11 mulheres, 11 actrizes portuguesas, caminham até Fátima, guiadas por João Canijo.

 

Título original: Fátima (POR – 2017)
Realizador: João Canijo
Argumento: João Canijo
Protagonistas: Cleia Almeida, Vera Barreto, Rita Blanco

João Canijo é, por natureza, um realizador do “cinema do real”: os seus filmes são observações cruas, imagens sem filtros nem preciosismos da sociedade. O cineasta habituou-nos a retratos de uma portugalidade profunda, que, sejam passados no interior de Portugal, como «Noite Escura», de 2004, ou «Mal Nascida», de 2007, ou nas cidades, como «Sangue do Meu Sangue», de 2011, têm em comum o facto de a câmara de Canijo captar as idiossincrasias das relações familiares portuguesas.

No cinema de Canijo, são característicos os planos apertados e os cenários claustrofóbicos das casas e ambientes implosivos das suas histórias. Para além dos cortinados de crochet nos meios rurais, das mulheres de lenços negros na cabeça e pele queimada pela lavoura ao sol, existem histórias de violência e drama que a típica discrição portuguesa não permite contar. São essas as histórias que interessam a João Canijo, e são essas as histórias que se contam também em «Fátima», o seu mais recente filme.

Coincidiu com o centenário das Aparições e da visita do Papa a Portugal, mas João Canijo já queria realizar este filme há anos – a “crise” não o permitiu. Não crente, João Canijo disse em entrevista ao «Observador» que nunca tinha ido em romaria a Fátima, mas interessava-lhe este fenómeno. Afinal, as peregrinações de Fátima são um fenómeno muito português e muito diferente de outros “caminhos da fé” que se fazem pelo mundo (como os caminhos de Compostela, por exemplo). As peregrinações a Fátima são motivadas por uma necessidade de sacrifício muito própria da nossa cultura: o português acredita que deve sofrer para merecer aquilo que almeja, sobretudo quando faz promessas a entidades divinas – neste caso, Nossa Senhora de Fátima. Nas romarias ao santuário da Cova da Iria, os peregrinos caminham até ao seu limite, despojam-se do luxo das suas camas e duches quentes e pernoitam em albergues ou caravanas, rezam o terço e cantam músicas religiosas, numa tentativa de demonstrar a Nossa Senhora a sinceridade da sua fé, e que são meritórios dos pedidos das suas promessas.

Em «Fátima» encontramos 11 mulheres, 11 actrizes portuguesas, quase todas rostos habituais do cinema de Canijo (em especial as actrizes “fetiche” do realizador, o trio Cleia Almeida, Rita Blanco e Anabela Moreira) que se reúnem para fazer mais de 400 km a pé, desde a aldeia de Vinhais, em Bragança, até Fátima. É a mais longa peregrinação dentro do nosso país, que dura cerca de nove dias. Em nome do realismo do filme, e como é habitual desde cineasta, Canijo pediu às actrizes que se mudassem para Vinhais durante alguns meses, por forma a construir de forma mais fiel as suas personagens de mulheres transmontanas. Durante esse “estágio”, as 11 actrizes trabalharam como habitantes da aldeia, como empregadas de balcão, na lavoura ou no centro de saúde, misturando-se com a população. Depois, o grupo foi duas vezes a pé até Fátima: fizeram uma peregrinação real, desde Bragança, e outra de preparação para o filme, em que não caminharam em toda a extensão do percurso. Apenas assim se poderia garantir que o elenco, mesmo composto por grandes nomes da nossa praça e acostumadas à maneira de trabalhar de Canijo, compreendia a dureza daquela peregrinação e toda a sua carga emocional e espiritual. Afinal, apesar de existir um guião, o filme foi rodado como um road movie de improviso, em que as reacções e as queixas das personagens são, muitas vezes, reais. Uma forma de garantir a tão prezada autenticidade da obra deste cineasta.

Mantendo a sua predilecção por uma estética “feia” e natural, Canijo filma as mulheres no seu longo caminho até Fátima sem artifícios: a câmara segue-as pelas estradas nacionais, suadas, magoadas, feridas e em permanente rota de colisão umas com as outras. Como não podia faltar num filme deste realizador, é de relações que se fala em «Fátima» – relações de mulheres, amigas, familiares, conterrâneas que sabem tudo umas das outras, o bom e o mau e, sobretudo, o que as levou a fazer aquele caminho a pé. Ana Maria (Rita Blanco) e Céu (Anabela Moreira) lutam constantemente pela liderança do grupo, e sobretudo sobre como fazer a caminhada. Ana Maria já vai a Fátima a pé há quase dez anos, e para Céu é a primeira vez. Se para a primeira o caminho deve ser feito com sacrifícios e sem queixas, sem paragens para cafés nem banhos quentes, a rezar e a meditar, a segunda acredita que é tudo um exagero e que o grupo se devia preocupar em garantir o bem-estar de todas e chegar ao destino da melhor maneira. Céu é a forasteira do grupo, a menos tradicional das mulheres, que não compreende a tradição da dor e do sofrimento naquela caminhada. Como um paralelismo com a sociedade e a tradição, Canijo vai expondo, a partir dos diálogos destas mulheres, as contradições e dificuldades de um tempo sempre em mudança. E, também, da ingrata posição da mulher, que luta entre seguir a tradição que lhe foi ensinada, ou as suas próprias convicções.

«Fátima» é um filme forte e desafiante, que parte de uma temática aparentemente religiosa para abordar o que na realidade torna este tipo de fenómenos interessantes: a maneira como moldam a cultura e a mentalidade de um povo, a nossa identidade enquanto portugueses.

 

 

separador_trailer

Facebook Comments

Leave a comment