Valerian e a Cidade dos Mil Planetas

Uma viagem através do tempo e espaço trazida a nós por Luc Besson, promete bastante ação e diversão, mas pouco mais.

 

Título original: Valerian and the City of a Thousand Planets (FRA – 2017)
Realizador: Luc Besson
Argumento: Luc Besson, Jean-Claude Mézières e Pierre Christin
Protagonistas: Dane DeHaan, Cara Delevingne, Clive Owen

O Valerian chamou a minha atenção desde que entrou em cartaz, primeiramente por ser um filme de ficção científica, sem dúvida um dos meus géneros favoritos, e depois por ser dirigido por Luc Besson, que assina alguns dos meus filmes favoritos de todos os tempos, como Joan D’Arc e Leon. Ainda assim, a obra é baseada numa banda desenhada francesa que começou em 1967, e a qual eu nunca tive a oportunidade de ler. Então vale a pena começar esta crítica avisando os possíveis leitores de que o meu ponto de vista é aquele de alguém que apenas assistiu ao filme, sem conhecimento prévio das bandas desenhadas, e portanto não é uma análise sobre quão bem ou mal adaptada foi a história para outro media.

Sendo assim, começo por dizer que quando o filme começou, ao som de David Bowie e com uma linda sequência de introdução, as minhas expectativas para o filme nunca estiveram tão altas. E de facto, visualmente, o filme nunca desaponta. Com uma estética coerente e dotada de um charme muito particular, Valerian (Dane DeHaan) faz uso pleno dos efeitos especiais e cenas de ação vertiginosas para não apenas nos fascinar e causar emoção, mas para contar a história desse novo universo fantástico através de relances e imagens que passam rapidamente pelo nosso campo de visão. E mesmo em relances conseguimos compreender a escala colossal da Estação Espacial Alpha, a cidade dos mil planetas do título, e a grande variedade de ambientes e centenas de espécies que fizeram dela o seu lar.

Valerian não pretende ser um filme de ficção realista e verosímil, e não tem medo de usar a fantasia e o exagero. Mais uma space opera como os Star Wars do que um Star Trek, a história começa com os dois personagens titulares das bandas desenhadas, Valerian e Laureline (Cara Delevingne), agentes federais encarregados da proteção de Alpha. E somos então introduzidos à sua complicada relação quase romântica. Complicada demais, até. Fica difícil perceber exatamente qual é a natureza da relação deles e, no começo do filme, sem esse ponto de partida bem estabelecido, o enredo romântico que se segue parece fazer pouco sentido ou ter pouco significado.

E esse não é o único momento em que o desenvolvimento das personagens parece ser apressado para não ficar no caminho da história. Em vários pontos, senti que já deveria saber algo sobre os personagens na tela que desse um significado mais profundo aos diálogos, mas que apenas com as pistas dadas até então, era impossível inferir exatamente o quê. As dinâmicas entre os vários personagens secundários parecem ter sido bem estabelecidas em algum momento fora da tela. E, sem pistas suficientes para decifrá-las, o espetador que não conhece Valerian de outro lado, pode ficar desorientado a tentar perceber as subtilezas por trás delas.

As cenas de ação e o enredo do filme não são exatamente inovadores, mas também não deixam a desejar. A narrativa flui sem problemas em volta dos dois agentes tentando chegar ao centro da ‘zona morta’, uma área onde as comunicações falham e onde unidades militares desapareceram, no centro da estação Alpha. E enquanto os combates e perseguições são muito divertidos de se assistir, durante todo o filme existe um certo sexismo antiquado que marca as dinâmicas entre Laureline e Valerian.

Laureline, apesar de ser uma agente federal altamente competente, parece ser incapaz de tomar conta de si mesma e sobreviver sem Valerian, e em vários pontos e diálogos esse sexismo aparece. Nunca declarado ou abertamente tratado como tal, e sempre na linha entre o subtil e não tão subtil. Resolvi dar um certo desconto quanto a isso, considerando que as primeiras bandas desenhadas datam do final dos anos 60. Mas vale apontar que, quando adaptamos obras antigas para o cinema, rever certos conceitos pode ser uma boa ideia. Em nenhum momento o filme chega a ser ofensivo, vale a pena ressalvar, é somente desconfortável para alguém mais acostumado a um olhar contemporâneo a heroínas. Não há nenhum problema com a ocasional mulher indefesa, mas parece-me que faz pouco sentido que esse papel seja dado a uma personagem estabelecida como agente federal de alta patente.

Outro problema é uma certa incoerência do Valerian em diferentes momentos, que tanto desobedece a ordens dos seus superiores como as considera obrigatórias de cumprir, ainda que injustas. Sem um amplo contexto para definir o seu caráter, essas duas leituras puxam em direções opostas e deixaram-me no mínimo incerto sobre quem é o protagonista.

Valerian é um bom filme, e sem dúvida vale o investimento de tempo e dinheiro para ser visto em 3D para aqueles que apreciam os efeitos especiais. Mas o filme fica um pouco aquém de ter sido algo mais, pela simplicidade da narrativa e pela dificuldade em realmente estabelecer quem são os seus personagens.

Sinto que, enquanto os visuais estão perfeitos, faltou polir as arestas em desenvolver os seus protagonistas e personagens secundários, e adaptar algumas ideias para uma audiência mais moderna. Além disso, o filme falha em ter um conflito central ou um grande apelo às emoções. A narrativa flui naturalmente, mas também sem grandes surpresas e suspenses, e falta-lhe um momento divisor de águas.

Talvez se esses detalhes tivessem sido melhor trabalhados, Valerian pudesse ser o início de uma saga de ficção científica de dois ou três filmes, mas, na sua ausência, ficamos com um filme divertido mas pouco memorável.

 

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