F***, Marry, Kill: Stallone Edition (No “Rocky” Allowed)

F***, Marry, Kill

 

Para os que chegam a esta crónica pela primeira vez, começo por explicar em que consiste exatamente esta minha bizarra crónica. Para os mais inocentes entre nós, “F***, Marry, Kill” é um jogo agradavelmente parvo em que, mediante três opções entre celebridades giras, celebridades bizarras ou até personagens de ficção, temos de escolher com as quais faríamos… bem, as três escolhas dadas no título. Partindo desta premissa, decidi aplicar estas regras ao mundo do cinema e da televisão. Como? Escolhendo uma figura (realizador, ator, argumentista, tudo o que me lembrar) e aplicando estas regras à sua filmografia: especificamente escolhendo uma obra sua para “f***” (um filme ou série muito revisitável, não necessariamente o melhor mas aquele que não conseguimos resistir ver se nos passar à frente dos olhos), “marry” (o mais indispensável, o favorito, aquele que, a sermos forçados a escolher apenas um para o resto da nossa vida, não conseguiríamos prescindir) e “kill” (a ovelha negra da família, que teríamos aqui a oportunidade de apagar para sempre das nossas memórias coletivas). Estamos todos esclarecidos? Comecemos então.

Na edição desta semana, ponderei fazer uma viagem pela carreira de Sylvester Stallone. Dei por mim a concentrar-me totalmente na saga Rocky, por isso decidi tornar o desafio um pouco mais original – para efeitos de registo, a lista com Rocky seria F*** “Rocky IV” / Marry “Rocky” / Kill “Rocky V”. Assim sendo, sem mais demoras, vamos ver quão difícil esta decisão se torna com o autoimposto embargo no mais famoso boxeur fictício da História do Cinema:

 

F***: “Assalto Infernal” (1993)

Stallone é um alpinista profissional e especialista em salvamentos na montanha que, depois de um acidente inesperado, deixa cair a sua parceira e esposa do seu melhor amigo. Reforma-se do seu trabalho e corta relações com o seu amigo mas é obrigado a voltar ao ativo para um salvamento inesperado que acaba por se revelar uma fuga às autoridades por parte de um grupo de ladrões profissionais? Ridículo, não é? E, ao mesmo tempo, um dos filmes mais viciantes de sempre. Escrito pelo próprio Stallone, este é um dos daqueles clássicos de ação que parecem fazer o controlo remoto desaparecer quando começam a dar na televisão. Desde momentos de tensão impecavelmente coreografados a inexplicáveis explosões numa montanha, “Assalto Infernal” vem com a sua dose de pipocas. É absurdo, não faz qualquer sentido e eu não podia adorá-lo mais.

 

MARRY: “Homem Demolidor” (1993)

Este filme é um caso curioso. Por um lado, tem todos os indicadores clássicos de um filme de Stallone – desde as cenas de ação aos “one-liners” forçados, passando por desculpas esfarrapadas para ele mostrar os músculos. Por outro lado, é capaz de ser uma das mais inspiradas sátiras do futuro. Mais: feito em 1993, é quase assustadoramente preciso na sua descrição da sociedade pós-internet – uma comunidade de pessoas tão obcecadas em ser felizes que se esquecem de viver a vida. Um mundo em que a reação aos conflitos constantes do passado virou de forma tão extrema no outro sentido, que qualquer expressão de pensamento livre incorre no pagamento de uma multa. Este filme é divertido, excitante e bem mais inteligente do que poderíamos esperar à partida. Fora da saga “Rocky”, é um dos filmes do currículo de Stallone que mais merece uma dose redobrada de atenção. Por mais inesperado que isso possa parecer.

 

KILL: “Pára ou a Mamã Dispara” (1992)

É quase desconcertante o quão estúpido este filme. Mas esse nem seria o problema maior. Algum grau de idiotice é o que todos apreciamos num bom filme de ação de Stallone. O problema aqui é que o filme não é apenas idiótico mas intensamente aborrecido. E, para uma comédia, não me lembro de me ter rido em sequer uma cena deste desastre. Dá para perceber o que os génios do estúdio estavam a pensar quando construíram esta atrocidade num laboratório – vamos colocar a velhota das “Golden Girls” ao lado do homem mais musculado em Hollywood e o puro contraste será suficiente para fazer o público rebolar no chão de tanto rir. Não é. Não podia estar mais longe de ser. Não chega aos níveis de insuportável de “Rocky V” – que é, pura e simplesmente, um dos piores filmes de sempre – mas o facto de estarmos a aplicar um standard tão baixo a esta tentativa de comédia diz tudo sobre a sua qualidade. Desculpem: “qualidade”.

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