A temporada de todas as controvérsias.

 

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Começaram por ser alguns fiéis leitores dos livros. Esses primeiros pioneiros convenceram outros a juntar-se ao “culto” e, ao fim de alguns anos, a legião de seguidores das palavras de George RR Martin atingiu uma dimensão tal que atraiu a atenção dos grandes estúdios. A HBO pegou nesta história de dimensões titânicas e, passo a passo, episódio a episódio, traição a traição, tornou-a um fenómeno de massas quase sem precedentes.

E agora aqui estamos, todos convertidos à “Faith of the Seven”. Discípulos inquebráveis dos sete reinos de Westeros. Ao som da fantástica música “Light of the Seven”, de Ramin Djawadi, que deu o mote ao incrível episódio final da sexta temporada de “Game of Thrones”, bebemos sofregamente do cálice da sua sétima iteração. Para comemorar a ocasião, ofereço sete singelas reflexões sobre o que acabámos de ver:

 

 

Teletransportar ou não teletransportar? Eis a questão.

Vamos começar por “despachar” um dos grandes pontos de controvérsia desta temporada: o modo como as viagens em Westeros entraram em modo supersónico. Sim, é estranho por vezes de ver. O que antes eram travessias que demoravam episódios inteiros, agora são concretizadas de uma cena para a outra. E eu compreendo que possa ser “divertido” fazer cálculos desnecessariamente complexos sobre como pouco disto faz sentido. Ao que eu digo… e depois? Pensar na velocidade a que as personagens viajam enquanto dragões aniquilam exércitos inteiros e um exército de mortos-vivos invade o mundo dos mortais parece-me fazer tanto sentido como ver o “Regresso ao Futuro” e não falar de mais nada que paradoxos temporais. Chegámos à parte final desta longa e magnífica história. O tempo de longas e secretas ponderações sobre jogos de poder já passou – chegou a altura de agir. Nós sabemos isso, a série sabe isso, todos sabemos isso. Let’s fucking go. Mas sim, também achei um bocado conveniente como o Gendry se tornou de repente o Imparável Usain Bolt das Neves. Raios, lá estou eu a ser um nerd chato também…

 

Adeus, Littlefinger. Olá, família mais creepy de Westeros.

Com tanta conversa sobre príncipes prometidos, profecias ominosas e dragões demolidores, por vezes tendemos a esquecer como tanto de “Game of Thrones” foi desencadeado pelas ações individuais de certos elementos desta história. Um dos grandes exemplos do poder incomparável de um homem com um plano é Littlefinger. Foi a traição de Peter Baelish a Ned Stark que desencadeou todos os principais eventos que têm dominado a trama central desta história. E agora o antigo Lord of the Vale está a apodrecer numa poça do seu próprio sangue. Enganado por um trio de adolescentes que sempre acreditou ter na palma da sua mão. Muito foi dito e escrito sobre como Arya Stark estava a agir contra a sua própria natureza ao longo desta temporada, mas não me parece ser um salto assim tão grande ler esses comportamentos como os atos de alguém que assumiu estar sempre a ser vigiada pelo maquiavélico Littlefinger, que morreu a chorar e a suplicar pela própria vida – um cobarde, como sempre foi. E agora temos uma Sansa cada vez mais confortável no poder, uma Arya cada vez mais letal, e um Bran… simultaneamente mais poderoso e mais essencial para os planos da Casa Stark. Ainda que, vá, um pouco estranho e difícil de lidar.

 

O amor que foi prometido.

Outros dois grandes momentos que eram antecipados há muito tempo pelos fãs e foram finalmente entregues pelos criadores da série estão relacionados com as mesmas duas personagens. As mais importantes, na verdade. Jon Snow e Daenerys Targaryen assumiram o seu amor (numa cena que lançou mil memes sobre um certo rabo), numa decisão que poderá trazer toda uma nova série de problemas. Tanto junto de Tyrion (bizarramente desagradado com a situação – o que se passa com isso?) como, acima de tudo, junto dos Starks, que poderão não adorar toda a ideia de “ajoelhar perante a rainha”. Adicionalmente, muito cedo todos saberão que Jon não só é sobrinho da Daenerys como o verdadeiro herdeiro do trono, algo revelado num flashback delicioso do casamento secreto que mudou todo o mundo. Coisa pouca. Se é verdade que a maioria da última temporada será focada, provavelmente, em momentos de batalha, este pequeno grande gigante rastilho de intriga será fundamental para percebermos onde esta história nos irá levar.

 

A Cersei é a Cersei. Certas coisas nunca mudam.

Vamos ser sinceros: todo aquele plano de ir buscar um “wight” para convencer a Cersei a concordar com uma trégua temporária foi incrivelmente estúpido. Não só colocou imensas personagens importantes em perigo desnecessário, como, francamente, não tinha grandes hipóteses de sucesso. Foi, vamos ser sinceros novamente, uma desculpa mal disfarçada para fazer avançar alguns momentos narrativos que dava jeito avançar. Mas, durante os primeiros 30 minutos do último episódio, até parecia estar a resultar. A apresentação de PowerPoint da aliança Stark-Targaryen foi incrivelmente eficaz e as coisas pareciam estar a caminhar na direção certa – mesmo depois de Jon Snow ter mostrado novamente a sua irritantemente nobre incapacidade de mentir. Mas depois Cersei foi Cersei – e é assim que nós gostamos dela. Sempre a pensar em esquemas, sempre a pensar em si mesma e na sua família, com total desprezo para qualquer noção de “bem público”. E agora, finalmente, Jaime Lannister quebrou relações com a irmã e amante. E uma certa profecia poderá estar também a caminho de ser cumprida…

 

Ninguém faz espetáculo como Game of Thrones.

Acima de tudo, é importante voltar a salientar um ponto. À medida que galopamos para a conclusão desta épica saga, chegou o momento de menos conversa e mais ação. E ninguém, na História da televisão alguma vez encenou momentos de grande espetacularidade como “Game of Thrones”. Uma das principais razões para termos séries mais curtas e com maior tempo de separação é porque custa muito dinheiro e demora muito tempo fazer isto bem. E por mais que nos custe, temos de dar graças por esta decisão. Porque é por isso que temos, numa mesma temporada, cenas tão incríveis como o ataque de Daenerys ao exército dos Lannisters, a primeira luta verdadeira contra o Night King e a visão de um dragão transformado a derrubar o muro, que se pensava ser intransponível, com fogo azul. De cada vez que uma destas cenas aconteceu, senti-me novamente como uma criança a ver os seus sonhos materializados perante os seus olhos. Sim, devemos ser críticos. Sim, devemos ter as nossas opiniões. Mas tentemos também ter algum respeito pelo feito enorme que é esta série sequer existir.

 

Esta foi a 1ª parte do último capítulo.

Outra coisa que foi curiosa é que, ao chegarmos ao final desta temporada, muitos pareceram sentir uma espécie de sentimento contraditório. Por um lado, aconteceu muita coisa – e a um ritmo frenético. Por outro, muitas coisas que pensámos que iam ser resolvidas ficaram numa espécie de banho-maria. A Cersei continua viva apesar da irresponsabilidade dos seus atos, o Clegane Bowl continua adiado e o Littlefinger continua a… ah espera, esqueçam esta última parte. O importante a reter é que, quando soubemos que íamos ter mais duas temporadas com menos episódios, devíamos ter tido uma pista sobre o que viria a ser a 7ª temporada – não necessariamente um objeto por si mesmo, mas antes a primeira de duas partes do capítulo final desta saga. Muito do que aconteceu esta temporada foi uma espécie de limpar da casa em preparação para o último embate. Foi uma última oportunidade de criarmos laços emocionais com personagens que, bem sabemos, provavelmente têm os dias contados. Estes últimos sete episódios foram a mais estupidamente épica rampa de lançamento alguma vez vista na televisão.

 

Benioff e Weiss merecem o benefício da dúvida.

Quando a série ultrapassou os livros, houve muitos medos sobre como os criadores da série iriam conseguir guiar esta saga para uma conclusão adequada. Começaram-se a ouvir algumas críticas por parte dos fãs mais “old school” na sexta temporada, mas “Battle of the Bastards” e “Winds of Winter” fizeram um bom trabalho de saciar os desejos das massas. Mas, nesta temporada, as críticas subiram de tom. “A Arya nunca agiria assim!”, “O Tyrion não acerta uma!”, “Porra, mas que sentido é que faz o Jon Snow fazer isto?”. Isto é simplesmente injusto. Durante as primeiras temporadas de “Game of Thrones”, inúmeras decisões absurdas foram tomadas por vários dos protagonistas mas, como se sabia para onde a história estava a caminhar, esses erros eram vistos como características de personalidade. Agora, como não sabemos, é porque os criadores perderam o rumo. Ao que eu digo… respirem fundo. A série ainda não acabou. Esperem para ver no que isto vai dar. Depois de tantos anos de alguma da melhor televisão alguma vez produzida, porque raio estamos tão sedentos para passar um atestado de competência a David Benioff e Dan Weiss? Vamos todos respirar fundo e preparar uma bebida. Até porque falta mais de um ano para a nossa série favorita regressar e isto não vai ser fácil…

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