“A História do negro na América é a História da América. E não é uma história bonita”.

 

Título original: I am Not Your Negro (EUA – 2016)
Realizador: Raoul Peck
Argumento: James Baldwin, Raoul Peck
Protagonistas: Samuel L. Jackson, James Baldwin, Dick Cavett

Quando, em 1979, o poeta James Arthur Baldwin iniciou um trabalho biográfico sobre Medgar Evers (1925-1963), Malcom X (1925-1965) e Martin Luther King Jr. (1929-1968), intitulado “Remember This House” não imaginava que, à semelhança dos três maiores líderes negros norte-americanos da década de 1960, os seus ídolos e objectos de estudo, acabaria por falecer sem dar por terminada a sua obra. Baldwin morreu de cancro no estômago em 1987, sem conseguir concluir o seu projecto. Entretanto, o manuscrito inacabado foi entregue ao realizador Raoul Peck, cineasta experiente no género biopic («Lumumba», 2000, «O Jovem Karl Max», 2017), que se propôs a terminar o trabalho de Baldwin. No filme «I am Not Your Negro – Eu Não Sou o Teu Negro», o realizador apresenta o resultado da composição do texto de Baldwin com imagens de arquivo de palestras do autor, excertos de vídeos com Medgar, Malcom e Martin e outros momentos dos conturbados anos 60 nos EUA.

Mas, num tempo em que a luta social faz novamente as manchetes dos jornais norte-americanos, com o movimento «Black Lives Matter» desde 2013 a discutir e a promover manifestações pela comunidade negra, e a chegada ao poder do controverso Donald Trump este ano, Raoul Peck não podia limitar-se a terminar a história que Baldwin tinha começado a contar – como se as questões raciais naquele país se tivessem resolvido entretanto. Assim, este documentário surge como um paralelo entre o passado e o futuro: intercalando habilmente entre momentos dos anos 60 e outros dos mais recentes anos nos EUA, o realizador convida os espectadores a uma análise sobre a luta de Martin Luther King e seus contemporâneos e os desafios dos norte-americanos negros de hoje em dia, provando que o seu trabalho ainda não terminou.

Investigador, académico e activista do movimento negro nos EUA, James Baldwin sentiu-se impelido a escrever “Remember This House” – um projecto que descreveu ao seu agente literário como um desafio de grande envergadura e ambição –, para demonstrar, histórica e socialmente, as raízes dos conflitos raciais naquele país. Afinal, como afirmou o próprio numa palestra, “as pessoas brancas devem tentar perceber porque é que foi necessário criar o conceito de negro, porque eu não sou negro, sou um homem, mas se vocês pensarem que sou um negro, é porque precisam disso”. No fundo, Baldwin quis explicar que são as distinções raciais, desnecessárias dentro da única espécie dotada de racionalidade, que levam aos conflitos, complexos de superioridade e leituras discriminatórias sobre o outro, um ser igual em humanidade e vida – uma triste realidade de um país onde foi necessária uma guerra civil para pôr fim à escravatura negra e onde, mais tarde, se assassinaram três activistas negros.

É ao som de uma cuidadosamente seleccionada banda sonora, com êxitos como “Route 66” (Nat King Cole, 1946), “People Get Up And Drive Your Funky Soul” (James Brown), “Only a Pawn in Their Game” (Bob Dylan, 1963 – música dedicada a Medgar Evers), que por si só contam uma história de uma América marcada pelo ódio, que Raoul Peck dá vida às palavras de Baldwin, com a narração do incontornável Samuel L. Jackson, conhecido também pelo seu activismo. Num tom sempre sóbrio e austero, Samuel L. Jackson empresta a força do seu inconfundível timbre a uma narrativa que nos habituámos a conhecer mas que, afinal, parece não ter fim.

Com uma cadência constante e uma montagem competente, o filme, estreado no Festival de Cinema de Toronto e nomeado para Óscar de Melhor Documentário, peca apenas por perder o rumo a páginas tantas da história, altura em que possivelmente terão terminado as notas de Baldwin e o realizador terá optado por reproduzir palestras do escritor por completo, desviando-se do discurso de paralelismo que distinguia este documentário. Não deixa, porém, de ser um olhar imperdível sobre a História Americana que, tal como defende Baldwin, não pode ser separada da História da comunidade negra naquele país.

 

 

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