Yippie-Ki-Yay MotherFucker

 

Marcelo Lourenço é publicitário e acha que o cinema comercial é um celeiro de obras-primas. Esta coluna, inspirada na mítica frase do John McClane, é sobre isso.

PS: Não sabes quem é o John McClane? Então, vai-te embora daqui.

Depois de assistir “A Múmia” e “Homem-Aranha: Regresso a Casa” na mesma semana sinto-me na obrigação de perguntar – como é que conseguem errar tanto em “A Múmia” e acertar tanto em “Homem-Aranha”?

Para mim a resposta não está em Hollywood mas em Cannes. Ou melhor: no Festival de Publicidade de Cannes, onde, este ano, David Droga, um dos publicitários mais famosos do planeta, recebeu o Leão de São Marcos, o prémio de carreira da categoria. Ao aceitar o prémio, Droga fez um discurso de arrepiar que acabava com um conselho aos seus filhos adolescentes que, segundo ele, eram as únicas pessoas a assistir a cerimônia que ainda não tinham decidido o que queriam fazer da vida.

E o conselho era simples assim – “escolham como profissão fazer algo com o qual vocês se importem”.

Pois, esta é a diferença entra “Homem-Aranha” e “A Múmia”.

A malta que fez o novo filme do Aranha se importa.

A malta que fez “A Múmia”, não.

O pior é que os dois filmes partiram do mesmo princípio: vamos ganhar muito dinheiro. Nada de errado em ganhar muito dinheiro, muito menos em fazer um filme para ganhar muito dinheiro. Mas nesta coisa absurda e maravilhosa chamada arte comercial, em geral ganhar dinheiro é uma consequência e não um fim.

George Lucas não criou Star Wars para ganhar dinheiro.

J.K. Rowling não escreveu Harry Potter para ganhar dinheiro.

Criaram o que criaram porque se importavam com o que estavam a fazer – com o personagem, com a história e, principalmente, com o seu público.

Não é o caso de “A Múmia”: numa sala de reunião cheia de executivos com folhas de excel e resultados de pesquisas, relançar os filmes de monstros da Universal pode ter parecido uma boa ideia. “E juntamos todos a la Vingadores com o Doutor Jekyll a fazer de líder do grupo?”. Todos aplaudem quando alguém completa: e ainda convocamos o Tom Cruise para o papel principal. “Somos todos génios, não há como isso dar errado.” “O Tom Cruise? Sério?” pergunta o estagiário na sala. Claro que sim, respondem todos, afinal ele é o Tom Cruise – e despedem o estagiário.

O resultado é um filme cansado, que usa os clichés como quem tira uma pizza do micro-ondas. É visível que nada ali faz muito sentido e pior – ninguém está muito preocupado com isso. Vão levando a coisa com um misto de desinteresse e hipocrisia. Até a campanha de divulgação de “A Múmia” é cínica – se vangloriam de ter uma vilã – “vejam, estamos a valorizar as mulheres” – enquanto o par romântico é formado pelo mesmo galã cinquentão e uma loiraça vinte anos mais nova. Se ainda não desistiu de ver o filme, vá por mim: não perca o seu tempo.

Pois, pois, mas um Tobey Maguire e um Andrew Garfield depois quem é que precisa de outro “Homem-Aranha”, perguntam os meus dois leitores.

Verdade. Mas aí vem a Marvel e nos faz lembrar que Stan Lee criou o Homem-Aranha a partir de uma conclusão óbvia: se os leitores da banda desenhada são adolescentes, porque não criar um personagem que também seja adolescente (uma revolução na altura quando todos os super-heróis tinham eternos 30 anos).

E se o personagem é adolescente porque não escalar um ator adolescente para o papel? E já agora um ator adolescente sensacional como Tom Holland?

Parece um detalhe mas isso explica todo o tom do filme, uma leveza carregada de drama que fazem parte da vida de todo adolescente e – principalmente – do universo do Homem-Aranha. Sim, mudaram muitas coisas do personagem principal – agora patrocinado pelo Homem de Ferro (Robert Downey Júnior, cada vez melhor), um novo uniforme cheio de gadgets, a Tia May que agora é a maravilhosa MILF (posso escrever MILF no seu site, André Simões e Pedro Quedas? * ) Marisa Tomei. E a Mary Jane é negra (a sensacional Zendaya). E o Flash Tompson é latino (ou seria indiano?). E zilhões de pequenas outras blasfémias que irritam os chatos que gostam de reclamar.

Mas quem gosta de reclamar não merece “O Homem Aranha” e sim, uma sessão dupla de “A Múmia”.

Mais do que divertido, inventivo e absurdamente redondo, “O Homem-Aranha” é um filme feito com carinho de pai e mãe, com a vontade e a pretensão de reinventar um personagem para as novas gerações sem deixar de ser absolutamente fiel ao seu legado. Basta ficar sentado no cinema à espera da já tradicional cena pós créditos dos filmes da Marvel que não só é divertidíssima – faz com que todas as outras cenas pós-crédito do Universo Marvel fiquem imediatamente datadas.

Resumindo: é coisa de quem tem brio no que faz.

Uma vez perguntaram ao grande Charlton Heston (o primeiro e único Ben-Hur do cinema) qual era o problema de Hollywood. E ele deu a resposta definitiva: “O problema do cinema enquanto negócio é que é uma arte”.

“E o problema do cinema enquanto arte é que é um negócio”.

Arte e negócio. “O Homem-Aranha” tem os dois e é um sucesso.

“A Múmia” não tem nada e é um merecido e redundante fracasso.

 

 

Yippe-Ki-yay, motherfucker!

 

* NR: Ok. Desta vez passa.

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