Big Little Lies

Argumento contra, argumento a favor

 

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Uma imagem vale por mil palavras, significa que diz tudo e não diz nada. Na mesma linha de pensamento estão as histórias sem uma poderosa ideia motora, dizem tudo e não dizem nada, conduzem ao vazio. Mas narrativas honestas com significado poderoso são um motor de transformação na vida de uma pessoa. Mudam a nossa cultura pela maneira original, surpreendente e significativa como expõem uma determinada verdade da realidade. A ideia aqui é olhar para os argumentos do cinema e das séries sob essa perspectiva. Argumentar contra e argumentar a favor. Nós existimos, logo argumentamos.

Argumento muito a favor

Uma grande festa, organizada pela escola pública de Monterey, acaba marcada pela morte terrível de um dos participantes. Não sabemos quem, nem como, morreu. Este evento e as questões que levanta, apanham-nos no primeiro minuto do primeiro episódio e não nos largarão mais até ao último minuto do último episódio.

A curiosidade dispara em dois sentidos, para o passado e para o futuro. Quem morreu? Quem são estas pessoas? O que é que estavam todos a fazer mascarados de Elvis e Audrey Hepburns? Será que foi um acidente estúpido? Um crime? Quem são as verdadeiras vítimas? Como é que tudo aconteceu e vai acabar? Eu senti-me agarrado desde o primeiro segundo, cativado e envolvido em cada episódio, e com o final magistral senti-me bem premiado e com vontade de rever tudo do princípio.

Em Big Little Lies, as histórias das protagonistas Martha Mackenzie, Celeste Wright e Jane Chapman (Reese Witherspoon, Nicole Kidman e Shailene Woodley, brilhantes nos seus papéis), cruzam-se, desenvolvem-se ao longo de sete episódios, e tudo culmina num poderoso climax. Depois da tragédia obscura do início, voltamos atrás uns meses, e entramos na vida destas personagens no primeiro dia do regresso às aulas. Estamos numa sociedade que ostenta demasiada perfeição e cheia de particularidades. Para começar, todos os pais querem pôr os filhos nesta escola pública, sejam ricos ou só meio ricos. Jane e o seu filho Ziggy (Iain Armitage) de cinco anos acabaram de chegar a Monterey, não encaixam bem no perfil, mas conhecem Martha e rapidamente se vão tornar melhores amigas. Mas, para começar logo bem, Ziggy, à porta da escola e em frente a toda a comunidade, é acusado de ter agredido uma das suas novas coleguinhas.

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A partir daqui, vão sendo revelados segredos obscenos e eventos passados terríveis, numa mistura brilhante de drama, ironia e humor. A história desenrola-se a partir dos dramas dos protagonistas, de vidas familiares disfuncionais, de uma comunidade cheia de interesses pessoais mascarados de pudores, e sobretudo a partir da ingenuidade, alegria e talento natural para ironizar das crianças, protagonistas excepcionais nesta história (talvez o melhor casting de tantas crianças já feito) não é acaso o genérico dar-lhes tanto destaque.

Mas o genial é que o argumento não se limita a apresentar o ponto de vista dos protagonistas principais. Em vez disso, conta-nos a história saltando de situação para situação, de pessoa para pessoa, colocando o espectador num lugar de omnipresença, tipo Deus que sabe tudo. Só que, apesar de sabermos sempre mais do que qualquer das personagens, cada uma delas sabe alguma coisa que nós não sabemos, vamos descobrindo. Deuses, meio ceguetas – tal como no romance que a série adapta.

Livres de ficarem presos ao ponto de vista dos protagonistas, a equipa de editing pode fazer-nos saltar das questões de cada personagem, para os esquemas dos vários antagonistas, para os comentários escarninhos das personagens secundárias, para as frustrações dos detectives, para clichés da vida familiar americana, e para postais do mar da califórnia.

Na verdade, vemos mais cenas de ondas a rebentar do que numa transmissão do WCT. Porque o mar tem um papel principal na história. Ora nos fala de um estado de espírito, ora é metáfora das forças positivas ou negativas que movem alguém, ora retrata com uma intensidade, que nenhuma personagem poderia conseguir, a ideia central da história.

Uma vida perfeita, é uma perfeita mentira. Esta é a verdade universal retratada, e de forma elegante, poética, e brutal, a narrativa vai expondo como escondidas debaixo da superfíce da máscara se movem as forças tumoltuosas e misteriosas que constituem e definem todo o ser humano, como um oceano profundo. Vidas perfeitas são sempre feitas de pequenas grandes mentiras.

Nada disto surge de modo literal. São os eventos e interacções que expõem as máscaras de cada personagem, mostrando do que são feitas, na vida social, familiar e pessoal, e em contraponto vamos vendo também o que é verdadeiramente aquela pessoa. Isto é feito de uma forma vívida mas realista, poética e por vezes brutal, que até constrange. Como diz uma das protagonistas a certa altura, “(eu sei que) alimento o meu amor próprio com a imagem de perfeição que os outros têm de mim”, mesmo assim, correndo perigo de vida, não consegue deixar cair a máscara.

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Ao longo da temporada, vamos fazendo uma lista mental das personagens que gostaríamos de ver mortas. Porque esta gente é cínica, mesquinha, violenta e vingativa. Mas, tal como na vida real, aqui todos têm várias dimensões, a mesma pessoa pode ser violenta e doce, cruel e amorosa, mentirosa e verdadeira, capaz de amar e capaz de matar. O nosso juízo de valor está sempre a ser testado, somos muitas vezes apanhados em falso, tal como as personagens são testadas até ao limite nos seus valores, e obrigadas a crescer por via dos desafios e dilemas que lhes acontecem. No fim, todos crescemos.

Voltando ao editing, primeiro serve de contraponto entre o marasmo emocional e a ansiedade que perseguem cada um dos protagonistas, e sem estes cortes e saltos a série tornar-se-ia estática e aborrecida. Segundo, estes saltos de uma situação para outra são uma bela táctica de retardamento, que intensifica a tensão, os inserts mantêm o olhar ocupado, enquanto o crosscutting de umas cenas para as outras mantém a narrativa no ar, adiando as respostas àquelas questões que dispararam a curiosidade desde o início.

Há uma ironia dramática sempre presente, que cria suspense do princípio ao fim. Reforçada pelos rápidos inserts das testemunhas durante a investigação policial, o que é uma solução inovadora para nos dar uma antevisão do futuro, só que nunca é completa, e isso acentua o humor.

Tudo foi pensado para estar ao serviço do conceito da história. Até a banda sonora maravilhosa foi cuidadosamente escolhida. Cada canção acrescenta a cada cena não apenas emoção, mas também significado.

O cenário do climax final é de uma tremenda genialidade. Toda a cena está feita de modo a acentuar a polaridade das forças positivas e negativas que nos acompanharam ao longo de toda a história. O feminino versus o masculino, a agressão versus as vítimas, e isto é feito de uma forma que nos dá em simultâneo romantismo e perigo, seriedade e humor, elegância e brutalidade.

Fiquei tão fascinado por estas personagens, e pelos actores soberbos que as representaram, que não queria separar-me delas. Uma segunda temporada talvez se revelasse uma desilusão, não sei, hoje em dia há muita gente muito criativa a escrever séries. Na falta disso vou rever esta pela quarta vez.

 

Título Original: Big Little Lies (EUA – 2017)
Criador: David E. Kelley
Argumento: David E. Kelley, Liane Moriarty
Protagonistas: Reese Witherspoon, Nicole Kidman, Shailene Woodley

 

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