos, como no filme original, não nos conseguimos escapar ao sentimento de tristeza que irradiam as suas vidas. Naquele mundo está tudo perdido e já não há adrenalina nem drogas suficientes para ajudar.

Para quem viveu o fenómeno Trainspotting e acredite-se que o foi, T2 é ficar a ver a navios. Mas poderia ser outra coisa?

 

 

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