O poder das palavras e dos silêncios: “Molly’s Game / Logan / The Big Sick”

De como um grande texto faz nascer um grande filme.

 

Molly’s Game

Título Português: Jogo da Alta-Roda (EUA, CHI, CAN – 2017)
Realizador: Aaron Sorkin
Argumento: Aaron Sorkin
Protagonistas: Jessica Chastain, Idris Elba, Kevin Costner

Nomeações: 1 (Melhor Argumento Adaptado)

Aaron Sorkin escreve de uma forma que pode não ser para todos. Há uma musicalidade e ritmo nos seus diálogos que empresta aos seus textos uma característica incomparável. Para que fique bem explícito, Sorkin é um dos meu autores modernos favoritos, por isso posso estar a ser levemente parcial. Tudo isto para dizer que, na sua estreia como realizador, Aaron Sorkin não podia ter criado uma obra mais… “Sorkinesca”. Para os seus diálogos resultarem, é obrigatório ter executantes da mais suprema qualidade – e não podíamos escolher melhores atores que Jessica Chastain e Idris Elba. Principalmente nos momentos em que interagem, há uma química (não-sexual) inata que faz com que as suas cenas transbordem carisma por todos os poros. Inspirada numa história real (ainda que isso não seja o mais relevante para Sorkin), o filme narra a improvável ascensão e queda de Molly Bloom, uma antiga atleta que acabou por se tornar a promotora de um dos mais influentes jogos de póker ilegal em Hollywood. Mais do que apenas uma coleção de cenas bem escritas, Sorkin mostra uma mão bastante segura atrás das câmaras, talvez fruto de saber de forma incrivelmente precisa exatamente aquilo que quer ver em cada cena. Como li, algures na Internet, a vida devia ser toda escrita pelo Sorkin.

Classificação: ⭐️⭐️⭐️⭐️1/2 (4,5 Estrelas)

 

Logan

Título Português: Logan (EUA, CAN, AUS – 2017)
Realizador: James Mangold
Argumento: Scott Frank, James Mangold, Michael Green
Protagonistas: Hugh Jackman, Patrick Stewart, Dafne Keen

Nomeações: 1 (Melhor Argumento Adaptado)

A maioria dos filmes de super-heróis têm como principal objetivo serem uma boa fonte de entretenimento. E não há qualquer problema nisso. Quando bem executados, podem ser das melhores experiências que podemos ter numa sala de  cinema. Outros, como “Logan”, usam os moldes do cinema “blockbuster” para refletir sobre temas que o transcendem. Neste caso, o inexorável peso da idade e como pode afetar a nossa auto-estima. Para esse efeito, James Mangold criou um futuro distópico em que uma misteriosa doença tornou os mutantes mais vulneráveis à degradação do corpo e os colocou inesperadamente em confronto com a sua própria mortalidade. Hugh Jackman e Patrick Stewart regressam a este mundo para encarnar Wolverine e Charles Xavier, respetivamente, num momento das suas vidas em que o heroísmo se tornou uma memória distante. Mas quando lhes aparece pela frente uma jovem mutante (a excelente estreante de apenas 12 anos, Dafne Keen) perseguida por uma organização obscura, têm de ressuscitar as suas forças dormentes para tentar garantir o futuro da sua espécie – ainda que não necessariamente os seus, individualmente. Construído ao estilo de um “western” moderno, a relativa simplicidade desta história é exatamente o que a torna tão brilhante – e uma inesperada mas mais que justa candidata a uma estatueta a 4 de Março.

Classificação: ⭐️⭐️⭐️⭐️1/2 (4,5 Estrelas)

 

The Big Sick

Título Português: Amor de Improviso (X – 2017)
Realizador: Michael Showalter
Argumento: Emily V. Gordon, Kumail Nanjiani
Protagonistas: Kumail Nanjiani, Zoe Kazan, Holly Hunter

Nomeações: 1 (Melhor Argumento Original)

Esta é uma história de amor. De todo o tipo de amor. Romântico e intempestivo, maternal e paternal, falado e escondido. É uma história sobre como as melhores relações nascem não apenas das suas glórias mas também dos seus obstáculos. “The Big Sick” é o relato real de como Kumail Nanjiani e Emily V. Gordon – os argumentistas – se conheceram, sentiram uma faísca imediata e depois deixaram que as pressões familiares os separassem. E, depois, Emily entrou em coma com uma infeção grave e Kumail viu-se de novo confrontado com os seus verdadeiros sentimentos – e forçado a lidar também com os peculiares pais de Emily. Este filme é um triunfo. É uma comédia hilariante que me deixou constantemente no limite das lágrimas. É uma comédia romântica que não segue necessariamente as normas do que normalmente esperamos. É tudo isto mas, acima de tudo, é verdadeiro. Não há um segundo que não transpire honestidade por cada um dos seus poros. Nos momentos altos e baixos, na chama das cenas de amor e no desconforto das interações familiares, não há qualquer dúvida, em nenhum momento, que esta história, invulgar que é, podia acontecer a qualquer um de nós. Para além do argumento, que é um triunfo de como contar uma história complexa de uma forma simples e honesta, tenho de destacar também o excelente trabalho dos atores, desde os protagonistas Nanjiani e Zoe Kazan a Holly Hunter e Ray Romano, que são absolutamente demolidores como os pais de Emily, cristalizando a sublime fusão entre comédia e drama que eleva este filme ao panteão dos melhores deste belo ano cinematográfico que passou.

Classificação: ⭐️⭐️⭐️⭐️⭐️ (5 Estrelas)

 

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