Uma carta de amor ao clássico de 82

 

Título original: Blade Runner 2049 (EUA, GBR, CAN – 2017)
Realizador: Denis Villeneuve
Argumento: Hampton Fancher, Michael Green
Actores: Harrison Ford, Ryan Gosling, Ana de Armas

Como fã incondicional de Blade Runner (1982), a minha primeira reação ao rumor que iria ser feita uma sequela de um dos filmes mais importantes do cinema moderno, foi muito negativa. Mas porquê?! Porque é que Ridley Scott vai mexer no que (ainda hoje) é perfeito?

Pouco depois veio a confirmação, tanto da produção como da participação de Harrison Ford. Menos mal, pensei eu. Um pouco mais à frente veio o anúncio que Scott não iria conseguir realizar o último Alien e Blade Runner ao mesmo tempo e que tinha entregado o leme a Denis Villeneuve. Nesta fase já não sabia o que pensar. Até tinha gostado de Prisioners e Sicario, mas isto era o Blade Runner. O meu coração de fã assustado só descansou quando saiu da sala de cinema depois de ver Arrival. Ok. Este senhor tem “mãozinhas” para isto. Bora!

Novamente numa sala de cinema, vários meses depois, saí com um sorriso de orelha a orelha com a confirmação que Villeneuve foi a pessoa certa, no lugar certo. Acho pouco provável que os fãs do original saiam da sala desiludidos, desde que vão com a mente aberta para ver um filme que todos nós achavamos que não era necessário.

Blade Runner é uma bela homenagem ao clássico dos anos 80, mas, acima de tudo, um grande filme. Tenho muita curiosidade para saber a opinião de que nunca viu o original e veja este como algo independente.

Em todo o mundo, o realizdor pediu aos críticos que não desvendassem nada da história deste filme, porque quer que todos o vejam sem grande ideia do que se vai passar. Para que todos possam ter a mesma experiência na sala de cinema. Eu vou tentar cumprir com o seu desejo e ainda assim tentar convencer todos a ver este filme numa boa sala de cinema. Este é daqueles que não merece ser visto num pequeno ecrã.

O que sabemos é que estamos na California em 2049, 30 anos depois dos acontecimentos do original Blade Runner. Ryan Gosling é K, que segue as pegadas de Deckard (Harrison Ford) na procura de replicants com o objectivo de os “desactivar”. Sabemos que o futuro distópico que em 1982 era projectado para o (agora a bater à porta) ano de 2019, é em 2049 ainda mais acentuado. E pouco mais devo adiantar.

O que posso dizer é que podia ter sido fácil fazer um filme visualmente espetacular e viver apenas disso. Mas felizmente Blade Runner 2049 é muito mais que um filme de ficção científica à sombra do efeito visual. É um filme que joga com os limites da natureza humana e, acima de tudo, feito de mais perguntas que respostas.

Isto não quer dizer que a parte técnica tenha ficado em segundo plano. Pelo contrário. Não há um único frame em que o brilhante trabalho de Alessandra Querzola (cenários), Dennis Grasser (direcção artística) e acima de tudo Roger Deakins (fotografia) não seja uma obra de arte. Os ambientes criados por Grasser são tão poderosos que ficaria muito surpreendido que não estejam já a cravar o seu nome numa estatueta, a ser entregue lá p’ra março. Há em todo estes campos um claro respeito pelo filme original que nos transportam para os poluídos e radioactivos cenários pós-apocalipticos com grande mestria. Também a banda sonora é uma ode de Benjamin Wallfisch e Hans Zimmer às pautas de Vangelis, que nos acompanham durante as quase três horas de ação em passo lento, que nunca sentimos que se arraste.

A dinâmica Gosling/Ford dentro e fora do ecrã é evidente e deixa-nos a querer voltar a repetir a dose. Indiana Jones 5? (wink, wink, nudge, nudge, say no more). Do resto do cast, destaque para Ana de Armas e, principalmente, Sylvia Hoeks, que tem eventualmente a melhor performance do filme.

Nem todos saberão, principalmente os mais jovens, mas o lançamento de Blade Runner em 1982 esteve longe de ser um sucesso. Só o tempo, e principalmente as duas novas edições de Riddley Scott em 1992 e 2007 (onde finalmente conseguiu retirar algumas imposições da distribuidora), elevaram o filme ao topo das listas da maior parte dos cinéfilos. A verdade é que ainda hoje é actual, apesar de que por esta altura já será seguro dizer que não vamos ter pods voadores daqui a dois anos. O estado pós-apocalíptico e a existência de seres não humanos, não meto a minha mão no fogo.

Como fã entusiasmado com o que vi, e, acima de tudo, aliviado por não assassinar uma das minhas melhores memórias cinematográficas, dou nota máxima, não porque ser igual ou melhor que o original (não é), mas porque é o melhor que vi este ano, ali com o Logan, Dunkirk e Baby Driver nos calcanhares.. Se ela é correcta ou não, só o tempo irá confirmar.

 

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