This is not going to go the way you think.

Se há afirmação que resume exactamente o oitavo episódio de Star Wars é esta. Ao longo do filme, nada daquilo que estamos à espera acontece. E, na minha opinião, este é o verdadeiro ponto de clivagem entre os defensores do Last Jedi e os seus opositores.

Em primeiro lugar, temos finalmente o regresso de Luke Skywalker, mítico herói da Aliança Rebelde, que destruiu a Estrela da Morte e redimiu Darth Varder. Passaram-se 30 anos e o herói que vemos agora é um herói mais real, amargurado pela vida e pelas suas próprias acções e erros. A Força é um ténue equilíbrio entre o Bem e o Mal e o Luke não está imune ao Lado Negro. É isto que Luke teme e é isto que o faz cair em tentação, apenas para se aperceber do seu erro, já demasiado tarde, levando-o a ser o propulsor da criação de Kylo Ren. O Luke que vemos agora já não tem os olhos cheios de esperança, não acredita nos dogmas dos Jedi (ou tenta convencer-se que já não acredita).

Até que lhe aparece uma miúda à porta, tão cheia de esperança como o jovem Luke. Uma das coisas que Last Jedi nos mostra é o crescimento dos personagens individualmente. Ao dividir as histórias, permite que cada personagem crie uma identidade mais marcada e amadureça. Nesta história, Rey apercebe-se que há sempre dois lados da história e que nem tudo são verdades absolutas. Aprende também a levitar rochas, numa clara alusão ao treino de Luke em Dagobah. Será interessante observar a evolução da Rey no episódio IX.

E o que dizer sobre Kylo Ren? Rian tomou riscos e fê-lo a meu ver especialmente nesta personagem. Kylo tinha de crescer e de evoluir enquanto personagem. Se Kylo tem de se tornar o maior vilão da saga, tem de esquecer o passado e desprender-se das rédeas que o limitam. O fim de Snoke é inesperado. Talvez tenha sido o mais inesperado de todo o filme. E assim Kylo Ren prova que é capaz de chegar onde nunca Darth Vader chegou ou sonhou chegar, libertando-se das amarras do seu mentor numa conquista de poder desmesurada.

Holdo também foi uma boa surpresa. Creio que estávamos todos à espera de a odiar, no momento em que substitui Leia no comando da Raddus. Mas as opiniões mudam quando Holdo dá meia volta à nave que agora habita sozinha, para destruir a Supremacy, num golpe de edição magnífico que até “obrigou” a cadeia de cinemas AMC a emitir um aviso aos espectadores.  

Em duas visualizações do filme (brevemente três), não senti que existissem maus diálogos (lembram-se de Revenge of the Sith?), o Adam Driver dá tudo, Mark Hamill fez, provavelmente, a melhor interpretação da sua carreira enquanto actor e não enquanto locutor, Daisy Ridley não desilude e Carrie Fisher brilha na sua última interpretação (sim, e também voa, o que é surpreendente para um público que nunca viu Leia demonstrar a Força). Até ver, a única coisa que me fez mais confusão do ponto de vista de narrativa é como é que a Rey sai da Supremacy. Por certo a Millennium Falcon voltou para a buscar, mas senti falta de uma cena intermédia que explicasse esse passo – talvez seja uma das cenas que já não coube na edição, o que me deixa ainda com maior curiosidade para ler o livro.

Para quem seguiu todos os trailers e as entrevistas, uma coisa é certa: o Last Jedi é diferente de tudo o que já vimos nos filmes de Star Wars e é isso que o afasta tanto daquele momento mágico que foi o Force Awakens, tão amplamente criticado por ser uma cópia do A New Hope e agora levantado em ombros. “JJ volta, estás perdoado” é o que mais se tem lido no muro das lamentações que é o Facebook. Para mim, Rian Johnson tomou um rumo corajoso, foi audaz na história que contou. Fez algo diferente, disso ninguém se pode queixar. E essa é a única forma de Star Wars evoluir. É preciso “esquecer o passado” para criar algo de novo.

Entrei na sala pela primeira vez cheia de expectativas e saí de lá sem saber bem o que tinha visto. Era muita informação para digerir. Mas chorei (aquela cena do Luke na Millennium Falcon, quando o R2 passa a gravação da Princesa Leia) e ri, aliás, ri-me durante todo o filme. E, se a verdadeira essência do cinema é entreter, então o Last Jedi fez exactamente isso.

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