13 razões porque deves ver a nova série da Netflix

Se estás a ouvir, vieste tarde demais.

 

“Vou contar-vos a história da minha vida. Mais especificamente, porque a minha vida terminou. E se estás a ouvir esta cassete, és uma das razões porque isso aconteceu.”

-Hannah Baker

Já disponível na plataforma Netflix, a série 13 Reasons Why adapta para TV o livro homónimo que se tornou um best seller e que deu muito que falar. Neste mistério, seguimos o jovem Clay Jensen (Dylan Minnete) enquanto tenta desvendar a razão porque a sua colega da secundária, Hannah Baker, se suicidara e o porquê de estar envolvido. Esse percurso é guiado por um conjunto de cassetes que Hannah deixou para trás identificando as 13 razões porque se suicidou.

Numa altura em que as séries se acumulam e nos sentimos impotentes na demanda de ver tudo o que é bom, há séries que por alguma razão saltam para a frente da nossa curiosidade. Quando essa espectativa é correspondida, sentimos não só uma tremenda satisfação, como é o nosso dever passar a palavra. E achei que neste caso, tinha sentido dar-vos 13 razões porque devem ver já esta série. Porque não?…

 

Voyeurismo

 

O tema leva-nos para lugares onde temos alguma vergonha de estar. Este tipo de perda é dos mais horríveis e assustadores porque que algum de nós pode passar. Mas por muito horrível que possa ser a perda de algum filho, amigo, conhecido, principalmente numa idade tão jovem, o desconhecido dá-lhe uma carga ainda mais dramática.

Porquê? Podia ter feito alguma coisa para evitar a tragédia? Quem é que posso culpar por isto?

É inevitável não chocar com esse momento, mais cedo ou mais tarde. Não saber o porquê é corrosivo. É também uma fonte inesgotável de curiosidade ou de rumores.

Mas Hannah faz questão de enumerar as razões porque o fez. Será esta uma tentativa de não deixar esse vazio na mente de quem mais sente a sua partida? Será uma pura manobra de vingança para quem a levou a essa decisão? Este é o “gancho” da série. Logo a partir do primeiro episódio é impossível olhar para o lado. É impossível não querer ouvir este relato “para lá da campa”.

 

Estrutura da narrativa

 

A nossa pura curiosidade já seria o suficiente para querermos chegar ao último lado das cassetes. Mas felizmente, os autores desta série não foram pelo facilitismo.

O mistério desta morte é uma montanha russa de emoções. E, mais que tudo, está extremanente bem escrita e não nos dá uma estrutura linear. Cada cassete está focada em alguém ou nalgum acontecimento. E a sua entrada em “cena” não respeita uma perfeita cronologia. São mais uma espécie de capitulos de um diário que nos dá pistas para completar e desvendar o mistério. Há medida que Clay vai ouvindo cada cassete, vamos com ele construindo os personagens e juntando as peças que nos vão completando o puzzle.

 

Boys & Girls

 

Hannah e Clay, como qualquer adolescente da secundária, lutam para equilibrar a balança do “bem” e do “mal”. Seja para sobreviver aos amores e desamores, às picardias, invejas, insinuações e ofensas, seja para tirar o máximo proveito das suas aventuras, novas experiências e paixões. E, claro, sempre de uma maneira intensa como que cada momento fosse o mais importante das suas vidas.

Todos os alunos envolvidos nesta trama têm um papel maior ou menor, mas todos eles são extremamente bem construídos por este jovem elenco. Uma vénia para quem os escolheu, já que a maior parte é completamente desconhecido do grande público. Um destaque grande para Dylan Minnete, que é fantástico nesta série (talvez o reconheçam dos filmes Raptadas ou Goosebumps: Arrepios) e para os dois papéis, mais secundários, de Justin (Brandon Flynn) e Alex (Miles Heizer – que talvez conheçam também da série Parenthood). E, claro, o destaque máximo para Katherine Langford, que está absolutamente fenomenal neste complexo personagem. Ainda mais porque esta é a primeira vez que esta jovem actriz australiana está envolvida numa producão mais profissional. Apontem aí. Temos estrela.

 

 

A velhinha cassete

 

Além do cast, outro dos grandes protagonistas da série é a cassete. Sim. O relato de Hannah é entregue em velhas cassetes Maxell, sendo cada episódio dedicado a uma das razões registadas cada uma no lado A ou B das sete cassetes audio. Isso por si só é um elemento que nos faz viajar no tempo e reanimar as velhinhas boomboxes e os, agora um pouco menos portáteis, walkmans. Mas também dá o mote para uma excelente escolha musical que garante uma banda sonora à altura. Além de grandes clássicos do Rock Alternativo que partilharam a década com as cassetes, mais de duas mãos cheias de belíssimas músicas da cena alternativa actual são escolhidas a dedo para cada cena. “The Night We Met”, de Lord Huron, vai continuar a me criar arrepios nos próximos tempos. A música representa provavelmente o momento mais puro, mas entregue num timing que nos faz suster a respiração.

 

A crueldade dos corredores

 

Tema mais que actual, o bullying é felizmente cada vez mais levado a sério. É certo que os efeitos são diferentes de pessoa para pessoa. Para muitos não é levado a sério, para outros é um tormento (principalmente nestas idades), para alguns pode levar à depressão e ao desespero.

Todos sabemos que o corredor da escola pode ser bastante cruel. Principalmente porque estás exposto ao olhar de todos. Não tens por onde fugir quando és atacado. Às vezes a mais inocente brincadeira ou chacota, que para as crianças ou teenagers que as praticam não terão a maior importância, podem deixar marcas. Porque nem todos têm pele rija, é importante o papel da escola e dos pais, para ler os sinais e tentar perceber onde pode haver mais do que um simples arrufo de escola.

É a esse nível que a série sai do molde do entertenimento para o documento de alerta para um problema que é real e não deve ser ignorado.

 

O bom, o mau e o vilão

 

Essa é uma das grandes qualidades de 13 Reasons Why. Consegue pôr o assunto na mesa, sem ser demasiado técnico, e ao mesmo tempo entregando uma trama complexa, que nos envolve mais na história.

Rapidamente tu te vez ao mesmo tempo a pensar no tema e a fazer paralelismos com situações por que passaste ou assististe à tua volta, e a tentar definir quem são os heróis e os vilões da história. Ou pura e simplesmente se há um ou mais culpados, ou até nenhuns.

 

3

 

Verdade ou mentira?

 

O jogo do gato e do rato é real e Clay e nós estamos no meio a tentar descortinar o que aconteceu e a tentar perceber o que cada um fez para merecer estas acusações. Será que conhecias assim tão bem a Hannah? O que Clay tem a certeza é que é uma das razões. E sabe isso porque, a pedido dela, as cassetes passaram por cada um dos visados, passando depois de mão em mão. “O que será que eu fiz?”. Se para mim não é claro qual foi o momento que possa ter contribuído para um final tão terrível, o que te vai sendo dito pelas cassetes será tudo verdade? Seja porque razão for, haverá uma clara definição de culpa? Por outro lado, porque razão uma pessoa “morta” mentiria?

 

De quem é a culpa?

 

Se há de facto culpados para levar uma jovem de desasete anos a uma decisão tão definitiva, não será claro. Mas para os pais, é certamente um dos pontos mais importantes. Perante a tal dor ampliada pelo desconhecimento do que levara a sua filha a fazer algo tão extremo, a procura de culpados, acaba por ser um escape e uma procura de resolução. Os pais (interpretados de forma brilhantemente dormente por Kate Walsh e Brian D’Arcy James), que não receberam nem um bilhete de despedida, procuram responsáveis e esperam descobrir o que levou a que a sua filha desistisse de viver.

 

Vingança final

 

Porque razão Hannah não deixa um bilhete aos pais, mas ao mesmo tempo se dá ao trabalho de deixar mensagens a todos os que considera culpados pelo seu caminho para o desespero? Também ela tenta arranjar razões para justificar tal decisão? Ou será simplesmente um acto de vingança? Porque razão Clay, que parecia ser o seu amigo mais constante, está nestas cassetes?

 

 

O medo do desconhecido

 

Para Clay este não é um percurso fácil. Ele fica a saber logo na primeira frase da primeira cassete que é uma das razões. O que faríamos no seu lugar? Teriamos medo de descobrir o que possamos ter feito para contribuir para o triste desenlace? Seria mais fácil não enfrentar o desconhecido e manter só as boas memórias? Ou a tal atração pela curiosidade seria mais forte, mesmo sabendo que o mais provável era sairmos no final com um sentimento de culpa?

 

E se…

 

Na verdade, todo este caminho em que Hannah nos guia, pode ser também um valente grito como quem pede ajuda. Ou pelo menos é isso que queremos levar desta história. Sendo certo que já podemos vir tarde, é inevitável não passar na cabeça de cada um, onde estavam os sinais. O que poderiam ter feito de diferente, que pudesse ter evitado uma morte tão prematura. Até que ponto é possível a um pai conseguir distinguir esses sinais dos normais altos e baixos de um adolescente. Até que ponto é possível a uma escola controlar o bullying inerente à rebeldia e estupidez de um jovem adolescente?

 

A realidade é chocante

 

A ficção anda em paralelo com a vida real. E apesar da construção da narrativa servir o espectador com um pequeno caso de investigação que tanto puxa pelo público, a série não se esconde do real problema. E por isso mesmo não teve medo de mostrar o  horror destas situações em duas ou três cenas duras de se ver. Tem sido obviamente por aqui que as vozes mais críticas se fazem ouvir. Que não era necessário ser tão gráfico numa cena tão horrível. Sendo que posso compreender o argumento, acabo por concordar com os autores. A situação é real. Se isso fizer um jovem pensar na dor que vai sentir e por isso desistir, já valeu a pena. Se fizer os pais, amigos, educadores estarem mais atentos a estes actos de bullying e aos eventuais sinais que podem estar à vista, já valeu a pena.

 

 

Esperança de um final feliz

 

Ao longo da série, vamos conhecendo os contornos de toda a história e acima de tudo conhecendo melhor Hannah e quem a rodeia. E por isso mesmo vemos-nos a torcer pela remota possibilidade de um final feliz. Um final feliz que pode ter várias formas. Na redenção de quem se possa sentir culpado. Na culpabilização de quem de facto errou. No sentimento de que existe algo depois da dor. Nem que seja nos dias que se seguem em frente.

 

Acima de tudo, 13 Reasons Why deve ser vista. Tanto pela qualidade como objecto de ficção, como pelo documento de alerta que acaba por ser, tanto para jovens como para adultos. Para quem vá a medo, as cenas mais complicadas de se verem têm um pre-aviso no inicio de cada episódio em que acontecem. Se a série deve ser vista por menores de idade? Penso que isso deve ser uma decisão dos seus pais, como em todos os conteúdos que possam ser susceptíveis aos mais novos.

 

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