Ma Loute

Bruno Dumont Fellini Anderson

 

Título original: Ma Loute (FRA – 2016)
Realizador: Bruno Dumont
Argumento: Bruno Dumont
Protagonistas: Fabrice Luchini, Juliette Binoche, Brandon Lavieville & Valeria Bruni Tedeschi

Estamos no norte de França, no verão de 1910, apenas a 4 anos do eclodir da primeira guerra mundial e os Van Peteghem – uma família burguesa Francesa – regressam ao seu habitual paraíso marítimo, para mais uma temporada de férias. Para espanto geral, a região é assolada pelo desaparecimento de turistas, o que leva uma dupla de polícias – que mais lembram o Bucha e Estica – a deslocar-se ali, para tentar desvendar o mistério. Como se não chegasse esta onda de crimes para desassossegar esta caricata família, a filha Van Peteghem (Raph) envolve-se com Ma Loute Brufort (Brandon Lavieville), o filho mais velho duma pobre família de pescadores.

Bruno Dumont serve-se duma mise-en-scène com elementos do drama histórico, do burlesco e do fantástico, para forjar o que parece uma crítica social fortemente assente nos temas da luta de classes, da identidade de género e na degeneração humana. Neste mundo com pinceladas de Chaplin, Fellini, Caro & Jeunet e Wes Anderson, toda e qualquer subtileza é propositadamente evitada, expondo o grotesco e a degenerescência como elementos definidores duma humanidade onde os ricos são física e mentalmente dilacerados pelo incesto e os pobres forçados a canibalizar para matar a fome.

No que à forma diz respeito, Ma Loute nunca assume uma sequência narrativa clássica, afirmando-se através duma sequência de quadros com dois contextos paralelos, o da resolução dos crimes e o da relação entre os descendentes das duas famílias, chegando ao desfecho duma forma que nos parece algo apressada e pouco imaginativa. A cinematografia e a direcção de arte são os bons elementos do filme, aproveitando os belos cenários naturais como plano de fundo, bem como o guarda-fatos e demais caracterizações dos personagens, resultantes duma herança visual proveniente de paradigmas de género já citados.

Dentro do que é um estilo de representação bastante estilizado, o sempre brilhante Fabrice Luchini é-o também no papel do patriarca da família André Van Peteghem. Assim são as performances de Valeria Bruni Tedeschi no papel da senhora Isabelle Van Peteghem e de Juliette Binoche, que pouco a pouco rouba o plano principal no filme. Vale a pena dizer que nos parece corajoso que actores altamente respeitados em rolos dramáticos se exponham abraçando o que por muitas vezes roça o histérico e grotesco. Igualmente bem e já num estilo mais naturalista, se assim se pode chamar, estão os novatos nos papéis de Ma Loute e a sua jovem amante, que tanto encarna o género masculino como feminino.

Apesar de todo o aparato e actores de primeira, Dumont nunca consegue criar um mundo próprio como fizeram um Fellini e faz Wes Anderson e Ma Loute é confuso nas suas intenções. Deverá ser lido como uma comédia de critica social? Se sim, histórica ou sobre um retrocesso civilizacional em curso no presente? Será que se trata dum ensaio surrealista? Apontamos ao filme um certo candor criativo e estético, mas ainda assim, não nos pareceu suficientemente original ou cativante.

 

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