A força imparável de uma mulher furiosa: “Three Billboards Outside Ebbing, Missouri”

De como é raro contar bem uma história.

 

Título Português: Três Cartazes à Beira da Estrada (EUA, UK – 2017)
Realizador: Martin McDonagh
Argumento: Martin McDonagh
Protagonistas: Frances McDormand, Sam Rockwell, Woody Harrelson

Nomeações: 7 (Melhor Filme, Melhor Atriz Principal, Melhor Ator Secundário, Melhor Ator Secundário, Melhor Argumento Original, Melhor Banda Sonora Original, Melhor Montagem)

Quem conhece o estilo do dramaturgo, argumentista e realizador inglês Martin McDonagh, sabe o quanto este gosta de provocar. Basta ver filmes como “In Bruges” ou “Seven Psychopaths” para perceber o quanto este artista gosta de nos espicaçar onde dói mais, ao mesmo tempo que esconde (mal) um sorriso trapaceiro. “Three Billboards Outside Ebbing, Missouri” é, muito possivelmente, a cristalização perfeita desta visão singular de McDonagh. É uma obra que se contorce por caminhos tortuosos e surpreendentes até chegar, quase inesperadamente, ao sublime.

Uma das escolhas mais arrojadas de McDonagh neste filme é também o que o torna tão desconcertante e, simultaneamente, genial. Ora vejamos: esta é uma história sobre uma mãe que, após ter a sua filha morta e violada, exige ação por parte da polícia. Quando não a tem, coloca enormes cartazes publicitários a humilhá-los e enfrenta de frente uma força policial que conta com alguns elementos que não olham a meios para a fazer parar. E, no entanto, acreditariam se eu vos dissesse que esta é uma das melhores comédias do ano?

No centro deste jogo de equilíbrio entre o humor e a tragédia está a performance titânica de Frances McDormand como Mildred Hayes. O filme foi escrito por McDonagh com a veterana atriz em mente e explora de forma sublime a força inata que parece emanar de cada um dos seus olhares e gestos. Com cada obstáculo aparentemente intransponível que lhe surge pela frente, a sua face rude e resoluta parece franzir um pouco mais e, com um sorriso sabedor e uma tirada sarcástica, a zangada mãe segue em frente com a sua missão.

Pela sua frente, tem de lidar com o chefe da polícia local, encarnado de forma enganadoramente subtil por Woody Harrelson, e um dos seus agentes mais imprevisíveis, interpretado por Sam Rockwell com um misto de raiva mal contida e ignorância extrema que o torna um completo “joker” na narrativa. Harrelson e Rockwell merecem na totalidade as nomeações que receberem e Rockwell, há muito um ator altamente respeitado na indústria, está na linha da frente para sair com o prémio.

Não queria terminar este texto sem realçar também a excelente banda sonora que Carter Burwell criou para este filme deliciosamente invulgar, com sonoridades que fazem tanto lembrar o tom bucólico da vida no interior com a ameaça escondida de se viver numa terra onde todos se conhecem mas ninguém necessariamente confia no próximo.

No que respeita a feitos técnicos, há uma forte possibilidade de vermos, ao longo desta viagem cinematográfica rumo aos Óscares, obras mais impressionantes visualmente e com floreados plásticos mais ambiciosos. “Three Billboards” não é mais que uma excelente história muito bem contada. Se há coisa que aprendi ao longo de todos estes anos dedicados ao cinema, é que há poucos feitos mais impressionante de se alcançar. Faltam-me as palavras corretas para descrever o quanto eu adorei este filme. Talvez dizer que Frances McDormand é uma “badass”. Sim, acho que isso chega.

 

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