Um pequeno grande estudo sobre tensão.

 

Título original: Dunkirk (UK, EUA, FRA, NED – 2017)
Realizador: Christopher Nolan
Argumento: Christopher Nolan
Protagonistas: Fionn Whitehead, Mark Rylance, Tom Hardy

Este é um filme com poucos, muito poucos diálogos. Não sabemos quase nada sobre as personagens à entrada para o filme e não saímos a saber assim tão mais. No que à criação de um passado partilhado diz respeito, este é um filme com quase nenhum interesse em seguir as convenções de um filme de guerra tradicional. E, no entanto, é já um dos melhores filmes do ano e um dos principais “pré-candidatos” aos Óscares na cerimónia de 2018.

Como se pode explicar isso? Execução. Nas mãos de Christopher Nolan, este tríptico entrelaçado sobre um evento menos conhecido da Segunda Guerra Mundial torna-se um verdadeiro tratado sobre a criação e manutenção de tensão. Na lógica normal de um filme deste género, temos sequências de ação, seguidas de momentos de recuperação – num loop perfeitamente calibrado até chegarmos ao fim do filme. Em “Dunkirk”, não é isso que temos.

Aqui, a tensão nunca pára. Está sempre lá, sempre à volta. Estejam os protagonistas a andar em silêncio numa praia ou desesperadamente à procura de um sítio para se esconderem, a tensão está sempre presente, a espreitar à esquina. A luta dos homens que foram encurralados em “Dunkirk” não foi uma história de heroísmo estoico mas antes de pura sobrevivência.

Nolan constrói esta mola de tensão – sempre prestes a rebentar – dividindo-a em três partes: a luta pela sobrevivência dos soldados encurralados pelos nazis na praia; o esforço por parte de civis para levar barcos privados a Dunkirk para ajudar as forças navais militares; e a batalha nos ares entre as forças britânicas e os aviões nazis que persistem em largar bombas sobre as forças aliadas. O modo como vamos saltando entre estas três narrativas (desfasadas temporalmente, ao bom estilo de Nolan) é uma das ferramentas-chave na criação deste ambiente de constante apreensão.

Tecnicamente, como seria de esperar, o filme é absolutamente irrepreensível. A cinematografia é do que melhor que vemos em Hollywood (especialmente nas cenas de batalha nos ares) e a montagem é absolutamente crucial para o facto deste filme peculiar, em última instância, resultar. Mas a grande “estrela” aqui é o som. O modo como a música de Hans Zimmer se funde com os sons captados da batalha e os efeitos sonoros destinados a aumentar a tensão, é absolutamente magistral. Especialmente gravado na memória de quem sai da sala após este filme é o tique-toque de um relógio a tocar de forma omnipresente, lembrando-nos a cada segundo que este pode ser o último.

Tradicionalmente, os melhores filmes de guerra não são sobre os eventos em si, mas antes sobre as viagens pessoais das personagens que os habitaram. Os seus sonhos, as suas memórias e o modo como o horror da guerra infeta ambos. “Dunkirk” não tem qualquer interesse nisso. É um filme com um propósito muito simples (ainda que de difícil execução). Nas palavras do próprio Christopher Nolan, “a questão não é quem eles são, quem eles dizem ser ou de onde eles vieram. As únicas questões em que eu estava interessado eram: vão conseguir escapar? Vão ser mortos pela próxima bomba? Vão ser esmagados por um barco a chegar?”.

É uma visão fria sobre a guerra, talvez, mas não deixa de ser curioso que já tenham surgido relatos de como este é um dos filmes mais realistas sobre o comportamento real dos soldados na guerra. Existem certos momentos de descompressão em que soldados podem partilhar as suas histórias, mas não quando estão a lutar pela vida. Nessas alturas, os soldados não se sentem mais que carne para canhão. Terão tempo para contar histórias se conseguirem sobreviver.

 

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