Os Chavelhos do Batman

 

Não servem para nada mas se não existissem faziam falta, não faziam? É um bocado como certos filmes que querem ser bons mas que são só parvos. Peças tão curiosas que merecem ser alvo de uma crítica por vezes corrosiva, outras sarcástica e ainda outras tão medíocre como as próprias fitas que as inspiraram.

Esta rubrica é uma lotaria. Mas ao menos ninguém paga bilhete.

 

DEVIL  (2010)

de John Eric Dowdle

“Um assassino, um vendedor de colchões e o diabo entram num bar…” parece o início de uma anedota sem graça mas aparentemente há quem não goste de deitar premissas fora.

Começam a faltar-me palavras para descrever o Shyamalan e todo o seu pretenciosismo bacoco mas como é disso mesmo que esta rubrica se alimenta, não me resta alternativa. Devil era para ser o primeiro título das chamadas Night Chronicles, uma série de filmes negros com o cunho do “novo mestre do terror”, ele que ia tão bem lançado na altura com as mega-pachouchadas Lady in the Water, The Happening e The Last Airbender. Esta ideia de génio por parte dos estúdios, apenas comparável a alguém passar o volante de um autocarro escolar ao bêbado da aldeia, ficou-se pelo primeiro capítulo porque, pasmem-se, Devil deu merda. Ele há surpresas…

Bom, já sei o que estão a dizer: “Mas porque é que ele fala tanto no Shyamalan se o realizador até é um tal de Dowdle e tudo?” Vai daí, se me permitem, respondo com a eloquência que me caracteriza, com um firme “CALEM-SE C*****O!!!” Calem-se e vejam a porra do filme. Porque, além de ter sido o Shyamalan a escrever a história e de ser ele o mentor desta pilha de patacoadas que era para ter sido mas afinal não foi, nota-se as suas patinhas melosas em todos os planos armados em espertos, todos os diálogos apáticos e inexpressivos, todas as cenas absurdas que contribuem zero para o enfiamento que já de si é estúpido… Enfim, John Eric Dowdle praticamente não tinha carreira antes disto e, com isto, matou quaisquer esperanças de vir a tê-la. Foi como um boneco de ventríloquo com a mão do outro enterrada até à laringe do primeiro ao último minuto de fita. E o resultado, caros amigos, está à vista de todos.

Mas enfim, vamos lá ao que interessa.

À boa maneira de Stephen King (que é outro que também tem muito que se lhe diga) a história começa com um polícia a debater-se com um problema de alcoolismo porque um tipo qualquer lhe atropelou a família. O bófia é chamado a um edifício porque alguém se atirou da janela (provavelmente um dos produtores do filme depois de ter lido o guião) e fica por lá entretido a investigar. Ao mesmo tempo, num desfile de estereótipos tão básico e lazy que até parece mentira, lembrando a primeira frase deste texto, entram num elevador desse mesmo edifício: uma velha, um vendedor de colchões, uma gaja gira, um gajo giro e um segurança. Segundos depois, o elevador encrava e gera-se tensão entre os passageiros. Até aqui, nada de anormal. O verdadeiro busílis acontece quando, após aquilo que parece ser um corte de energia momentâneo, a gaja gira surge com uma dentada nas costas.

Bom…

Vamos parar um bocado e tentar pôr um pouco de senso nisto tudo. Vamos assumir que não é uma dentada e que estamos a falar de um corte ou de uma ferida qualquer. Não seria uma ideia interessante e original para um filme? Assim “à Hitchcock”? Pensem bem: um grupo fechado num elevador… Volta e meia apaga-se a luz… Há gente que aparece ferida ou que morre… Não se sabe quem é o culpado até ao fim… Era ou não era bom?!

Pois era…

Mas o problema com o Shyamalan e com o seu toque de Midas invertido (um “toque de merdas”, digamos assim) é que consegue pegar em coisas que até conseguíamos ver resultar e fá-las evoluir em coisas patetas e inconsequentes. Ou seja, nós já sabemos à partida que há aqui uma bambochata paranormal qualquer porque o filme se chama, tipo, DEVIL e depois entra logo a abrir com dentadas e cenas parvas do género. Eh pá  e que raio de diabo dá dentadas?! É isto que o anjo caído, aquele que se quis equiparar a Deus, a encarnação do mal, Satã “o adversário”… É este o seu grande desígnio?! Mordiscar lombos de gajas em elevadores? Não me lixem…

Só há uma coisa que o realizador comum gosta mais do que as doçuras do sexo com adolescentes (props para o Polanski e para o Woody Allen, by the way) e isso é esfregar-nos o seu estilo pessoal na tromba. Aqui, tudo está envolto numa aura de seriedade e suspense que quase nos levar a crer que estamos mesmo a ver algo que vale a pena. Além disso, e para ajudar a meter medo, há um contínuo latino que está a acompanhar a trama via sistema de vídeo e convence logo toda a gente que é o Belzebu em pessoa que está metido ao barulho. Típico.

A dada altura, os cortes de energia multiplicam-se e, “no escurinho do cinema”, começa a aparecer malta falecida no elevador. Primeiro o vendedor de colchões e depois a velha. O polícia cachaceiro, porque estava ali à mão, é chamado a intervir e a tomar conta do caso. Já o contínuo evangélico, sentindo faltarem argumentos irrefutáveis à sua teoria diabólica, decide intervir. E é aqui, meus amigos, é nesta fase do filme que chegamos a uma das partes mais inacreditáveis, mais burrancas, mais birutas não só das fitas do nosso amigo Shyamalan mas do cinema em geral. Estão preparados? Sentem-se, bebam um copo de água e, tranquilamente, tomem lá contacto com isto…

Como derradeira prova de que realmente é o diabo que está a causar todo este rebuliço, o contínuo…

Barra uma fatia de torrada com compota…

Atira-a ao ar…

E constatando que esta caiu com a compota para o chão…

SEM SER A GOZAR…

Diz que é sempre isso que acontece…

Quando o diabo está por perto.

Esta cena que acabaram de ler, acontece no filme com a maior das solenidades. Não nos é indicado que se trata de um momento cómico, não há gargalhadas gravadas à sitcom, não há caretas para a câmara à Malucos do Riso. Foi escrito, revisto, ensaiado, gravado e não houve ninguém, NINGUÉM, que tenha arriscado dizer: “Eh pá isto é capaz de ser um bocadinho tantã”!

(suspiro)

Amigos, deixem que vos diga o seguinte: para mim, um contador de histórias preguiçoso pela-se por duas coisas fundamentais. São elas “as homenagens” e “as alegorias”. Com a conversa das homenagens, evitam-se as acusações de plágio e de falta de originalidade. Já com a conversa das alegorias, entramos num domínio onde tudo é permitido, tudo é possível, porque não é o que estamos a ver mas sim o que nos dizem a posteriori que isso significa. Ora assim, tudo se torna muito mais fácil.

O Shyamalan julga-se o rei da metáfora mas o problema dele é que não está sozinho nisto. Está metido num meio onde se enquadram Kubrick, Bergman, Lynch, Pasolini… Mestres que usaram figuras de estilo e que o fizeram bem, posicionando a metáfora onde só alguns conseguem chegar. Enquanto Orson Welles em Citizen Kane aumenta estrategicamente o comprimento de uma mesa para retratar o afastamento de um casal ao longo dos anos, Shyamalan prefere brincar com torradas para nos mostrar a proximidade do mal. No fundo, resume-se a isto.

Mas voltando à vaca fria…

Sobra então a gaja gira, mesmo com menos um naco de chicha nas costas, o gajo giro que não faz puto ideia do que está a acontecer e o tipo da segurança que, a espaços, vai parecendo ligeiramente sinistro. Ainda nos tentam enganar e fazer crer que é ele o verdadeiro assassino porque o ex-marido da gaja gira é patrão dele e, por alguma razão, tem todo o interesse em mandar limpar o sarampo à galdéria. No entanto, todas estas manobras de diversão revelam-se incongruentes porque até aí foi-nos imposto à colherada que o verdadeiro vilão é mesmo o capeta. Portanto, o filme revela-se o seu pior inimigo e luta consigo próprio. Bonito.

Vai daí o segurança e a gaja gira também morrem, ficando apenas o indivíduo num interessante e muito propositado tête-à-tête com o cão-tinhoso que finalmente se revela (não vou dizer em que contornos para não spoilar demasiado e também porque é tão incrivelmente imbecil que, sinceramente, tenho vergonha). Ficamos a saber que foi ele que atropelou a família do polícia, no tradicional twist que tão bem caracteriza o autor da narrativa, e que como se mostra arrependido é alvo de absolvição. Entretanto, um enérgico fuck you! para os outros que estavam no elevador com ele e que morreram dolorosamente um a um para que no final não se castigasse aquele que era suposto ser castigado.

WIN!

Enfim, o polícia pinguço acaba também por ter a sua oportunidade de perdoar o criminoso, o contínuo fanático fica a comer a torrada descansado, o elevador é lavado com aquele produto da TV Shop que tira as nódoas mais difíceis e é mais um dia que acaba na grande cidade com um feeling geral de “tudo está bem quando acaba bem”.

O diabo regressa para o seu fétido covil, provavelmente para congeminar um novo e ainda mais terrível plano, embora reconheçamos que seria tarefa difícil. Já o Shyamalan, infelizmente, voltou pouco depois para o set de filmagem, para realizar outra mega bosta chamada After Earth, desta feita com Will Smith e filho.

Inferno para mim é isto, senhores.

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2 Comments

  • pp
    On 15/03/2017 14:53 0Likes

    Lindo!
    Parece realmente infernal! O homem continua a fazer filmes?

    A única coisa que a achei curioso foi citar shyamalan como tendo algo em comum com kubrick, lynch, bergman & pasolini.

    Obrigado pelo

  • André Simões
    On 16/03/2017 19:11 0Likes

    Não foi como tendo algo em comum. Foi achando que tem. Ele disse que o Shyamalan não sabe usar a figura de estilo, ao contrário desses mestres 😉

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