Ehpá ganhem tomates mazé!

Os Chavelhos do Batman

 

Não servem para nada mas se não existissem faziam falta, não faziam? É um bocado como certos filmes que querem ser bons mas que são só parvos. Peças tão curiosas que merecem ser alvo de uma crítica por vezes corrosiva, outras sarcástica e ainda outras tão medíocre como as próprias fitas que as inspiraram.

Esta rubrica é uma lotaria. Mas ao menos ninguém paga bilhete.

 

OKJA (2017)

de Joon-ho Bong

Bom, antes de mais nada, convém avisar muitíssimo energicamente: caguinchas, pussys e patusquinhos, com aquela sensibilidade piegas e bacoca que não raras vezes se traduz em postagem de fotos de lírios no Facebook com citações do Chagas Freitas… Ehpá o melhor é porem-se a andar porque não há aqui nada para vocês.

No entanto, e porque ao contrário do que muitos dizem, estou longe de ser o equivalente a uma bigorna humana, admito que também eu me deixei envolver pelo magnífico trailer desta bodega de filme. Qual criança crédula e inocente, que por segundos quis acreditar que ainda podem surgir histórias verdadeiramente inovadoras sobre temas tão batidos como o amor ou a amizade, não demorei muito até meter isto a bombar no Netflix. E claro que deu merda…

Okja aborda, numa primeira instância, a ligação emocional inabalável entre Mija (uma menina sul-coreana interpretada por Seo-Hyun Ahn) e, lá está, Okja (um porco geneticamente alterado que eles dizem que é porco mas que a mim mais parece um hipopótamo com orelhas de abano). Esta relação profunda entre um ser humano e um animal não é inédita entre nós portugueses, nomeadamente para certos pastores e suas ovelhas, mas talvez no oriente não seja tão comum.

Ah! Antes de avançarmos por aí fora, convém ainda referir em minha defesa que também o nome do realizador me deixou profundamente interessado. É que Joon-ho Bong dirigiu, em 2006, um monster movie bastante original e bem feito para a altura: The Host. Fui vê-lo ao cinema e nunca mais me esqueci, sempre curioso do que o homem poderia vir a fazer no futuro. Hoje em dia, a avaliar pela fita que vamos passar a rever, das duas uma: ou se tornou num choninhas desinspirado ou numa rameira da geração do cinema digital… Venha o diabo e escolha mas, dúvidas existenciais à parte, a verdade é que contou com um elenco de luxo nesta bufonaria pegada.

 

Vá la ver…

Okja começa com a Tilda Swinton de aparelho nos dentes e vestidinho da Bershka a discursar numa fábrica. Ela é a herdeira de um impressionante império financeiro e presidente de uma multinacional do sector alimentar chamada Mirando (não confundir com Monsanto… wink wink) que faz gala em apresentar-se como um negócio ecológico e sustentável mas que falha redondamente em ocultar com eficácia os seus propósitos velhacos. Lucy Mirando, a personagem de Swinton, saltarica de um lado para o outro enquanto anuncia a solução para a fome no mundo: a criação de super-porcos.

Por alguma razão que me escapa, este vómito insano de palavras absurdas levanta cerca de zero questões! Entretanto, também ficamos a conhecer o bem engendrado plano inerente a esta ideia de génio que é distribuir uma ninhada de super-leitões por camponeses de vários pontos do planeta para, ao fim de dez anos, eleger o melhor suíno e fazer uma festarola nos Estados Unidos para regojizo da malta. Porquê? Não percebi bem… Mas a Tilda Swinton estava contente e toda a gente ficou convencida, portanto siga!

Passamos depois para a Coreia do Sul e para Mija, a neta de um dos criadores seleccionados pelo apertado escrutínio da Mirando. A miúda viveu os últimos anos em perigo de morte constante, brincando por entre penhascos e falésias com a sua amiga “aberração da natureza” e atirando-lhe diospiros para ela apanhar com os dentes. O avô é meio tantã, correspondendo ao esterótipo racista do chinoca desastrado, mas tal também pode dever-se ao pouco oxigénio que existe no topo da montanha onde parvamente escolheu construir a sua quinta.

Quando tudo parece porreiro, eis que chega uma delegação oficial para avaliar a porca (refiro-me a Okja e não à pobre criança) e rapidamente desejamos que tal nunca tivesse acontecido… Jake Gyllenhaall, um actor que já mostrou a sua inegável qualidade em filmes como Donnie Darko, Brokeback Mountain, Jarhead ou Zodiac, tem aqui uma prestação tão desenquadrada, tão histérica e tão espalhafatosa que apetece pregar-lhe com plumas na nuca e recambiá-lo para um show do La Féria. O que é aquilo, meu Deus?!

A sua personagem, Johnny Wilcox, é um “especialista” em animais superstar que consegue ser, ao mesmo tempo, tão irritante como um eczema no escroto e tão doloroso como um biqueiro bem aviado na cremalheira. Cada segundo que o vemos no ecrã é tempo aplicado em inventar novas e criativas maneiras de acabarmos com a própria vida. Mas logo a seguir ele desaparece e ficamos a convencer-nos que tudo não passou de um infeliz e intenso pesadelo febril…

Enfim, os tipos ficam doidos com a bicha e decidem que é ela a vencedora do concurso e que têm de fazê-la regressar o quanto antes. A miúda coreana é óbvio que não está pelos ajustes quanto a ver-se livre da mascote e quase arranca uma orelha ao avô à dentada quando percebe que o pirulas do velho nada fez para contrariar a pérfida multinacional. Isso e gastou a reforma toda num boneco de ouro para ela arranjar marido aos doze anos. Portanto, até aqui, tudo a correr bem.

Posto isto, Mija toma a decisão mais sensata: vai à cidade sozinha e entra no quartel-general da empresa à base de marrada e rebentamento de vidros. Depois, fica para lá a correr como uma lunática, fintando a apertadíssima segurança local, na esperança de dar de caras com a melhor amiga. Quando a macacada vai no auge, junta-se uma maralha de terroristas amantes de animais à festa (no qual, uma vez mais, não se incluem os referidos pastores) cujos membros são tão bonzinhos que andam sempre a pedir desculpa por um calduço ou um tabefe que tenham de aplicar para cumprirem as suas missões.

Esta “tropa de elite”, liderada por Paul Dano (que podia ganhar óscares se escolhesse melhor os papéis), conta com um tipo que anda sempre a ter quebras de tensão porque insiste em só comer aipo, um outro de cabelo comprido, uma gaja qualquer e Steven Yeun, que parece não ter ainda a cabeça no lugar depois de… Bem, vocês sabem.

Estes fofos têm um plano para desmascarar a Mirando e, para isso, precisam de implantar uma câmara na orelha da aventesma de modo a conseguirem imagens mesmo MESMO chocantes dos meandros desta indústria. Mais coisa menos coisa, lá conseguem levar a deles avante e tudo segue de acordo com o planeado.

No dia da festança e da consagração de Okja perante toda a América, esperta que nem um alho, a Tilda Swinton mete a coreana no palco para ganhar simpatia junto do público. A super-porca não liga nenhuma à miúda, o Gyllenhall anda para lá aos saltos feito pinto alegrete e, perante isto, os terroristas decidem que não há melhor altura para voltar a atacar. Assim, através de um ecrã gigante, exibem as imagens captadas via orelha de porco e que ninguém imaginaria que um dia iria ver.

 

Então não é que…

Os bichos que eles disseram no início que iriam reproduzir para serem mortos e esquartejados em série, como todos os outros, de modo a alimentar gente por todo o mundo… eram afinal… BICHOS QUE VÃO REPRODUZIR PARA SEREM MORTOS E ESQUARTEJADOS EM SÉRIE, COMO TODOS OS OUTROS, DE MODO A ALIMENTAR GENTE POR TODO O MUNDO?!!!

OH!!!

JÁ VIRAM BEM ISTO?!

 

 

Enfim…

Depois de tão arrepiante revelação, como tantas vezes acontece em países desenvolvidos, entra ao serviço um bando de guerrilheiros a aviar banano nos terroristas e a impor a ordem entre os populares, que ficaram loucos de raiva. Polícia, nem vê-la. Os tropas prendem os gajos todos menos Dano, Yeun e a miúda que (convenientemente) seguem directos para o matadouro para impedir que Okja seja morta e transformada em chouriça. Ah! Enquanto isso, a Tilda Swinton aborrece-se e muda de personagem. Há uma irmã gémea que aparece sem razão aparente, toma o comando das operações e decreta que a bicharada é toda para converter em carne picada e o resto é conversa.

O matadouro tem o mesmo aspecto decrépito, horrendo e desumano que têm todos… O que não tem é qualquer tipo de guarda ou vedações, estando de portas abertas para quem quiser dar um passeio, fazer uma visita ou mesmo um piquenique em família. Os “três estarolas” entram por ali dentro e ficam estarrecidos quando percebem que aquele é o sítio onde se extermina cruelmente os animais que fornecem a carne que as pessoas depois vão comer. Isto há surpresas e socos no estômago que uma pessoa pura e simplesmente não está preparada. Mas pronto, neste ponto também já ninguém deixa de ver o fim do filme…

A conclusão é muito simples: aproveitando o facto da segunda irmã Swinton ser um estereótipo de milionário que só vê dinheiro à frente (um contra-senso, dado que eliminar a super-vara toda à bruta não seria tão rentável como continuar com o negócio como estava pensado), Mija troca o boneco de ouro que o avô lhe deu pela vida da criatura e apanham nessa mesma noite um charter de volta para Seul. No caminho, ainda conseguem levar um leitãozinho daqueles às escondidas (não percebi porquê) e deixam os restantes milhares no “tapete rolante do inferno” a caminho da guilhotina. Boa viagem para a morte, palonços!

 

Bom…

O que é que podemos tirar daqui?

Que a indústria da carne é má? Big fucking news!

Que empresas pouco recomendáveis como a Monsanto são… pouco recomendáveis? Ok, obrigadinho!

Que uma criança e um monstro em CGI um bocado para o fake podem ter uma amizade pura, verdadeira e até fofuchinha? Ehpá ganhem tomates mazé!

Isso já foi feito com o ET, com o Life of Pi e até com a merda do Free Willy… É que, entretanto, a fasquia subiu um bocado e era bom haver pelo menos algo que se assemelhasse a um discurso ou uma intenção numa história que me parece robótica e irrelevante do princípio ao fim. Eu sei que está na selecção oficial do Festival de Cannes e que eu é que não percebo nada disto mas…

Para mim não é mais do que encher chouriços.

E nem as palhaçadas estrambólicas do Gyllenhaall me convencem do contrário!

 

OINC!!!

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