Sonso Jorge, Sonso Cinema, Sonso Portugal

 

Título original: São Jorge (POR – 2016)
Realizador: Marco Martins
Argumento: Ricardo Adolfo e Marco Martins
Protagonistas: Nuno Lopes, Mariana Nunes, David Semedo.

Nuno Lopes interpreta Jorge, um ainda jovem pai que faz biscates como bóxer amador e colector de divida, para evitar que a ex retorne ao Brasil levando o filho de ambos.

Nuno Lopes e Marco Martins não precisam de apresentação, são referências, até porque fizeram Alice, talvez o filme Português contemporâneo – se assim se pode chamar – que mais consenso gerou entre crítica e público. Volvidos que estão 10 anos desde esse filme, deveria ser um acontecimento ver dois jovens inequivocamente talentosos e no topo do seu jogo de volta ao ecrã, mas não foi assim.

Logo no início de São Jorge, uma sequência de belos planos de paisagens urbanas desoladas sugere um filme género, ancorado algures no neo-realismo, um filme político, de luta, vísceras e… vocês sabem… Logo somos apresentados ao mundo de Jorge – que lembra Robert de Niro em Taxi Driver ou Marlon Brandon em Apocalypse Now – os bairros sociais de Lisboa, onde a pobreza endémica suga vidas. Segue-se um filme com cinematografia belíssima onde o escuro é rei e também um som magistral – a primeira cena de sexo no carro está lindíssima – mas que caberia numa curta-metragem, pois não há verdadeiramente um plot capaz.

A câmara agarra-se ao rosto de Nuno Lopes e passeia-nos pela sua personalidade e vida amorfas, pois nada neste personagem é complexo, contraditório, como se ainda estivéssemos na era do cinema mudo e a noção de “typage” fosse o suficiente. Jorge aguenta um pai castrador, uma ex-mulher gélida, um trabalho de capanga numa empresa de colecção de divida e até um combate de boxe em que é destruído, deixando aqui e ali uma lágrima escapar, sem nunca realmente sair do boneco em que foi fechado. Não se compreende porque ganha um actor um prémio de Melhor Actor por tal filme e reparem que não questiono as capacidades de Nuno Lopes ou de Marco Martins, mas o facto de que não há trama no filme, não há nada a perder ou a ganhar porque Jorge simplesmente não cativa e, apesar das duas horas, tudo resta superficial.

Portanto está ali tudo, as cenas filmadas com gente dos bairros que discute as suas vidas, o cenário abjecto dos bairros feios que Carlos Lopes tão lindamente captura, o drama destas vidas que de facto se manifesta num Nuno Lopes bruto por fora, mole por dentro, mas que nunca nos chega verdadeiramente a tocar, porque é um sonso derrotado, uma figura e não um personagem inteiro.

Faço alguma vezes referência ao problema dos guiões dos nossos filmes e acredito que São Jorge é mais um filme onde é evidente a falta de trabalho no guião. Passaram 6 meses a fazer pesquisa sobre a vida nos bairros – vivem onde, em Singapura? – mas quanto a escrever o guião?

Por muito que me custe, a verdade é que o filme me aborreceu e desapontou, de tão lindo e vazio que o achei. Não há técnica que aguente tanta sonsice, tanto esgravatar o óbvio e superficial. No fim sentimo-nos enganados, como se ali ninguém percebesse realmente a vidas dos tantos Jorges, Paulos, Manés, Marias e tal, que de sonsos, regra geral, não têm nada.

 

 

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