À segunda é mais barato

 

Sou crítico, bastante crítico. Mas não de cinema. Mas é sobre isso que irei escrever neste espaço. Vão ser linhas que não respeitam os passos de Vogler nem as opiniões do Jorge Mourinha. Vão ser linhas em que as minhas opiniões se misturam com as emoções. Aquelas que um filme desperta no meu eu mais profundo. Numa camada abaixo do consciente, vá. Aquelas que me vão invadir a psique depois de comprar o meu bilhetinho e me enterrar confortavelmente na cadeira do cinema.

Admito que sou fã deste filme. Não me lembro quando o vi pela primeira vez, mas passou-me pelo zap este fim-de-semana e voltei a parar nele (também anda um DVD cá por casa mas foi mesmo no cabo que revi).

Não sei se foi a rebeldia aparente da personagem do Matt Damon (Will Hunting) ou o saudosismo implacável e eterno em relação ao Robin Williams (Sean Maguire), mas o que é certo é que parei, fiz o rewind até ao princípio do filme e desfrutei daqueles 125 ou 126 minutos de matemática aplicada às emoções.

É curioso que o final do filme nem sequer foi, nem de perto nem de longe, o que mais me interessou (final até previsível, mas outra coisa não seria de esperar, nem belisca minimamente a história).

Will Hunting é um rapaz de cerca de 20 anos órfão, rejeitado pela vida, mas com um cérebro capaz de rivalizar com Einstein e outros que alinham a sua inteligência com a genialidade. Teria uma vivência ‘quase normal’ se ele, em vez de distribuir a sua genialidade a fazer avançar o mundo (seja lá o que isso queira dizer), anda, literalmente, a fazer a limpeza no MIT (Massachussets Institute of Technology). Mas não resiste a resolver complicadíssimos desafios matemáticos deixados nos corredores pelo medalhado professor Gerard Lambeau (Stellan Skarsgård) e que nenhum aluno do MIT consegue sequer chegar perto da solução. ‘É pá, quem será este génio anónimo?’ Já lá voltamos.

Depois do trabalho, os dias de Will são passados com a sua trupe de futuro promissor – Chuckie Sullivan/Ben Affleck, Morgan O’Malley/Casey Affleck e Billy McBride/Cole Hauser, bebendo por aqui e por ali e praticando a modalidade olímpica de ‘porrada de criar bicho’. Tudo bons rapazes.

Numa dessas casualidades, Will dá tanta tareia a um tipo que vai preso. Provavelmente, foi a melhor coisa que lhe aconteceu. É aí que voltamos ao professor Gerard Lambeau e aos seus desafios. Decide ser uma espécie de tutor e tenta e dar-lhe um rumo, pressionando-o a explorar o seu potencial. Mas não vai ser fácil porque Will é um tipo com algumas particularidades, usando a sua inteligência conforme lhe apetece. Seja para brincar ao Nuno Rogeiro na NSA, seja para falar de coisas que leu em toda a espécie de livros. Ao mesmo tempo, surge também Sean Maguire, o psicólogo que faz com que ele se conheça a si próprio. Ou pelo menos tente, porque 85% do rapaz é ‘bicho do mato’. Mas é nesta época Seaniana que, na verdade, começa a verdadeira viagem pelo seu ‘eu’. Uma viagem com bilhete só de ida e que apenas termina nas grandes decisões. E, num certo sentido, também pode agradecer a Chuckie que lhe eleva o amor-próprio e, praticamente lhe chama estúpido, se ele não aproveitar as oportunidades.

‘I’d do anything to have what you got. Any of these guys would. It’d be an insult to us if you’re still here in twent years’

Chuckie

Acaba por denotar alguma inteligência que se escondeu da história durante quase todo o filme. Quer dizer, com excepção aquele momento em que consegue sacar os 73 dólares ao triunvirato de engravatados.

Pelo meio disto tudo, e depois de um despique à desgarrada com um nerd qualquer da universidade, dá de caras com o amor. Mais concretamente com a Skylar/Minnie Driver. Um amor de altos e baixos, cheio de hiatos de tempo, de espaço e pouco dado ao princípio da continuidade. Mas logo se vê onde vai parar.

Este é um filme rico sobre o medo. O medo de errar. O medo de assumir responsabilidades. O medo até do tédio. O medo das relações. O medo de amar. O medo de se encontrar o seu lugar no mundo. O medo de viver.

‘Nobody is perfect. Everyone has their own little idiosyncrasies. Some people call those imperfections, but no, that’s the good stuff.

Sean

Se vier à procura de uma equação que dê resto zero, esqueça este filme. Mas se quer dar umas valentes cabeçadas na matemática das emoções, sirva-se. O banquete é garantido.

O argumento de Matt Damon e Ben Affleck ganhou um Óscar, o desempenho de Robin Williams também. Mas ainda haveria lugar para Óscar para a melhor justificação para não ir trabalhar para a NSA.

 

Título original: Good Will Hunting (EUA – 1997)
Realizador: Gus Van Sant
Argumento: Matt Damon, Ben Affleck
Protagonistas: Robin Williams, Matt Damon, Ben Affleck

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