Birbiglia, Louis e os Limites da Comédia

Que dever têm os comediantes para com os seus fãs?

 

Gosto de comédia. De um modo geral, poucas coisas me dão maior prazer que uma piada que me faz rir de forma genuína, daquele modo que nos sai do estômago, incontrolável. E, em última instância, essa é a única verdadeira missão de um comediante – fazer-nos rir. Mas há algo de especial quando encontramos um espetáculo de comédia que consegue ir um pouco mais além. Que vive além do momento imediato do riso e nos deixa uma semente de pensamento que se instala no nosso cérebro e nos faz contemplar a nossa própria vida. Se o ano passado senti isso com “Make Happy”, de Bo Burnham, este ano esse prémio está, para já, entregue a Mike Birbiglia e o seu genial stand-up special para a Netflix, “Thank God For Jokes”.

O espetáculo é incrivelmente bom, com Birbiglia a usar o seu estilo quase “tímido” para abordar questões tão fraturantes como lidar com uma esposa que está cronicamente atrasada para tudo e recordar momentos desconfortáveis da sua vida, como a desastrosa vez em que apresentou os Gotham Independent Film Awards. Este último evento serviu como rampa de lançamento para uma reflexão profunda sobre os limites da comédia.

O que se podia ter tornado num sermão sobre o direito a dizer tudo o que nos apetece sem consequências (algo que encontro, por exemplo, em muitos espetáculos de Anthony Jeselnik, divertidos que possam ser, a espaços) é bem mais subtil que isso nas mãos de um comediante genial como Mike Birbiglia. Mais do que reivindicar o seu direito sagrado à piada, o comediante reflete aqui sobre a responsabilidade que um comediante tem para não se autocensurar – algo bem diferente. Recordando o momento desagradável que passou com o realizador David O. Russell nos prémios acima referidos, Birbiglia questiona-se sobre o seu dever como comediante em fazer uma piada que sabia que o podia prejudicar profissionalmente mas que era genuinamente hilariante.

Para Birbiglia, uma piada é um bem precioso que deve ser usado com gosto mas nunca de forma displicente. Um bem cujo valor tem vindo a ser arruinado por pessoas que acham uma ofensa e uma piada ofensiva são uma e a mesma coisa. E foi este o ponto que me lançou na minha própria reflexão.

Como aspirante a comediante que em tempos fui e fã de comédia de um modo geral, sempre me senti um pouco desligado de muita da comunidade de comediantes num grande ponto – eu não concordo que tenhamos a direito a dizer tudo o que queiramos só porque sim. Não basta apenas uma piada ser divertida para justificar a sua existência. Contexto interessa. Digo constantemente a mim mesmo que se algo genuinamente faz rir não tem mais nenhuma responsabilidade perante o seu público que meramente essa relação binária. Mas depois a realidade do mundo faz-me hesitar nessa asserção.

Nenhum tópico está fora do âmbito da comédia, mas o contexto de uma piada pode destruí-la. Até um tema tão sensível e negro como violação pode ser abordado pela comédia, mas sempre como catarse e nunca como exploração cínica do seu valor de choque. E faz diferença quem o diz. A mesma piada sobre violação pode ser humor do mais alto nível nas mãos de um comediante e ser ridiculamente para lá dos limites na boca de Bill Cosby, por exemplo.

Senti-me a hesitar nesta minha reflexão durante vários dias até que, enquanto preparava este texto,  vi outro stand-up special: “2017”, de Louis CK. O quase universalmente aclamado “rei do stand-up” entrou de rompante na Netflix com esta hora e trocos de material duro e disparatado, ácido e aluado. Genial. Hilariante. Louis não sabe ser outra coisa. Enquanto vi este espetáculo, fui recordado deste texto que estava a preparar. Porque Louis CK não foge a absolutamente nenhum tema. Nenhum. Nada está para lá dos limites para este incomparavelmente corajoso comediante.

Mas reparei numa coisa interessante que Louis faz e, na verdade, sempre fez. Ao mesmo tempo que “defende” certas ideias que a maioria consideraria indefensáveis, como quem revela ao mundo as entranhas mais negras da sua personalidade, CK faz sempre questão de lembrar ao público a sua “verdadeira” opinião. Faz questão de contrapor a realidade do seu comportamento “irreverente” com o que ele sente que deve ser um comportamento responsável na sociedade.

E aqui está a grande diferença entre Louis CK e, por exemplo, comediantes como Anthony Jeselnik. Jeselnik acredita genuinamente que o mundo seria melhor se disséssemos todos mais o que pensamos no momento exato em que o pensamos. Que a hipocrisia é o maior cancro que nos assola. CK é demasiado inteligente para acreditar numa estupidez dessas. CK sabe que insistir no insulto sem consequências é pouco mais que um desejo juvenil de nunca ter de viver no mundo real. CK reconhece que todos temos pensamentos horríveis e “pouco próprios” e reconhece o humor nesses momentos – mas nunca se esquece de salientar que não nos devemos comportar assim.

Contexto interessa. E um comediante tem (ou devia ter) a responsabilidade de gerir o seu contexto. Se o teu humor envolve encarnar uma personagem misógina em palco e, posteriormente, nos apercebermos que boa parte do nosso público acha que estás mesmo a falar a sério e gosta de ti exatamente por isso, devia ser da responsabilidade de qualquer adulto garantir que o público sabe separar a realidade da comédia. Ou, se não o fizeres, aceitar que é legítimo que muitos pensem que és mesmo assim. Porque se não dermos contexto a uma ação, não temos outra escolha que não aceitá-la como realidade.

Louis CK compreende isso. Mike Birbiglia passa grande parte do seu espetáculo a refletir sobre isso mesmo. Não sei se chega a nenhuma conclusão, mas isso é quase irrelevante. O que importa é a discussão. Não nos resignarmos a este niilismo em que tudo vale e qualquer contraditório é “censura”. Ou então podem ver simplesmente estes dois espetáculos de seguida e rir quase sem parar durante mais de duas horas. Mesmo quando nos querem fazer pensar, os comediantes de topo nunca se esquecem do dever sagrado de nos fazer rir.

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