Coração de Cavaleiro

Filmes com História


O passado é um tema comum para muitos filmes, e entre os vários períodos da história humana, a Idade Média desperta um fascínio em particular nas nossas mentes. Isso é especialmente verdade no campo da ficção histórica e, mais particularmente, no cinema (e agora, no mundo das séries de alto orçamento). Seja no formato de um conto de fantasia passado num universo com dragões e magos, ou numa narrativa histórica, o brilho de uma espada reluzente num cartaz de cinema carrega consigo um magnetismo próprio e, para alguns, uma atração quase hipnótica.

Porém, o Coração de Cavaleiro não é, nem de longe, um típico filme de época, e isso torna-se evidente nos primeiros minutos da longa-metragem quando somos recebidos pelo inconfundível som dos Queen, estabelecendo um tema que vai ser mantido pelo resto da obra. Se o uso de rock ali parece anacrónico e dissonante do que se espera de um filme sobre cavaleiros e donzelas, é porque é mesmo, e é extremamente intencional.

Esse anacronismo não é apenas uma peculiaridade da trilha sonora, mas a essência daquilo que torna o Coração de Cavaleiro num filme único. Sem preocupação com precisão histórica, incluindo datas e personagens, a obra não pretende oferecer uma narrativa empolgante e aproximada sobre algum evento histórico que ajudou a moldar o mundo.

O Coração de Cavaleiro é um filme sobre as pessoas daquela época e a sua principal mensagem é uma de aproximação através dos tempos. Um filme sobre como as pessoas que viveram naquela época eram, na sua essência, gente como a gente.

Segundo o diretor Brian Helgeland, a sua decisão de usar uma trilha sonora moderna tinha como objetivo mostrar como as pessoas daquele tempo se sentiam em relação à música da sua própria era. Cantando, sorrindo e dançando, como nós reagimos às músicas do nosso contemporâneo. É um contraste com a dramaticidade e seriedade associada com a música barroca normalmente usada em filmes do período medieval.

E ao longo do filme outro paralelo é traçado, entre as justas, o desporto praticado pelo protagonista, e o futebol. As referências a essa analogia são muitas e frequentes, mas acho que poucos momentos tornam isso tão evidente quanto a cena em que o elmo de um cavaleiro é arremessado pelos ares após um embate e enquanto voa em direção às arquibancadas, onde os espetadores estão de braços estendidos para agarrá-lo, é impossível não pensar numa bola de futebol que vai em direção aos adeptos.
E as justas foram, de facto, um desporto marcial extremamente popular durante a Idade Média. As justas eram praticadas por aqueles nascidos na nobreza, desde simples cavaleiros e barões até reis, e eram uma demonstração de proeza com o cavalo e a lança, as principais armas dos cavaleiros no campo de batalha.

Apesar da participação nesse desporto, ou em torneios em geral, ser restrita aos nobres, os torneios em si eram eventos que atraiam pessoas de longas distâncias. Uma chance não apenas de assistir aos embates montados dos nobres, entre outros eventos, mas também uma oportunidade de comprar e vender objetos nos mercados que se formavam à volta, oferecer serviços a outros viajantes e obviamente festejar, beber e dançar. E esse é outro dos muitos aspetos nos quais a Idade Média é mal compreendida.

Frequentemente vemos esse período representado como uma época sombria, de poucas cores, com pessoas constantemente tristes, mal nutridas e doentes. Mas o gosto das pessoas pela alegria e divertimento não é uma invenção moderna, e as pessoas gostavam tanto de cores vibrantes e de celebrações como nós. Todos os anacronismos presentes no filme remetem a esse tema, a ideia de que aqueles que viveram no passado não eram pessoas de natureza diferente da nossa, e embora a cultura e os valores se modifiquem, é muito provável que aquilo que é emocional e instintivo ainda seja um elo que nos une aos nossos antepassados, mesmo que distantes.

O Coração de Cavaleiro como filme é perfeitamente consciente das suas imprecisões históricas e muitos detalhes ali são um piscar de olho deliberado às mesmas. Ulrich Von Lichtenstein, o nome que o protagonista assume ao se fazer passar por um nobre para competir nas justas, foi um cavaleiro e poeta, que escreveu a sua própria biografia, tão recheada de ficções e exageros deliberados que até hoje mantém os historiadores incertos sobre o que é facto e o que é puramente alegoria ou invenção.

O título do filme (A Knight’s Tale) é uma referência a um conto do escritor Geoffrey Chaucer, e um dos personagens centrais no enredo é Edward, O Príncipe Negro de Gales. O facto de que Chaucer era treze anos mais novo do que Edward, ou que o Ulrich histórico nasceu pelo menos cem anos antes de ambos não é um impedimento para que esses personagens sejam utilizados na narrativa e as suas idades e, no caso de Ulrich, nacionalidades sejam alteradas à conveniência da história.

No fim das contas, o Coração de Cavaleiro é uma fábula, uma fantasia que não hesita em tratar-se a si própria como tal, mas que não perde de vista o que, para mim, é o coração do filme: Um conto sobre as pessoas cujos nomes não estão nos livros de história e sobre como elas também gostavam de rir, assistir desporto (mesmo que em vez de uma Super Bock estivessem a beber vinho quente) e dançar ao som da sua música favorita. E é por isso que William Thatcher é um homem comum, que vem de um bairro pobre de Londres e é através das suas habilidades com a lança que se torna um ídolo.

Grandes batalhas, reis e tratados ajudaram a definir o mundo como ele é hoje, e eles sempre terão um lugar na nossa imaginação e na ficção. Mas é sempre bom relembrar que entre guerras e alianças, entre grandes pestes e a construção de catedrais, pessoas como nós viviam as suas vidas, com apetites e vontades não tão diferentes dos nossos.

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