Ghost in the Shell – Agente do Futuro

O Ghost in the Shell traz um muito necessário novo fôlego ao género cyberpunk, mas tropeça na adaptação da obra original.

 

Título original: Ghost in the Shell (EUA, GBR, IND, CHN, CAN, NZL – 2017)
Realizador: Rupert Sanders
Argumento: Jamie Moss, William Wheeler e Ehren Kruger (Baseado na banda desenhada de Shirow Masamune)
Protagonistas: Scarlett Johansson, Pilou Asbæk, Juliette Binoche

Como um fã de ficção científica e cyberpunk, as minhas expectativas para o Ghost in the Shell eram bastante altas. Porém, sendo também um fã dos filmes e da série animada, tinha cá os meus receios. Adaptações para o cinema tendem a perder muito do seu apelo original, na minha experiência, e isso é particularmente verdade quanto a adaptações de animes ou jogos.

Fico feliz e triste em constatar que o Ghost in the Shell cumpriu as expectativas. Em ambos os critérios. Para quem quer assistir a um filme sobre um futuro agridoce onde a mesma tecnologia que melhora as nossas vidas e que nos põe em contacto com o mundo todo também contribui para o nosso isolamento e nos torna vulneráveis a uma nova casta de criminosos, acho que o filme acerta na medida entre ação, desenvolvimento de personagem e apresentação do ‘mundo’. Para quem quer assistir a um live action da versão animada… Bom, ainda não foi desta.

O que o Ghost in the Shell acerta em tom dramático perde-se aos bocados à medida que o filme avança e alguns clichês tipicamente hollywoodescos começam a invadir uma história construída numa cultura à qual eles não pertencem. E se eu queria, pessoalmente, achar uma razão para perdoar o whitewashing que fez com que a Major fosse interpretada por Scarlett Johansson, isso torna-se mais e mais difícil quando outras referências ao original aparecem, distorcidas por um espelho que deixa tudo um pouquinho mais blockbuster.

Porém, sinto que se olharmos para o Ghost In the Shell simplesmente como um filme standalone e ignorarmos o resto da franquia, a obra é bastante sólida, e até melhor e ligeiramente mais profunda que a maioria dos filmes do género de ação.

A Scarlett tem uma atuação intrigante, andando sempre na fronteira entre respostas pouco ou nada emocionais e expressões subtis que traduzem bem o conflito interno da personagem. Já o resto do elenco parece ser bastante esquecível, com talvez Pilou Asbæk como Batou sendo a exceção. Todo o resto da Secção 9, e mesmo os antagonistas, não apenas têm muito pouco tempo de tela para propriamente serem estabelecidos como personagens, como também parecem pouco profundos comparados com a protagonista.

Mas a narrativa introspetiva que percorre toda a trama torna isso um mero detalhe no background e o maior conflito se torna o conflito de identidade da protagonista.

Visualmente, o Ghost In the Shell é dotado de uma poesia hipnótica. A própria sequência de abertura do filme é um tributo lindo ao original, e, em diversos momentos ao longo da história, somos presenteados com outras sequências de imagens dinâmicas e uma estética coerente, que reflete muito bem o tipo de universo em que a história se passa; Um mundo dominado pelas grandes corporações e pela tecnologia, tão colorido quanto cinzento, e onde o otimismo e o desespero andam muito próximos. A tradução desses conceitos em imagens é feita de maneira perfeitamente harmónica. Novamente sinto que me cabe dizer que como um fã do género cyberpunk, não fiquei desapontado.

A história que percorre toda a narrativa é sólida, se um pouco clichê, mas ao contrário de muitos dos filmes que têm sido lançados ultimamente, fico feliz em constatar que Ghost in the Shell se permite seguir ao seu próprio ritmo ao invés de apressar-se para resolver a trama a partir do segundo ato, depois de usar todo o primeiro ato numa introdução deveras lenta.

Se existe algum problema no storytelling do filme, é como ele insiste em ser didático e explicar muitas vezes como se não confiasse na audiência para ligar os pontos. O exemplo mais óbvio disso acontece logo nos primeiros cinco minutos do filme depois da linda sequência de abertura e essa mesma atitude vai repetir-se ao longo de toda a narrativa.

O Ghost in the Shell não é uma boa adaptação, mas é sem dúvida um bom filme. Se conseguires ir ao cinema a pensar que vais ver uma obra de ficção científica sobre transhumanismo, temperada com os sabores típicos de Hollywood, tenho confiança de que vais sair positivamente surpreso. Se és um fã de cyberpunk e sentes que há anos que não lançam um título mainstream que toque nos temas de tecnologia e o domínio da grandes corporações, vais encontrar no Ghost in the Shell muito daquilo que tens procurado. Agora se és um grande fã do anime, talvez convenha ajustar as tuas expectativas. Medias diferentes têm linguagens diferentes e enquanto não acho que o Ghost in the Shell fez justiça ao original, fico muito grato pela tentativa.

 

 

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