O desconforto de nos vermos ao espelho: “Get Out”

Encontrar o terror no bizarro mundo da “white guilt”.

 

Título Português: Foge (EUA, JAP – 2017)
Realizador: Jordan Peele
Argumento: Jordan Peele
Protagonistas: Daniel Kaluuya, Allison Williams, Bradley Whitford

Nomeações: 4 (Melhor Filme, Melhor Realizador, Melhor Ator Principal, Melhor Argumento Original)

Chris, um rapaz negro, namora com Rose, uma rapariga branca. Em pleno século XXI, isto não deveria necessariamente ser motivo de notícia, mas vamos ser sinceros – ainda é. Mas Rose não tem qualquer problema com isso. E, garante, os pais dela também não. Na verdade, quando os conhece, eles são extra simpáticos para o novo namorado da sua filha. Talvez um pouco simpáticos demais, até…

É esta a base para um dos mais provocadores filmes do ano. Realizado por Jordan Peele, que se estreia na realização depois de vários anos a assumir-se como uma voz essencial da comédia norte-americana, “Get Out” cruza a mais ácida sátira social com uma simultânea subversão e celebração dos estereótipos do cinema de terror. Acima de tudo, Peele consegue deixar-nos em suspenso durante quase todo o filme exatamente por nos confrontar com a nossa tendência para “normalizar” comportamento que devia ser tudo menos normal.

Talvez por isso demoremos tanto tempo a perceber as motivações do seu protagonista, Chris, interpretado de forma brilhante por Daniel Kaluuya, que muitos conheciam previamente do seu memorável desempenho num episódio de “Black Mirror”. Kaluuya faz uma transição muito precisa entre o desconforto normal de um homem negro a navegar o mundo da “white guilt” e o medo de alguém a lutar pela sua vida. O facto de conseguir brilhar quando rodeado por um elenco com nomes como Allison Williams, Bradley Whitford ou Catherine Keener, é tudo o que precisamos de saber sobre a sua presença em cena.

Jordan Peele recebeu, na sua estreia, três nomeações ao Óscar, num raro reconhecimento madrugador de um artista com talento a transbordar pelos poros e sem medo de apostar em algo diferente. Um homem com um conhecimento enciclopédico dos dogmas do terror e um instinto natural para encontrar o humor até nos contextos mais perturbadores.

O resultado da sua coragem é uma obra que tanto nos faz rir como enterrar na cadeira do cinema com medo do que poderá acontecer a seguir. Um filme de terror que conseguiu ser nomeado ao Óscar devido à sua coragem para assumir riscos – talvez um sinal que a Academia poderá estar finalmente a renovar-se e a mostrar uma maior abertura a filmes que não pensaríamos necessariamente como sendo “de Óscar”.

Dada a recorrência apertada este ano, há uma forte possibilidade de “Get Out” sair da cerimónia sem qualquer estatueta, mas só as nomeações que teve já são um feito impressionante. E poucas me deixaram tão contente quando foram anunciadas.

 

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