Argumento contra, argumento a favor

 

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Uma imagem vale por mil palavras, significa que diz tudo e não diz nada. Na mesma linha de pensamento estão as histórias sem uma poderosa ideia motora, dizem tudo e não dizem nada, conduzem ao vazio. Mas narrativas honestas com significado poderoso são um motor de transformação na vida de uma pessoa. Mudam a nossa cultura pela maneira original, surpreendente e significativa como expõem uma determinada verdade da realidade. A ideia aqui é olhar para os argumentos do cinema e das séries sob essa perspectiva. Argumentar contra e argumentar a favor. Nós existimos, logo argumentamos.

Vale pelos lindos olhos de Jane

Passaram-se anos desde que um homem outrora conhecido como Tarzan, trocou a selva de África por uma vida aristocrática em Londres, sob o nome de família John Clayton III, com a sua amada Jane ao seu lado. Agora, ele é desafiado a regressar ao Congo pela enigmática personagem George Williams, com um objectivo aparentemente diplomático, mas também para averiguar o que por lá se passa nas sombras. Sem saber que está a ser manipulado num enredo de ganância e vingança orquestrado pelo mastermind Capitão Rom, acaba por se ver enredado numa perversa conspiração para o apanhar.

Acção, quando é mesmo boa, aperta o estômago, dispara a adrenalina, faz saltar da cadeira com a emoção, seja a cadeira do cinema, do sofá, ou até do comboio se fores sentado a ver o filme no telemóvel, absorvido pelos headphones, formando aquela bolha invisível, que te leva para o mundo da fantasia, e com o salto até pregas um susto no tipo do lado que vai a babar de sono. Não é bem o caso do Tarzan. O grito deste Tarzan não desperta grandes emoções, mal se ouve.

Neste caso quem adormece é o espectador. Vá, estou a exagerar, o filme vê-se bem, entretém qualquer coisita, houve alguns momentos interessantes, por duas ou três vezes quase que senti uma pontinha de emoção, ou talvez fosse o gato a arranhar-me as pernas, já que assisti ao filme no sofá em casa, e o sofá é dele, toda a gente sabe, só eu é que insisto em não reconhecer esta verdade absoluta e universal. Eu gosto de filmes de acção, gosto de clássicos e de super heróis, o elenco é excelente, o realizador experiente em filmes onde a magia dos super heróis é retratada de forma fantástica, havias expectativas. E, sim, houve momentos em que fiquei absorvido pelo filme.

Argumento a favor da realização e da fotografia que é espectacular. Nota-se que o realizador David Yates (vários Harry Potters e o Fantastic Beasts and Where to Find Them) transpirou para salvar o filme. Criou algumas excelentes sequências de acção e planos de brutal beleza visual, carregados de estética moderna. Uma mão, uma boca, uns olhos maravilhosos, um grito de guerra, um músculo inchado, uma acção poderosa em grande plano, com extrema definição de textura, cor, luz, sombra e som, uma câmara lenta a evidenciar uma acção, uma sequência rápida que promete tirar o fôlego e transportar imediatamente para aquele mundo de fantasia, onde cada acção que experienciamos é pura perfeição.

O Tarzan (Alexander Sarksgard, Big Little Lies) é poderoso, tem o ar do nórdico seco, rijo mas ao mesmo tempo elástico, sensual, com a cabeça ligeiramente inclinada para baixo e rodada a três quartos, mas os olhos azuis claros a disparar em frente, como está tão na moda. A Jane é a mais deslumbrante de sempre – mesmo suja de rebolar em lutas na selva, ela consegue irradiar uma luz branca límpida. Frágil, mas non troppo (Margot Robbie, tão mais maravilhosa em Suicide Squad). E o elenco conta ainda com mais dois actores brilhantes: Samuel L Jackson (George Washington Williams) e Christoph Waltz (Rom). E isto praticamente resume os argumentos a favor.

Vamos aos argumentos contra. Como a história tem debilidades no conteúdo e na estrutura, esses planos e acções espectaculares vivem desgarrados de uma ideia condutora, intrínseca, forte e significativa. Como tal, falta ao filme um significado particular e relevante. Em resultado disso, tem um ritmo descompassado – e um filme de acção sem dinâmica intensa é incapaz de emocionar e prender do princípio ao fim.

As cenas surgem numa sequência errática, sem um fio condutor capaz de chamar a emoção dentro de nós e prendê-la até ao fim. Pequeno exemplo disso: a mão de Rom a passar nas folhas secas da savana é suposto transmitir-nos uma sensação poderosa, fazer-nos sentir o que a personagem sente, criar empatia com ele, tal como a famosa imagem do Gladiador, em que Russell Crowe, enquanto caminha num campo de trigo, passa igualmente a mão pela ponta das folhas secas. Só que no Gladiador essa cena é parte integrante de um sistema de imagens que retratam a ligação à terra dessa personagem, tem o significado subjectivo do desejo dele de regressar a casa, à família, à sua terra. Desejo que o alimenta e dá força do princípio ao fim da história. E esse sistema de imagens é repetido ao longo do filme, em várias cenas, de várias maneiras, o que faz com que o espectador vá formando uma ideia objectiva do desejo dele e assim gradualmente é reforçada a empatia com Maximus. No final, quando ele está já a morrer e a essa cena da mão é repetida uma vez mais (pela quarta ou quinta vez) aquilo faz absoluto sentido nas nossas cabeças e corações, percebemos perfeitamente o significado do que está a acontecer, tudo se encaixa e a experiência emocional é muito intensa. O sistema de imagens funciona bem quando a história tem uma ideia forte e bem definida – se não, o resultado é uma colagem de cenas mais ou menos interessante mas pouco significativa.

A ligação emocional com o Tarzan fica mais perto, não de um poderoso grito na selva, mas assim mais de um arroto. Falta clímax. A razão disto está no desenho do argumento.

Portanto a história não funciona bem e o problema está no argumento. Falta uma construção narrativa, bem interligada dos vários subenredos, e de momentos de acção progressivamente mais intensos, ligados numa cadeia de eventos significativa. Além disso, os diálogos são completamente textuais, de uma forma que trava literalmente a progressão da narrativa. O diálogo entre Rom e Jane na mesa de jantar é um bom exemplo disto – quase não sentimos tensão numa cena em que supostamente ela está totalmente à mercê e manipulada pelo bad guy, em que a natureza selvagem da personalidade de Jane podia ser um bom contraponto à maldade do terrível vilão. Mas não.

A história não prende nem conduz, e os diálogos são bom exemplo disso. Isto não é uma regra, mas diálogos sem subtexto podem ser a morte de um filme, sobretudo de acção. Por exemplo, Maximus no Gladiador nunca diz textualmente que quer vingar a família matando o imperador, voltar para casa, voltar para a sua terra, para a família e encontrá-los, nem que seja no além, mas nós sentimos isso tudo nas nossas entranhas, como ele sente. Aqui na Lenda do Tarzan, as personagens dizem tão textualmente o que se está a passar, e que já estamos a ver na imagem, que há pouco lugar para empatia, curiosidade e emoção. Em vez de centrifugação emocional, temos uma flatline de um paciente acabado de morrer. Morte por aborrecimento.

Isto é estranho que seja assim, porque esta Lenda do Tarzan tem imenso conteúdo. Temos o enredo principal da libertação dos escravos, mais a história de amor, mais a história de George Washington Williams (que é uma curiosa metáfora do primeiro presidente dos Estados Unidos, mas aqui representado num homem de raça negra e cujo significado é a procura de uma redenção perdida), temos o flashback com a história das origens de Tarzan e o seu segredo no passado, temos o conflito dele com o chefe Mbonga (Djimon Housoun), temos ainda a história da ambição do wannabe terrível Rom. Mas a coisa não funciona no todo. E o Rom, desculpem-me, mas parece-me mais uma imitação barata do Colonel Hans Landa.

Por conseguinte, ao contrário do Tarzan que mais uma vez salva Jane, este filme não se consegue salvar nem com a super força do realizador, nem com os voos impressionantes do director de fotografia, nem com o instinto dos actores brilhantes que fazem parte do elenco.

Mas nem tudo é mau. Argumento a favor da forma plástica inteligente como o Tarzan imita os sons da selva, muito bem filmado, e argumento a favor da explicação evolutiva das mãos poderosas do Tarzan, essa foi bem sacada.

Porém, argumento contra o CGI (para quem não sabe, CGI é Computer Generated Imagery), que em algumas cenas correu muito mal, ou se calhar faltou o dinheiro para fazer melhor, ou como diria o Deadpool se entrasse neste filme “CGI guys fucked this shit”. Temos vários exemplos disso ao longo do filme.

Um dos momentos é o abraço maternal entre a gorila e o Tarzan de 5 anos. A mãe símia do Tarzan é uma gorila que decidiu adoptá-lo em bebé, mas contra a vontade do chefe do grupo, que é um super gorila poderosíssimo, marcado de cicatrizes. Mais tarde, vemos o Tarzan, já em rapazinho, a levar um poderosíssimo enxerto de porrada do chefe. Quando o super gorila se cansa de bater na criança e se afasta, a mãe símia do Tarzan vem cuidar dele, física e emocionalmente, numa cena que deveria ser um forte momento emotivo (e eu sou fã destes momentos emotivos, eu chorei no final do Wall-E) mas que é completamente arruinado por um abraço de criança absolutamente falso.

Argumento contra algumas ideias do filme. Por exemplo, o flashback tem vários objectivos e um deles é contar a velha história de que a porrada que levamos na vida faz-nos crescer e ficar mais fortes. Isto talvez ainda seja uma ideia capaz de captar o imaginário de muita gente. Todos nós conhecemos esta realidade, nas nossas vidas, nas nossas relações, nas nossas profissões. Mas é uma ideia que já foi repetida até à exaustão desta forma básica. Novas metáforas precisam-se. Adiante.

Argumento também contra os saltos de continuidade. Várias vezes fica a sensação de que saltámos de um ponto para o outro da acção como se fossemos o Tarzan a agarrar-se a uma liana que não estava presa a nada, e caímos desamparados. Ou seja, estamos a seguir uma acção, e na transição para o plano seguinte houve um salto qualquer no espaço e no tempo de tal maneira que faz pouco sentido. Chega a parecer que editor fez cocó, um grande cocó mal cheiroso de gorila.

Agora vejamos, o argumento não precisava salvar Jane só para ser original e cativante. Se a Jane morresse isso seria catastrófico, audiência desiludida, ruína orçamental. A minha crítica vai para o facto dos escritores (Adam Cozad e Craig Brewer) não terem criado e desenvolvido a história de uma forma tal que nos deixasse na dúvida, e na curiosidade extrema de saber o que acontece a seguir. Era responsabilidade deles criar aquele momento em que inconscientemente pensamos: será que ele a salva mesmo? E como é que ele a salva? A que forças inimagináveis é que Tarzan terá de recorrer para salvar Jane? Como é que ele se vai superar? Porque isso é que é boa escrita. É fazer a audiência sentir tudo isto, sentir-se na dúvida, por consequência, empolgada, emocionada, a morrer de curiosidade, mesmo sabendo qual vai ser o final, neste caso, o expectável salvamento de Jane. Isso seria um bom argumento. Nesta Lenda do Tarzan, ele nunca se transcende, não faz nada de novo, nada que não saibamos de antemão que o Tarzan é capaz de fazer, nem para repor a justiça no mundo, nem para salvar Jane.

E podia ter feito isso e de uma forma espectacular. Aqui há temáticas e histórias suficiente para isso. Há dois enredos de redenção no filme. Um é o do próprio Tarzan, e o outro é a redenção dos EUA, representados na personagem do George Washington Williams, como já disse atrás. Mas no caso do primeiro, o Tarzan não se transcende. Nenhum aspecto da sua humanidade sofre qualquer espécie de evolução, a redenção aparece facilmente, sem um clímax excepcional, e com um texto literal. A segunda história de redenção, até podia ser uma ideia original, mas como não tem uma verdadeira resolução, fica no ar e deixa um sabor desenxabido.

Assim, a libertação dos escravos e o salvamento de Jane são duas histórias a correr em paralelo, que se tocam em momentos, mas que não ficaram interligadas de forma surpreendente nem terminam num clímax fabuloso. Ou seja, tal como na selva há lianas soltas, também o argumento está cheio de pontas soltas que deitam o nosso entretenimento por terra. A Lenda do Tarzan parece um pouco uma miscelânea de ideias, algumas boas, e de planos e acções espectaculares, alguns bons. Nada que me fizesse dar o grito de assombro AAAAuóuóóóóóóóóóóóóóóóóóó, que eu esperava dar, que eu queria dar. Em termos de onomatopeias foi mais um blherc.

 

Título Original: The Legend of Tarzan (GBR, EUA, CAN – 2016)
Realizador: David Yates
Argumento: Adam Cozad, Craig Brewer
Protagonistas: Alexander Skarsgård, Margot Robbie, Christoph Waltz

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