Liga da Justiça

Melhor separados do que juntos?

 

Título original: Justice League (EUA, GBR, CAN – 2017)
Realizador: Zack Snyder
Argumento: Chris Terrio, Joss Whedon
Protagonistas: Ben Affleck, Henry Cavill, Gal Gadot, Ezra Miller, Jason Momoa

Depois de Batman VS Superman ter sido um bocadinho desapontante, do grande desastre que foi Suicide Squad face ao mega hype criado pelos trailers bastante bem conseguidos, o êxito muito merecido de Mulher-Maravilha trouxe uma nova esperança para as investidas cinematográficas da DC. A competir mais uma vez com o gigante Marvel, Liga da Justiça trazia uma promessa de redenção ou de uma continuidade construtiva, e essa expectativa é sempre boa. Mas se Liga da Justiça soube ou não entregar aquilo que prometeu: as opiniões divergem, entre os que adoram o filme e os que acham que mais uma vez ele ficou muito aquém das expectativas, mostrando que a DC ainda tem muito a aprender.

Ainda a chorar a morte do Super-Homem, ao perder a esperança, a Humanidade abriu as portas a Steppenwolf, um menino da mamã que em tempos governou o planeta e que quer trazer novamente um reinado das trevas, juntando a energia de três caixas-mãe que estavam espalhadas pelo mundo e guardadas religiosamente pelas Amazons (a família de deusas lutadoras de onde vem Diana Prince), pelos Atlanteans e pelos humanos. Esta última foi a que deu vida a Stone (Ciborgue), após um trágico acidente o ter ferido mortalmente. As caixas parecem assim ter quer o poder da destruição, quer o dom da vida. E é com isso em mente que Batman, acompanhado dos seus novos amigos Mulher-Maravilha, Aquaman, Flash e Ciborgue, decide ressuscitar o imbatível Clark Kent para os ajudar a derrotar Steppenwolf. Este vilão, cujas convicções são um bocado vagas e que mais parece saído de um jogo com gráficos assim-assim, acaba por ser uma ameaça pouco consistente para a Terra. Ele queria basicamente espalhar o caos sob a forma de uns cristais coloridos meio manhosos que crescem como flores do mal por todo o lado, porque sim? O regresso do Super-Homem é um ponto a favor, mas a verdade é que falta qualquer coisa para podermos sentir que esta era uma missão necessária, uma viagem que os une no final como uma equipa a sério, contra uma ameaça a sério – desculpa, Steppenwolf.

Apesar do orçamento elaborado do filme, os efeitos especiais têm um aspeto um bocado barato. Mas principalmente o filme parece sofrer de uma falta de direcção e de visão, ainda que Zack Snyder saiba bem captar a atmosfera mais negra a que a DC se mantém fiel, felizmente, em consonância com o universo que criou. Mas talvez essa falta de identidade do filme seja mesmo sintomática de tudo o que aconteceu nos bastidores. Uma breve investigação depois de ter visto o filme deu-me a conhecer que Zack Snyder teve que se ausentar a meio da produção do filme em virtude da filha, Autumn Snyder, se ter suicidado, sendo que Joss Whedon, da adversária Marvel, se juntou para dar continuidade ao projeto. Curiosamente, essa pequena pesquisa levou-me a descobrir que a filha de Snyder estava a escrever uma história de sci-fi na primeira pessoa e isso fez-me pensar se não teria sido uma história espetacular que infelizmente nunca iremos conhecer.

Sobre essa falta de identidade – um pouco como aconteceu com Suicide Squad, que teve várias versões de edição, o fato de o filme ter mudado de mãos não beneficiou em nada a voz que emana dele – pouco audível, a tomar de empréstimo algumas fórmulas que a Marvel já sabe que funcionam, como o comic relief que é a personagem de Flash, por exemplo. Há a química de Batman com a Mulher-Maravilha, que tem algo de cativante, mas Affleck é um Batman tão desinteressante, tão pouco esforçado, um homem já com pouca resistência que apenas se pode fazer valer dos seus gadgets e dos princípios que o movem, mais o muito dinheiro que tem nos bolsos. Por outro lado, talvez essa seja a faceta que se quer explorar aqui e essa pode ser a única redenção para este Batman de Affleck. Gosto da ideia de que cada filme do Batman até hoje explora um lado diferente do super-herói, seja o estatuto social, o charme com as senhoras, o lado mais negro e introspetivo que Nolan soube tão bem explorar com a interpretação de Christian Bale. Em Liga da Justiça, mais do que em Batman VS Superman, vemos um Batman que está ligeiramente abaixo do standard dos restantes companheiros em matéria de super-poderes, que precisa da ajuda dos amigos e da sua carroçaria dispendiosa. Flash e Mulher-Maravilha são as personagens mais cativantes do filme, na minha opinião. O Super-Homem está mais ameaçador do que alguma vez o vimos, mas os seus diálogos são poucos e superficiais.

Se há uma coisa que Liga da Justiça conseguiu fazer para mim, foi tornar o Super-Homem mais interessante (pessoalmente nunca lhe achei grande piada), talvez por trazer ao de cima um lado mais negro e por nos fazer, talvez pela primeira vez, ter medo dele. É que ele é mesmo super-forte. E se um dia se chateia com a Humanidade, estão todos mais ao menos em apuros. De resto, as personagens não são grandemente desenvolvidas e o que nos é dado delas é como uma porção pequena de uma refeição que gostaríamos de ter em prato cheio.

É sempre um pouco injusto, mas inevitável, comparar a Marvel à DC, especialmente quando a DC procura construir o mesmo tipo de lógica que a Marvel conquistou com os Avengers. A diferença, aqui, e um dos pontos mais fortes no caso dos Avengers, é que eles são fortes sozinhos, mas são ainda mais interessantes quando estão juntos, e há espaço de antena em igualdade para todos. Em Liga da Justiça, temos um Ciborgue que podia estar lá ou não, não se notaria grande diferença, uma Mulher-Maravilha a ser awesome como é seu costume, o Flash, do altamente versátil Ezra Miller, que espelha a admiração que deveríamos sentir por estes heróis, e um Aquaman que pouco ou nada fala, mas cujo filme a solo é capaz de ser porreiro. É como se eles, afinal, fossem melhores sozinhos do que juntos. Talvez a DC esteja ainda a aprender e a melhorar a cada filme. Quero dar-lhe o benefício da dúvida porque o material com que têm para trabalhar é altamente rico e talvez até tenham trunfos na manga em relação à Marvel. Se os souberem usar. De qualquer forma, podia-se ter feito um bocadinho mais de justiça à Liga da Justiça.

 

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