As Aparições de Fátima vistas pelo olhar de uma criança.

 

Título original: Jacinta (POR – 2017)
Realizador: Jorge Paixão da Costa
Argumento: Manuel Arouca, Raquel Palermo
Protagonistas: Matilde Serrão, Paula Lobo Antunes, Pedro Lamares

Numa altura em que a Igreja Católica celebra o centenário das Aparições de Fátima, a 13 de maio, com visita do Papa Francisco a Portugal, seria de esperar que a história, já por algumas vezes adaptada tanto ao pequeno como ao grande ecrã, regressasse aos cinemas portugueses.

Com argumento de Manuel Arouca (o autor da novela de maior sucesso da TVI, «Jardins Proibidos») e realização de Jorge Paixão da Costa («Roseira Brava», «A Ferreirinha»), chega agora «Jacinta», uma nova perspectiva sobre as Aparições, desta feita pelo olhar da mais pequena e rebelde do trio dos pastorinhos, Jacinta. Com produção da TVI, em parceria com a Coral Europa, o filme passou pelas nossas salas de cinema, estreando no fim-de-semana de Páscoa, e chega agora à televisão, com exibição prevista para 13 de maio no quarto canal.

Entre 1918 e 1920, Portugal foi um dos países que sofreu com a epidemia da “gripe espanhola”, que lavrava sobretudo a vida dos mais pequenos. Após a morte de Francisco Marto, em 1919, vítima da gripe, a sua irmã Jacinta é internada no Hospital da Estefânia, padecendo do mesmo mal.  É numa cama do “hospital das crianças” que encontramos Jacinta (Matilde Serrão) neste filme, que se desenrola a partir das suas memórias das Aparições.

Aurora (Paula Lobo Antunes), a enfermeira encarregue de cuidar da pastorinha, é uma mulher amargurada pela morte do irmão, Sebastião, na Primeira Guerra Mundial, e pelo facto de não conseguir ter filhos. Por isso, afirma não acreditar em Deus, e tem muitas perguntas para fazer à pequena menina que diz ter visto “uma Senhora muito linda” na Cova da Iria.

A partir das conversas entre Jacinta e a enfermeira, acompanhamos no filme uma visão diferente de uma história que sobejamente conhecemos: afinal, que impacto tiveram as aparições marianas em três crianças de um meio rural, que não iam à escola e viam os seus irmãos, pais e amigos partir para uma guerra que não compreendiam, enquanto as suas famílias lutavam todos os dias pelo pão do dia seguinte, nas difíceis condições da vida em Portugal nos anos 20? Era também uma altura desafiante para a República em Portugal, que, dando os seus primeiros passos no nosso país, tentava afastar a Igreja do poder.

Quando Lúcia, Francisco e Jacinta acreditaram ter visto Nossa Senhora pela primeira vez na Cova da Iria, prometeram não contar a ninguém, com receio da troça dos outros miúdos e do resto da sua aldeia. Mas Jacinta, a mais travessa, não conseguiu guardar segredo. Para o povo português, as aparições significavam uma nova esperança nas suas penosas vidas; para o Governo, uma conspiração da Igreja para manter o seu poder.

Numa narrativa simples e escorreita, e com a competente e divertida interpretação de Matilde Serrão, acompanhada por um elenco de luxo (Paula Lobo Antunes, Rita Salema, Dalila Carmo, António Pedro Cerdeira, Almeno Gonçalves), descobrimos como três crianças foram obrigadas a enfrentar o escrutínio público das suas crenças, crescendo e tornando-se mais maduros, à medida que assumiam responsabilidades de exigência superior à sua idade: os alegados pedidos da Virgem, sacrifícios pelos mais pobres e orações pela conversão dos pecadores; as súplicas do povo que lhes implorava que pedissem a Nossa Senhora pelos seus enfermos e familiares na guerra; e os padres e oficiais do Governo que os acusavam de mentirosos e que, inclusivamente, chegaram a raptá-los e ameaçá-los de morte.

Gravado em Fátima, com uma meticulosa e notável preocupação em recriar os ambientes, o guarda-roupa e as grandes temáticas da época, «Jacinta» é um interessante filme sobre um fenómeno vivido por três crianças há já cem anos numa pequena localidade do nosso país, que continua a suscitar a curiosidade e a inspirar romarias, de vários credos e nacionalidades.

 

 

separador_trailer

Facebook Comments

Leave a comment