Para quem já não se lembra da última vez em que lançou um papagaio de papel.

 

Título original: Ma vie de courgette (SUI, FRA – 2016)
Realizador: Claude Barras
Argumento: Céline Sciamma
Protagonistas: Gaspard Schlatter (Voz), Sixtine Murat (Voz), Paulin Jaccoud (Voz)

Deitadas para o chão por uma mãe alcoólica, as latas vazias de cerveja eram os brinquedos de Icare, ou Courgette, como o tratava a mãe. Refugiado no sótão, Courgette, de nove anos, passava os seus dias a fazer pirâmides de latas e lançar pela janela o seu papagaio de papel, por ele pintado com um desenho do pai, que segundo ele acreditava, tinha deixado a família para viajar pelo mundo com uma galinha. Quando a mãe morre, Courgette é levado para um orfanato, onde descobre que, afinal, há mais crianças como ele, que carregam no olhar dores demasiado pesadas para a sua idade.

Esta é a história de «A Minha Vida de Courgette», a primeira longa-metragem do realizador Claude Barras, que se inicia assim numa história sobre crianças mas não para crianças, num stop-motion de animação com ares de Tim Burton e desenhos animados de plasticina dos anos 80. Vencedor do MONSTRA 2017, festival de cinema de animação de Lisboa, e nomeado para Óscar de Melhor Filme de Animação, o filme estreou em 2016 no Festival de Cinema de Cannes, distinguindo-se em relação às animações do nosso tempo por não ter pretensões de ser um objecto moral ou idealista, como muitas criações da Disney e suas congéneres. A história que Claude Barras adaptou de um romance do escritor francês Gilles Paris é uma honesta mas singela radiografia das emoções de crianças que encontram num orfanato a amizade, o carinho e a família que não tiveram em casa e que os tornaram mais maduros que alguns adultos.

Numa linguagem simples mas delicadamente bem escrita, «A Minha Vida de Courgette» pode ser facilmente compreendido e apreciado por crianças mais velhas, mas foi especialmente pensado para adultos. De facto, este filme fala ao coração de pais, tios ou irmãos mais velhos, que acreditam que a idade ou o acaso que os tornou pais ou tutores lhes dá direito a uma superioridade moral de heróis de guerra ou mártires religiosos. Como uma chapada de luva branca, os bonecos de cabelo azul e semblante triste de Claude Barras lembram-nos de uma hipocrisia tão cara aos dias de hoje: o altruísmo fingido de um tempo de redes sociais, que esconde as coisas feias do outro lado da porta, ou em sótãos como o de Courgette. As crianças têm o seu pior confronto com esse egoísmo dos crescidos quando a tia abusadora de Camille, uma das meninas da casa, se apresenta à directora do orfanato como uma dedicada e carinhosa segunda mãe, apesar de o seu interesse ser apenas o subsídio que ser tutora lhe pode oferecer.

Um filme sobre ser criança para adultos esquecidos, sobre papagaios de papel e cadeiras de baloiço, a beleza das coisas simples e dos afectos que deixamos nos ecrãs de telemóveis e tablets.

 

 

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