Um raio de idealismo num mundo à deriva: “The Post”

As crises do passado a informarem os problemas do presente.

 

Título Português: The Post (EUA, UK – 2017)
Realizador: Steven Spielberg
Argumento: Liz Hannah, Josh Singer
Protagonistas: Meryl Streep, Tom Hanks, Bob Odenkirk

Nomeações: 2 (Melhor Filme, Melhor Atriz Principal)

Como avaliar um filme cuja importância transcende a sua mera execução artística? Devo deixar a minha parcialidade subjetiva influenciar a minha análise ou colocar-me completamente na pele de um “crítico” que só olha para um filme como um filme e nada mais? Em boa verdade, a minha opinião final desta obra não mudaria assim tanto, mas foi uma dúvida que me bailou na cabeça enquanto preparava este texto.

Em “The Post”, Steven Spielberg usa um marco na luta pela liberdade da imprensa que aconteceu nos anos 70 para fazer um comentário quase direto ao chorrilho interminável de atrocidades cometidas em tão pouco tempo por Donald Trump.

O caso? A publicação, em 1971, por parte do Washington Post, dos Pentagon Papers, um conjunto de documentos secretos que desmascararam o envolvimento dos EUA na Guerra do Vietname e o modo como vários presidentes mentiram abertamente aos cidadãos norte-americanos sobre o que estava a acontecer no outro lado do mundo e as verdadeiras razões porque tantos jovens soldados morreram.

A história é contada através de vários intervenientes de relevo, mas destacam-se em especial três. No topo, temos Meryl Streep, absolutamente fenomenal como Katharine Graham, a dona do Washington Post, que sofreu muita pressão dos seus acionistas para manter o jornal o mais inofensivo possível, para não afastar potenciais investidores, numa altura em que sofriam sérios problemas monetários. Streep encarna Graham como uma mulher vulnerável e levemente insegura num mundo de homens que não a respeitam pela simples realidade de ser uma mulher. O modo como ela retrata a crescente confiança de Katharine Graham sem nunca se tornar um cliché é a prova número 1743 do talento desconcertante de Meryl Streep.

A rodear esta brilhante performance, temos também Tom Hanks, a retirar das suas entranhas todo o carisma arrogante possível para dar voz ao carismático e irredutível editor do Washington Post, Ben Bradlee. Também impecável está Bob Odenkirk, como Ben Bagdikian, o jornalista do Post que ataca principalmente a história e que se torna um dos mais ferozes defensores da sua publicação, independentemente das pressões do Governo de Nixon.

“The Post” é uma história impecavelmente bem contada, ou não fosse ela realizada por um dos maiores mestres de Hollywood, Steven Spielberg. Tal como tinha feito com “Lincoln”, Spielberg consegue transformar aquilo que poderia ter sido uma mera lição de história num conto de superação, através da decisão acertada de se focar no lado humano em vez da mera recitação de factos.

Se o filme é perfeito? Não necessariamente. Nas últimas cenas, a mensagem “anti-censura” torna-se um pouco óbvia demais, com alguns discursos longos que tornam o intuito do filme literal a tal ponto que lhe retira alguma da subtileza dramática que tinha tido durante os primeiros 90 minutos. Foi essa a decisão que me fez ponderar dar um leve corte na minha avaliação final do filme, mas acabei por decidir manter a minha nota original. Porquê? Porque quero que o Trump se foda. Já vi piores razões.

 

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